{"id":21437,"date":"2013-01-09T18:04:00","date_gmt":"2013-01-09T18:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21437"},"modified":"2013-01-09T18:04:00","modified_gmt":"2013-01-09T18:04:00","slug":"a-torcida-que-ainda-fumega-e-um-baptizado-controverso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-torcida-que-ainda-fumega-e-um-baptizado-controverso\/","title":{"rendered":"A torcida que ainda fumega e um baptizado controverso"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu <!--more--> Mais coisa menos coisa, foi pelos 30 anos que Jesus foi baptizado por S. Jo\u00e3o (\u00abo baptista\u00bb). A figura de Jo\u00e3o impressionou fortemente o povo judaico, e o pr\u00f3prio Jesus se sentiu atra\u00eddo, de tal modo que aceitou o seu baptismo e a mensagem central: a \u00abconvers\u00e3o\u00bb (\u00abmetan\u00f3ia\u00bb) necess\u00e1ria para nos libertarmos do que nos impede de construir um futuro novo. Jo\u00e3o era um profeta severo, atacando a presun\u00e7\u00e3o dos \u00abpiedosos\u00bb que se refugiavam no legalismo e na tradi\u00e7\u00e3o para n\u00e3o terem o trabalho de dar \u00e0 vida uma orienta\u00e7\u00e3o nova, capaz de produzir bons frutos (Lucas 3,8-9). <\/p>\n<p>Um baptizado controverso: as primeiras comunidades crist\u00e3s n\u00e3o podiam crer que Jesus fosse apenas \u00abmais um profeta\u00bb na linha de Jo\u00e3o \u2013 mesmo que fosse o maior. Sobretudo depois da \u00abressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb, Jesus Cristo s\u00f3 podia ser \u00abincompar\u00e1vel\u00bb. Era uma quest\u00e3o do \u00abestatuto\u00bb de Jesus \u2013 o Messias, o \u00fanico caminho de salva\u00e7\u00e3o. Para as primeiras comunidades crist\u00e3s, seria mais f\u00e1cil deixar de lembrar o baptismo de Jesus, de tal modo era dif\u00edcil de o \u00abencaixar\u00bb na ideia que dele faziam. Se tal n\u00e3o aconteceu, \u00e9 porque estavam perante um irrefut\u00e1vel facto hist\u00f3rico, t\u00e3o importante quanto dif\u00edcil de interpretar \u2013 mas n\u00e3o \u00e9 verdade que at\u00e9 a vida de qualquer pessoa n\u00e3o pode ser interpretada apenas sob o prisma da l\u00f3gica?<\/p>\n<p>O relato de Lucas (e ainda mais o 4.\u00ba evangelho, o \u00faltimo a ser escrito) reflectem esta preocupa\u00e7\u00e3o: neles, o pr\u00f3prio Jo\u00e3o Baptista reconhece que a sua miss\u00e3o n\u00e3o se pode comparar \u00e0 de Jesus. Por outro lado, este come\u00e7o da \u00abvida p\u00fablica\u00bb \u00e9 recheado de imagens impressionantes sobre a dimens\u00e3o divina da miss\u00e3o de Jesus. Deste modo, os primeiros crist\u00e3os podiam ficar plenamente confiantes de que, com Jesus, se tinha iniciado verdadeiramente uma nova \u00e9poca. Por\u00e9m, o Baptista ficou sempre como aquele que tinha come\u00e7ado a anunciar \u00aba boa nova\u00bb (Lucas,3,18).<\/p>\n<p>Assim realizou Jesus o primeiro acto da sua carreira: anunciar o \u00abreino de Deus\u00bb \u2013 essa nova maneira de viver a vida de bra\u00e7o dado com o mais fiel e o mais desconcertante dos amigos. Jesus viu nesse amigo um pai sempre atento mas sempre discreto, que deixa aos \u00abfilhos\u00bb todo o espa\u00e7o de manobra. \u00c9 com esta liberdade que podemos \u00abtirar partido\u00bb da t\u00e3o confortante como perturbadora \u00abamizade\u00bb com Deus, construindo com persist\u00eancia o mundo da justi\u00e7a (1.\u00aa leitura). Neste novo tipo de rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 que Jesus se avantaja relativamente ao seu \u00abprecursor\u00bb. Jo\u00e3o Baptista apelava \u00e0 convers\u00e3o que nos permite enfrentar o \u00abmachado\u00bb do ju\u00edzo de Deus. Jesus prefere imagens de amor e reconcilia\u00e7\u00e3o, que permitem uma confian\u00e7a inabal\u00e1vel no bom sucesso dos nossos projectos \u2013 porque tamb\u00e9m s\u00e3o os projectos de Deus.<\/p>\n<p>Na 1.\u00aa leitura, aparece o primeiro dos quatro poemas do \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb, essa figura misteriosa, dif\u00edcil de identificar, na qual, desde os primeiros tempos, os disc\u00edpulos de Jesus leram a prefigura\u00e7\u00e3o do mestre como \u00abservo perfeito\u00bb e \u00abfilho muito amado\u00bb. Estes poemas aprofundam, at\u00e9 de modo chocante, o tema da justi\u00e7a \u2013 e a ideia de \u00abcomunidade justa\u00bb.<\/p>\n<p>Nos ritos actuais do Baptismo de crian\u00e7as, sobressai a import\u00e2ncia de o compromisso pela justi\u00e7a ser conscientemente aceite pelos pais, padrinhos, e toda a comunidade envolvente. \u00c9 portanto a comunidade que est\u00e1 em jogo e que precisa, para se desenvolver, de reconhecer e fazer crescer o valor dos outros. Jo\u00e3o alegrou-se porque estava a preparar o terreno para algu\u00e9m \u00abmaior do que ele\u00bb \u2013 t\u00e3o grande que manifestou publicamente quanto devia ao trabalho de Jo\u00e3o Baptista. <\/p>\n<p> (Quanta gente \u00abdo topo\u00bb aceitar\u00e1 os dons superiores de algu\u00e9m que vem trabalhar no grupo? Quantos ser\u00e3o capazes de ajudar os outros a multiplicarem os seus talentos, sobretudo quando isso implica ir-se retirando do primeiro plano? E quantos dar\u00e3o valor ao que devem aos outros?). <\/p>\n<p>A comunidade justa \u00abn\u00e3o quebra a cana fendida nem apaga a torcida que ainda fumega\u00bb. De tudo procura tirar proveito para mais e melhor, \u00absem desfalecer nem desistir\u00bb. A fam\u00edlia \u00e9 o primeiro exemplo do esfor\u00e7o por uma comunidade assim, beneficiando da energia da afectividade. Nela, como tamb\u00e9m numa comunidade que se diz crist\u00e3, dever\u00edamos encontrar a for\u00e7a de caminhar juntos, no misterioso projecto da vida, deixando \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es o testemunho de que \u00abvale a pena viver\u00bb.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-21437","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21437"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21437\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}