{"id":2141,"date":"2010-07-21T16:34:00","date_gmt":"2010-07-21T16:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2141"},"modified":"2010-07-21T16:34:00","modified_gmt":"2010-07-21T16:34:00","slug":"a-arrogancia-de-dizer-nao-a-um-nobre-arabe-abriu-me-as-portas-do-medio-oriente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-arrogancia-de-dizer-nao-a-um-nobre-arabe-abriu-me-as-portas-do-medio-oriente\/","title":{"rendered":"&#8220;A arrog\u00e2ncia de dizer \u00abn\u00e3o\u00bb a um nobre \u00e1rabe abriu-me as portas do M\u00e9dio Oriente&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Agostinho Gomes Duarte, 58 anos, trabalha artisticamente o azulejo. Pain\u00e9is seus podem ser apreciados num pal\u00e1cio da Ar\u00e1bia Saudita, num centro de congressos de Paris ou numa associa\u00e7\u00e3o de emigrantes em Newark (EUA). Com ateli\u00ea e f\u00e1brica em Espairo (Curia, Anadia), numa altura em que acontecem um pouco por todo o pa\u00eds feiras de artesanato, o Correio do Vouga foi conhecer o artista e a arte secular tipicamente portuguesa. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 Como \u00e9 que chegou \u00e0 arte dos azulejos?<\/p>\n<p>AGOSTINHO DUARTE \u2013 Comecei nesta arte em 1982, embora na altura tamb\u00e9m fizesse lou\u00e7a. A vida obrigou-me a ir pelas artes. Eu era emigrante na Venezuela e dava aulas de Belas-Artes numa academia. Pintava a \u00f3leo. Quando regressei, n\u00e3o me deram equival\u00eancia \u2013 porque tinha sa\u00eddo daqui apenas com a instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u2013 e decidi enveredar pelas artes do azulejo&#8230;<\/p>\n<p>\u2026que j\u00e1 o levaram at\u00e9 bem longe, ao M\u00e9dio Oriente, por exemplo.<\/p>\n<p>Sim, trabalhei na decora\u00e7\u00e3o do \u00e1trio interno de um pal\u00e1cio na Ar\u00e1bia Saudita, de uma fam\u00edlia muito rica cujo nome n\u00e3o devo revelar. Foi um trabalho que gostei muito de fazer. Tudo come\u00e7ou porque tive a arrog\u00e2ncia de dizer \u201cn\u00e3o\u201d a um nobre \u00e1rabe e ele quis saber o porqu\u00ea da recusa de ocidental. E eu expliquei-lhe que um trabalho t\u00e3o grande devia narrar uma hist\u00f3ria em vez de representar epis\u00f3dios sem nexo. Lembro-me de alguns: um macaco human\u00f3ide a despejar frutos para cima de uma esp\u00e9cie de Dama das Cam\u00e9lias; um alquimista no meio de explos\u00f5es\u2026 Ele pediu-me ent\u00e3o para eu apresentar um projecto. Uma vez que uma das alas do pal\u00e1cio seria para o C\u00f4nsul de Portugal e como os portugueses andaram por l\u00e1 na \u00e9poca das Descobertas \u2013 vi por l\u00e1 fortalezas que ainda tinham as Cinco Quinas \u2013 propus representar os descobrimentos portugueses: o Infante D. Henrique a contemplar o mar e a sonhar com os descobrimentos; as caravelas em alto mar, as paragens que teriam tido, a chegada a terra.<\/p>\n<p>Foi a sua maior obra?<\/p>\n<p>Os quatro pain\u00e9is tinham uma \u00e1rea de 152 metros quadrados. \u00c9 muito azulejo. Mas fiz outros trabalhos grandes, como os pain\u00e9is do Centro de Congressos de Paris, ligado ao Intermarch\u00e9, no s\u00edtio onde se passa a hist\u00f3ria dos Mosqueteiros. Trabalhei tamb\u00e9m para algumas das lojas da cadeia em Portugal.<\/p>\n<p>O trabalho da Ar\u00e1bia Saudita abriu-lhe as portas para outros neg\u00f3cios?<\/p>\n<p>Sim, depois desse primeiro trabalho, aplicado em 2008, surgiram outros no Bahrein e no Dubai, sempre inspirados na azulejaria portuguesa do s\u00e9culo XVIII. Eles pagam aquilo que a gente diz. E adiantado. N\u00e3o brincam em servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o est\u00e1 concentrado em grandes trabalhos, o que faz?<\/p>\n<p>Naturalmente, vou fazendo os temas de que as pessoas gostam mais. Os temas rom\u00e2nticos vendem bem: os namorados no jardim, por exemplo. E o ciclo da vinha: a vindima, o transporte, a poda, a prova, a pisa. Tudo isso tem muito boa sa\u00edda para casas particulares e adegas, associa\u00e7\u00f5es culturais, clubes, garrafeiras. Tamb\u00e9m fa\u00e7o n\u00fameros das portas e placas topon\u00edmicas para as juntas de freguesia.<\/p>\n<p>Um dos trabalhos recentes foi um painel com o Navio-Museu Santo Andr\u00e9 para sede da Associa\u00e7\u00e3o Cultural e Recreativa Gafanhense de Newark (Estados Unidos) [j\u00e1 depois da realiza\u00e7\u00e3o desta entrevista, Agostinho Duarte acompanhou o presidente da C\u00e2mara Municipal de \u00cdlhavo aos Estados Unidos, no in\u00edcio de Junho, para a inaugura\u00e7\u00e3o do painel].<\/p>\n<p>Tem colaboradores ou esta \u00e9 uma arte individual?<\/p>\n<p>A azulejaria est\u00e1 muito parada em Portugal. Vamos sobrevivendo. Quando h\u00e1 um trabalho a s\u00e9rio, com datas a cumprir, a equipa re\u00fane-se e trabalha com for\u00e7a. <\/p>\n<p>Trabalha apenas com a cor t\u00edpica dos azulejos ou introduz novidades? Usa t\u00e9cnicas modernas ou cl\u00e1ssicas?<\/p>\n<p>Trabalho principalmente a azul-cobalto, por isso \u00e9 que se chama a-zu-le-jo. Se n\u00e3o, teria outro nomes. \u00abCorolejo\u00bb ou algo parecido. Mas tamb\u00e9m fa\u00e7o trabalhos a cores, incluindo retratos de pessoas, a partir de fotografias. Por vezes at\u00e9 ca\u00e7adores me pedem que retrate uma pe\u00e7a maior que ca\u00e7aram\u2026<\/p>\n<p>Geralmente trabalho ao estilo do s\u00e9culo XVIII. Pinto sobre a chacota, ou seja, sobre o barro previamente cozido para ter resist\u00eancia mec\u00e2nica. Depois, o pintado \u00e9 vidrado com vidro transparente. Vai ao forno, a 1115 graus, e a tinta fica fundida entre o barro e o vidro. A obra \u00e9 praticamente eterna, a n\u00e3o ser que haja um choque t\u00e9rmico muito grande e descasque o vidro. H\u00e1 quem trabalhe sobre o vidro cozido, mas isso pode descascar, porque n\u00e3o \u00e9 cozido em profundidade. Sigo sendo fiel \u00e0 t\u00e9cnica do s\u00e9c. XVIII, de duas cozeduras a alta temperatura. <\/p>\n<p>Quanto aos motivos, tamb\u00e9m fa\u00e7o desenhos modernos. J\u00e1 tenho decorado boutiques com coisas estapaf\u00fardicas. Mas manda quem paga. Ainda ontem tive aqui [no ateli\u00ea\/f\u00e1brica, em Espario, Curia] um franc\u00eas que gosta de motivos equestres\u2026<\/p>\n<p>\u2026o que dizer que exporta pe\u00e7as\u2026<\/p>\n<p>Sim, exporto para Espanha, Fran\u00e7a e Alemanha e mais alguns pa\u00edses. Mas deixei de fazer para Espanha porque queriam que eu pusesse \u201cHecho en Espa\u00f1a\u201d [\u201cFabricado em Espanha\u201d]. E n\u00e3o podia ser. <\/p>\n<p>J\u00e1 alguma vez fez arte sacra?<\/p>\n<p>Com certeza. Fiz a Via-Sacra e o altar de capela do centro de Vagos, com um Cristo a elevar-se. Tamb\u00e9m fiz um trabalho muito grande para a Igreja de V\u00e1rzeas, em Barcelos: 12 pain\u00e9is de 3&#215;3 metros a narrar a vida de S. Bento. Mais recentemente, fiz um painel para a nova igreja de Segad\u00e3es, que ainda n\u00e3o foi inaugurada, mas nesse caso o desenho n\u00e3o era meu.<\/p>\n<p>Tem aprendizes?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 seguidores. A minha arte vai morrer comigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 quem queira aprender ou n\u00e3o quer ensinar?<\/p>\n<p>O que se faz hoje na minha azulejaria \u00e9 um resumo do que se fazia. A empresa nasceu em 1982. \u00c9ramos uma f\u00e1brica de lou\u00e7a que chegou a ter 32 pessoas a trabalhar. Vieram as lojas dos 300 e isto acabou, h\u00e1 15 anos. Uma grande parte das pessoas prefere comprar coisas vindas da China, com decalcomanias, em vez de coisas feitas \u00e0 m\u00e3o. Muitos dos meus colegas da lou\u00e7a artesanal fecharam. Quem sou eu para contrariar\u2026<\/p>\n<p>Os pain\u00e9is estavam a manter a parte de lou\u00e7a, pelo que decidi especializar-me e trabalhar por encomenda. A pessoa encomenda, eu digo quanto custa\u2026<\/p>\n<p>Por falar em pre\u00e7os, pode dar uma ideia de quanto custa um pequeno painel de 3&#215;3 azulejos?<\/p>\n<p>Depende. A mesma pe\u00e7a tanto pode valer um euro e meio como 15 euros. Tenho dez pre\u00e7os diferentes em fun\u00e7\u00e3o do grau de dificuldade. Um arranjo floral pode levar cercadura \u2013 e tenho quatro tipos de cercadura \u2013 e retoque a ouro ou a prata, o que implica uma cozedura a 800 graus para n\u00e3o estragar o azulejo\u2026<\/p>\n<p>Costuma fazer feiras, como a FARAV?<\/p>\n<p>J\u00e1 fiz, mas \u00e9 \u201cvida de cigano\u201d. Estava oito dias aqui mais oito dias ali. Para uma pessoa abrir portas, no in\u00edcio, sim, \u00e9 bom. Mas eu j\u00e1 sou velho nisto. Desde 1982, se n\u00e3o tivesse aberto antes, n\u00e3o era agora que iria abrir. As pessoas v\u00eam \u00e0 minha procura. J\u00e1 passei a fase de andar com os \u201ccacarecos\u201d. Mas foi uma fase fant\u00e1stica. Como as feiras s\u00e3o quase sempre s\u00e3o \u00e0 noite, durante o dia podia conhecer os locais das feiras. Conheci o pa\u00eds todo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agostinho Gomes Duarte, 58 anos, trabalha artisticamente o azulejo. Pain\u00e9is seus podem ser apreciados num pal\u00e1cio da Ar\u00e1bia Saudita, num centro de congressos de Paris ou numa associa\u00e7\u00e3o de emigrantes em Newark (EUA). 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