{"id":21404,"date":"2012-11-28T16:23:00","date_gmt":"2012-11-28T16:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21404"},"modified":"2012-11-28T16:23:00","modified_gmt":"2012-11-28T16:23:00","slug":"a-catedra-dos-nao-crentes-e-o-atrio-dos-gentios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-catedra-dos-nao-crentes-e-o-atrio-dos-gentios\/","title":{"rendered":"A c\u00e1tedra dos n\u00e3o crentes e o \u00e1trio dos gentios"},"content":{"rendered":"<p>Em tempos recentes e p\u00f3s-conciliares, a Igreja despertou mais para os n\u00e3o crentes e abriu portas para o encontro respeitoso e consequente com eles. Em s\u00e9culos passados, a preocupa\u00e7\u00e3o era sobretudo com os pag\u00e3os de terras long\u00ednquas e, nesse sentido, se orientava a atividade mission\u00e1ria. Num ou noutro bispo, a sensibilidade a situa\u00e7\u00f5es novas j\u00e1 levava a dizer, como o fez o Cardeal Cerejeira, que a miss\u00e3o estava \u00e0s portas de Lisboa. O primeiro grito veio de Fran\u00e7a, onde se proclamava a necessidade de uma Igreja em miss\u00e3o e onde surgiu, entre outros, o movimento dos padres oper\u00e1rios, desejosos de serem testemunhas do Evangelho no mundo do trabalho duro e mal pago das f\u00e1bricas e dos portos mar\u00edtimos. Um bispo auxiliar de Lyon, Mons. Ancel, optou ele mesmo por esse caminho de oper\u00e1rio, durante as horas normais de trabalho de qualquer oper\u00e1rio, reservando o fim da tarde e o ser\u00e3o para o trabalho episcopal. Sendo a miss\u00e3o dos padres oper\u00e1rios, concreta e urgente, para acordar sonolentos e adormecidos para a evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e0 porta de casa, as inst\u00e2ncias romanas nunca o entenderam assim. Acabou por se abafar um sonho lindo e assim se calarem compulsivamente vozes inquietas pelas urg\u00eancias do Evangelho. Paulo VI, remando contra a mar\u00e9 exaltada que o cercava, convidou um padre oper\u00e1rio para pregar o seu retiro e dos membros da C\u00faria Romana\u2026<\/p>\n<p>Neste clima de sonhos e urg\u00eancias, de insensibilidades e normas can\u00f3nicas, surgiu o Conc\u00edlio. A\u00ed se dissertou, livremente, sobre os graus de perten\u00e7a religiosa dos crist\u00e3os, mas, tamb\u00e9m, sobre a multid\u00e3o crescente dos que, fora da Igreja, haviam montado as suas tendas, ali ao lado, sem nostalgias religiosas e sem confian\u00e7a e aceita\u00e7\u00e3o dos caminhos em aberto. Os padres conciliares refletiram sobre o ate\u00edsmo e n\u00e3o ocultaram as culpas pr\u00f3prias, que, por vezes, mais mostravam caricaturas de Deus, que o Seu rosto aberto do amor que salva.<\/p>\n<p>Os ateus e os n\u00e3o crentes estavam no seio das comunidades, onde tamb\u00e9m estava a Igreja a viver as dificuldades da sua convers\u00e3o \u00e0 miss\u00e3o. Jo\u00e3o XXIII rompera o c\u00edrculo da indiferen\u00e7a para com aqueles que se iam tornando maioria, abateu muros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras confiss\u00f5es crist\u00e3s, e o Conc\u00edlio, corajosamente, tomara decis\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo com as religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s e sobre a liberdade religiosa. Agora, s\u00f3 era preciso a coragem de iniciativas e de a\u00e7\u00f5es que mostrassem que a Igreja tomara a s\u00e9rio o Vaticano II. E essas iniciativas surgiram em Mil\u00e3o com o Cardeal Carlo Martini.<\/p>\n<p>Era importante dar \u201cc\u00e1tedra\u201d aos n\u00e3o crentes, ou seja, proporcionar-lhes espa\u00e7o e tempo pr\u00f3prio para se exprimirem livremente e ouvirem quem bebesse do Evangelho, mais do que de regras e proibi\u00e7\u00f5es can\u00f3nicas. \u201cC\u00e1tedra dos N\u00e3o Crentes\u201d, assim se chamou esta audaciosa iniciativa, \u00e0 qual o Cardeal Martini, ele pr\u00f3prio, n\u00e3o se furtou a dar a cara no di\u00e1logo longo com Umberto Eco. Ficou a coragem em livro, tamb\u00e9m publicado em portugu\u00eas, com o t\u00edtulo expressivo \u201cEm que cr\u00ea quem n\u00e3o cr\u00ea\u201d. Pela C\u00e1tedra de Mil\u00e3o, uma iniciativa regular e c\u00edclica, passaram fil\u00f3sofos e pensadores, ateus e agn\u00f3sticos, indiferentes satisfeitos e gente ansiosa de verdade.<\/p>\n<p>O Cardeal Ravasi, chamado para Roma para fomentar o di\u00e1logo da Igreja com a cultura, era um padre de Mil\u00e3o. A\u00ed bebeu as intui\u00e7\u00f5es pastorais de Martini e aprendeu das suas iniciativas corajosas. Assim, dentro do seu novo encargo, lan\u00e7ou na Igreja o \u201c\u00c1trio dos Gentios\u201d, que vem sendo acolhido, com \u00eaxito, nos diversos pa\u00edses da Europa. Por certo, se estende e estender\u00e1 a outros pa\u00edses e continentes, que v\u00e3o despertando para a nova realidade das perten\u00e7as religiosas, dentro e fora do \u00e2mbito eclesial.<\/p>\n<p>A iniciativa, a que n\u00e3o faltou aparato, teve, entre n\u00f3s, a sua primeira vers\u00e3o em Guimar\u00e3es, Capital Europeia da Cultura, e em Braga, Capital Europeia da Juventude. Duas cidades em que, para al\u00e9m da sua hist\u00f3ria e t\u00edtulos recentes, a iniciativa se enquadra bem no mundo dos problemas e preocupa\u00e7\u00f5es pastorais, a que o esp\u00edrito da velha cristandade, que ainda por ali mant\u00e9m ra\u00edzes, folhas e frutos, j\u00e1 n\u00e3o pode responder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos recentes e p\u00f3s-conciliares, a Igreja despertou mais para os n\u00e3o crentes e abriu portas para o encontro respeitoso e consequente com eles. Em s\u00e9culos passados, a preocupa\u00e7\u00e3o era sobretudo com os pag\u00e3os de terras long\u00ednquas e, nesse sentido, se orientava a atividade mission\u00e1ria. 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