{"id":21346,"date":"2012-12-12T11:57:00","date_gmt":"2012-12-12T11:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21346"},"modified":"2012-12-12T11:57:00","modified_gmt":"2012-12-12T11:57:00","slug":"ainda-tem-sentido-falar-do-pecado-original-se-afinal-descendemos-de-primatas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ainda-tem-sentido-falar-do-pecado-original-se-afinal-descendemos-de-primatas\/","title":{"rendered":"Ainda tem sentido falar do pecado original se afinal descendemos de primatas?"},"content":{"rendered":"<p>Perguntas e respostas de antropologia teol\u00f3gica &#8211; 2<\/p>\n<p>Esa\u00e7o da responsabilidade do ISCRA &#8211; Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro <!--more--> A interroga\u00e7\u00e3o \u00e9 frequente, mas parte de um equ\u00edvoco que a hist\u00f3ria dos \u00faltimos dois s\u00e9culos de rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e teologia demorou a denunciar e superar, mas que, desde a d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo XX tem vindo a ser ultrapassado.<\/p>\n<p>O equ\u00edvoco \u00e9 amplo, mas a exiguidade do espa\u00e7o de que dispomos obriga a resumi-lo.<\/p>\n<p>Em suma, presume-se, na pergunta, que, se somos fruto da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, como vem sendo defendido desde 1859, ano de \u00abA origem das esp\u00e9cies\u00bb, de Darwin, tudo o que pens\u00e1vamos ser a interpreta\u00e7\u00e3o sobre a cria\u00e7\u00e3o do Homem est\u00e1 errado. Mais ainda, se assim \u00e9, e se, como assegura a teoria evolucionista, o homem n\u00e3o tem origem de um s\u00f3 casal de primatas, mas de v\u00e1rios, precisos para assegurar a multiplicidade gen\u00e9tica necess\u00e1ria \u00e0s muta\u00e7\u00f5es eficazes necess\u00e1ris para o sucesso da evolu\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, todo o texto b\u00edblico das duas tradi\u00e7\u00f5es fundamentais que falam sobre a cria\u00e7\u00e3o do homem est\u00e1 errado.<\/p>\n<p>E, de facto, se pretendermos fazer uma interpreta\u00e7\u00e3o literalista dos textos, esquecendo a sua dimens\u00e3o simb\u00f3lica, por um lado, e a sua natureza religiosa e teol\u00f3gica, por outro, ent\u00e3o, estamos diante de um conflito insan\u00e1vel, de que resultar\u00e1 derrota ou vit\u00f3ria para a ci\u00eancia ou para a teologia.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, os tempos que decorreram entre o emergir do evolucionismo e meados do s\u00e9culo XX n\u00e3o foram f\u00e1ceis, mas, gra\u00e7as ao contributo de homens como Teilhard de Chardin, Dordolot, Messenger, etc., foi poss\u00edvel compreender que o texto b\u00edblico n\u00e3o ficava em causa com as conquistas da ci\u00eancia, se as interpreta\u00e7\u00f5es se ativessem ao que era a inten\u00e7\u00e3o do texto.<\/p>\n<p>Para tal, era necess\u00e1rio come\u00e7ar por compreender que a ordem da natureza se guiava por causas segundas, as da gera\u00e7\u00e3o e da muta\u00e7\u00e3o. Um pai gera um filho. Mas, era isso \u00abcriar\u00bb?<\/p>\n<p>\u00abCriar\u00bb, atributo exclusivo de Deus, teria de ser de uma outra ordem, s\u00f3 abarc\u00e1vel por aproxima\u00e7\u00f5es: as aproxima\u00e7\u00f5es a que a linguagem simb\u00f3lica e po\u00e9tica deitam m\u00e3o e tornam poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Criar era da ordem da causa primeira e, tamb\u00e9m, da causa final, como bem recordara, sempre, a filosofia cl\u00e1ssica. Neste sentido, a obra de cria\u00e7\u00e3o de Deus, da ordem do porqu\u00ea e para qu\u00ea \u00faltimos, n\u00e3o podia confundir-se com os modos de gerar, que as ci\u00eancias se prop\u00f5em descortinar.<\/p>\n<p>Feita esta distin\u00e7\u00e3o, de ordem epistemol\u00f3gica e hermen\u00eautica, re\u00fanem-se condi\u00e7\u00f5es para come\u00e7ar a compreender que a pr\u00f3pria interroga\u00e7\u00e3o sobre a pecaminosidade e necessidade de reden\u00e7\u00e3o do ser humano n\u00e3o estava dependente das respostas de tipo cient\u00edfico. \u00c9 que perguntar-se sobre a condi\u00e7\u00e3o original de pecado do homem era interrogar-se n\u00e3o simplesmente sobre se \u00e9ramos herdeiros de um limite que marcava a nossa natureza (Trento j\u00e1 dissera que n\u00e3o pec\u00e1vamos por imita\u00e7\u00e3o, mas que tal nos era transmitido como uma inscri\u00e7\u00e3o na nossa natureza), mas principalmente sobre como \u00e9 poss\u00edvel pretender-se o bem e, afinal, realizar-se o mal. Ora, a doutrina do pecado original, na qual se fala de uma condi\u00e7\u00e3o originante (desde que o homem \u00e9 homem, desde que \u00e9 posto na condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica) e originada (cada homem que nasce traz essa marca indel\u00e9vel) afirma, fundamentalmente, que o pecado n\u00e3o tem origem em Deus, nem em cada um de n\u00f3s: \u00e9 transcendente a cada homem, mas inferior a Deus. Pensar as coisas de outro modo teria de significar uma de duas coisas: ou que o mal era criado por cada homem, o que \u00e9 um absurdo. O \u00abmist\u00e9rio da iniquidade\u00bb submerge o homem ao ponto de lhe desafiar a liberdade! Ou, ent\u00e3o, que Deus seria o criador simult\u00e2neo do bem e do mal, o que n\u00e3o seria absurdo menor. A doutrina do pecado original \u00e9, neste quadro, a salvaguardar do justo equil\u00edbrio entre os dois absurdos, salvaguardando, ainda, a universalidade da salva\u00e7\u00e3o trazida, de uma vez por todas, por Jesus Cristo. Assim saibamos l\u00ea-la e interpret\u00e1-la com linguagem dos novos tempos.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Silva<\/p>\n<p>Prinicpais conceitos e refer\u00eancias<\/p>\n<p>Charles Darwin (1809-1882) \u2013 Bi\u00f3logo brit\u00e2nico que prop\u00f4s a teoria da evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos por meio da sele\u00e7\u00e3o natural e sexual. Esta teoria, que hoje re\u00fane grande consenso na comunidade cient\u00edfica, surgiu pela primeira vez no livro de 1859 \u201cA origem das esp\u00e9cies\u201d (nome completo: \u201cSobre a origem das esp\u00e9cies por meio da sele\u00e7\u00e3o natural ou a preserva\u00e7\u00e3o das ra\u00e7as mais aptas na luta pela vida\u201d) e aplica-se a todos os seres vivos.<\/p>\n<p>Cria\u00e7\u00e3o do Homem \u2013 Doutrina teol\u00f3gica, neste contexto, que afirma que o ser humano (homem e mulher) foi e \u00e9 criado por Deus, \u201c\u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a\u201d. Esta doutrina apoia-se nos primeiros cap\u00edtulos do G\u00e9nesis, onde se afirma que Deus criou Ad\u00e3o (do hebraico \u201cadam\u00e1\u201d, que significa \u201cterra\u201d, \u201cbarro\u201d) e Eva (do hebraico \u201chav-v\u00e1h\u201d, que significa \u201cvivente\u201d).<\/p>\n<p>Teoria evolucionista \u2013 Explica\u00e7\u00e3o da biologia que admite a evolu\u00e7\u00e3o org\u00e2nica das esp\u00e9cies de seres menos evolu\u00eddos para mais evolu\u00eddos. J\u00e1 existia antes de Darwin, mas este prop\u00f4s uma teoria com base na sele\u00e7\u00e3o natural dos mais fortes. O evolucionismo op\u00f5e-se ao criacionismo enquanto doutrina biol\u00f3gica. Apesar de terem pouco cr\u00e9dito, h\u00e1 defensores do criacionismo biol\u00f3gico (muitos nos EUA), por vezes lendo a B\u00edblia como se fosse um livro de ci\u00eancias naturais.<\/p>\n<p>Interpreta\u00e7\u00e3o literalista \u2013 Tomar o texto b\u00edblico ao p\u00e9 da letra. Esta interpreta\u00e7\u00e3o parte do princ\u00edpio de que a B\u00edblia, sendo Palavra de Deus inspirada e isenta de erro, deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes. \u00c9 o tipo de leitura preferida pelas correntes fundamentalistas.<\/p>\n<p>Teilhard de Chardin (1881-1955) \u2013 Padre jesu\u00edta franc\u00eas, te\u00f3logo e palent\u00f3logo. Esfor\u00e7ou-se por construir uma vis\u00e3o harmoniosa entre as ci\u00eancias naturais e a teologia, sendo criticado, no seu tempo, pelos dois lados, cientistas e homens da Igreja. Principal obra: \u201cO Fen\u00f3meno Humano\u201d.<\/p>\n<p>Epistemologia \u2013 Ramo da filosofia que estuda os princ\u00edpios, hip\u00f3teses e resultados das diversas ci\u00eancias, com o fim de determinar a origem l\u00f3gica e o valor do conhecimento.<\/p>\n<p>Hermen\u00eautica &#8211; Ramo da filosofia que estuda o modo correto de interpretar os textos. Tem uma import\u00e2ncia crucial nas ci\u00eancias b\u00edblicas.<\/p>\n<p>Trento \u2013 19.\u00ba conc\u00edlio ecum\u00e9nico. Aconteceu na cidade de Trento, norte de It\u00e1lia, de 1545 a 1563. Foi convocado principalmente para responder \u00e0 Reforma Protestante.<\/p>\n<p>Pecado original \u2013 \u201cFalta original, livremente cometida pelos nossos primeiros pais\u201d, que marca \u201ctoda a hist\u00f3ria humana\u201d (Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, n.\u00ba 390).<\/p>\n<p>\u00abMist\u00e9rio da iniquidade\u00bb &#8211; Express\u00e3o popularizada por Jo\u00e3o Paulo II, por vezes em latim (\u201cmysterium iniquitatis\u201d), para afirmar que o mal ultrapassa as explica\u00e7\u00f5es humanas. A express\u00e3o foi utilizada pela primeira vez na Segunda Carta aos Tessalonicenses (2 Te 2,7).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perguntas e respostas de antropologia teol\u00f3gica &#8211; 2 Esa\u00e7o da responsabilidade do ISCRA &#8211; Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-21346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-formacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21346\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}