{"id":21435,"date":"2013-01-09T17:57:00","date_gmt":"2013-01-09T17:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21435"},"modified":"2013-01-09T17:57:00","modified_gmt":"2013-01-09T17:57:00","slug":"de-que-falamos-ao-dizer-pecado-original-1-a-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/de-que-falamos-ao-dizer-pecado-original-1-a-parte\/","title":{"rendered":"De que falamos ao dizer &#8220;pecado original&#8221;? (1.\u00aa parte)"},"content":{"rendered":"<p>Perguntas e respostas de Antropologia Teol\u00f3gica &#8211; 3 <!--more--> O dogma do pecado original encontra a sua formula\u00e7\u00e3o mais sistematizada no decreto tridentino de 17 de junho de 1546. Contudo, n\u00e3o ser\u00e1 correto considerar que o dogma nasceu em Trento, pois nos seis c\u00e2nones que comp\u00f5em este decreto recolhem-se as \u00abconquistas\u00bb long\u00ednquas dos conc\u00edlios de Cartago (418) e Orange (529), assim como os conte\u00fados fundamentais j\u00e1 expressos numa carta do Papa Z\u00f3simo (418), a c\u00e9lebre \u00abcarta Tractoria\u00bb, enviada a todos os bispos. <\/p>\n<p>Mas, o que dizem, afinal os referidos c\u00e2nones? \u00c9 imposs\u00edvel compreender os dados que consubstanciam este dogma sem ter em conta o seguinte. Os extremos entre os quais se procurou sempre situar o dogma cat\u00f3lico s\u00e3o os que resultam da posi\u00e7\u00e3o pelagiana e a posi\u00e7\u00e3o da reforma protestante. E o que propunham estas duas posi\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>O pelagianismo foi a posi\u00e7\u00e3o adotada por um monge de origem brit\u00e2nica e seguida por um seu disc\u00edpulo de nome Cel\u00e9stio, que a tornou mais expl\u00edcita nas consequ\u00eancias, e que dizia que a salva\u00e7\u00e3o do ser humano n\u00e3o era fruto da a\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, reduzido a simples modelo para cada um, mas sim o resultado das conquistas da liberdade humana. Esta posi\u00e7\u00e3o, que teve em S. Agostinho o seu maior opositor, logo foi entendida como perigosa, na medida em que reduzia a a\u00e7\u00e3o de Jesus a uma simples fun\u00e7\u00e3o de exemplo e, por isso, nem eficaz, nem universal.<\/p>\n<p>S\u00e9culos mais tarde, com a reforma protestante, o problema da salva\u00e7\u00e3o humana \u00e9 colocado num sentido oposto.<\/p>\n<p>A reforma protestante, opondo-se ao reconhecimento cat\u00f3lico do papel das obras para a salva\u00e7\u00e3o, defendia o car\u00e1ter exclusivo do papel de Deus na salva\u00e7\u00e3o, quase eliminando o papel da liberdade humana \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de assistente deste processo. A exclusividade da a\u00e7\u00e3o de Deus era t\u00e3o afirmada que se sustentava, inclusive, a possibilidade da predestina\u00e7\u00e3o, perspetiva desde sempre rejeitada pela ortodoxia cat\u00f3lica. <\/p>\n<p>Ora, s\u00e3o estes os extremos entre os quais se deve entender e situar o conte\u00fado e papel do dogma do pecado original, definido em Trento.<\/p>\n<p>E que conte\u00fado \u00e9 esse?<\/p>\n<p>Tomemos por refer\u00eancia, o que nos diz J. L. Ruiz de la Pe\u00f1a, um dos maiores antrop\u00f3logos teol\u00f3gicos contempor\u00e2neos, entretanto j\u00e1 falecido.<\/p>\n<p>Diz-nos este te\u00f3logo que \u00abTrento afirma a) a exist\u00eancia do pecado original, \u2018morte da alma\u2019; b) que afeta interiormente a todos; c) do qual s\u00f3 nos pode libertar a gra\u00e7a de Jesus Cristo, comunicada pelo batismo; d) que este apaga totalmente quanto h\u00e1 de pecado no batizado, sendo que, por isso, a concupisc\u00eancia (uma tend\u00eancia que seduz o homem para o mal) remanescente ap\u00f3s o batismo n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 pecado em sentido pr\u00f3prio nos batizados; e) e que a situa\u00e7\u00e3o universal de pecado tem como fator desencadeante a a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de uma liberdade humana.\u00bb<\/p>\n<p>Tal s\u00edntese obriga a alguns esclarecimentos:<\/p>\n<p>Antes de mais, importa ter a no\u00e7\u00e3o de que, ao falarmos de pecado original, temos de distinguir entre a origem primeira da condi\u00e7\u00e3o de pecado (chamamos-lhe pecado original originante) da condi\u00e7\u00e3o de pecado posterior que afeta a todos (pecado original originado).<\/p>\n<p>Feito este esclarecimento, \u00e9 importante verificar que, ao considerar que o pecado original originado \u00e9 \u00abmorte da alma\u00bb est\u00e1 a dissociar-se esta condi\u00e7\u00e3o da morte f\u00edsica. A teologia \u00e9, hoje, un\u00e2nime em considerar que a morte que se origina com o pecado original n\u00e3o \u00e9 a f\u00edsica, mas a eterna. Assim, compreende-se, por um lado, que esta \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o universal, e, desta universalidade da pecaminosidade resulta, tamb\u00e9m, a universalidade da salva\u00e7\u00e3o oferecida por Jesus Cristo.<\/p>\n<p>(A resposta a esta quest\u00e3o continua na pr\u00f3xima semana.)<\/p>\n<p>Lu\u00eds Silva<\/p>\n<p>Principais conceitos e refer\u00eancias<\/p>\n<p>Trento \u2013 Conc\u00edlio (19.\u00ba) convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da f\u00e9 e disciplina da Igreja como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 Reforma Protestante desencadeada por Martinho Lutero. O conc\u00edlio decorreu em Trento, norte de It\u00e1lia, entre 1545 e 1563. Foi o mais longo da hist\u00f3ria, atravessando os pontificados de  Paulo III, J\u00falio III, Marcelo II e Pio IV.<\/p>\n<p>Papa Z\u00f3simo \u2013 De origem grega, foi Papa de 18 de mar\u00e7o de 417 a 26 de dezembro de 418. Z\u00f3simo tendia a aceitar os argumentos pelagianos, mas, persuadido por Agostinho e outros bispos africanos, rev\u00ea a sua posi\u00e7\u00e3o e d\u00e1 consentimento \u00e0s decis\u00f5es do Conc\u00edlio de Cartago (onde domina a teologia de Agostinho). A Carta ou Ep\u00edstola \u201cTractoria\u201d, de que s\u00f3 se conhecem fragmentos, com as decis\u00f5es de Cartago, foi enviada a todos os bispos para que a assinassem (\u201ctractoria\u201d era a palavra usada no norte de \u00c1frica para indicar as circulares endere\u00e7adas aos bispos).<\/p>\n<p>Pelagianismo &#8211; Teoria teol\u00f3gica crist\u00e3 atribu\u00edda a Pel\u00e1gio da Bretanha (monge ingl\u00eas, 350-423) que sustenta que todo homem \u00e9 totalmente respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o e, portanto, n\u00e3o necessita da gra\u00e7a divina. <\/p>\n<p>Agostinho \u2013 Nasceu em 354 e morreu em 430. Fil\u00f3sofo e te\u00f3logo, bispo de Hipona (na atual Alg\u00e9ria), escreveu algumas das obras mais influentes da hist\u00f3ria, como \u201cConfiss\u00f5es\u201d e \u201cCidade de Deus\u201d. Aprofundou a doutrina do pecado original e da gra\u00e7a, tendo influenciado os grandes reformadores como Lutero e Clavino.<\/p>\n<p>Reforma Protestante \u2013 Movimento reformista crist\u00e3o iniciado no s\u00e9c. XVI pelo alem\u00e3o Martinho Lutero, que fora monge agostinho. Os tr\u00eas grandes ramos da reforma protestante s\u00e3o o luteranismo (de Lutero), o calvinismo (de Jo\u00e3o Calvino) e o anglicanismo (desencadeado por Henrique VIII de Inglaterra).<\/p>\n<p>J. L. Ruiz de la Pe\u00f1a \u2013 Padre espanhol (1937-1996) e doutor em Teologia. Refletiu especialmente sobre quest\u00f5es antropol\u00f3gicas como o corpo, a morte, o pecado.<\/p>\n<p>Espa\u00e7o da responsabilidade do ISCRA &#8211; Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perguntas e respostas de Antropologia Teol\u00f3gica &#8211; 3<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-21435","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-formacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21435"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21435\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}