{"id":21453,"date":"2012-12-12T12:08:00","date_gmt":"2012-12-12T12:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21453"},"modified":"2012-12-12T12:08:00","modified_gmt":"2012-12-12T12:08:00","slug":"d-manuel-de-almeida-trindade-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/d-manuel-de-almeida-trindade-2\/","title":{"rendered":"D. Manuel de Almeida Trindade"},"content":{"rendered":"<p>Nas \u2018Bodas de Ouro\u2019 Episcopais, Catedral de Aveiro, 08-12-2012 <!--more--> Na tarde de 16 de setembro de 1962, os meios de comunica\u00e7\u00e3o radiof\u00f3nica publicaram a not\u00edcia h\u00e1 muito esperada: o papa Jo\u00e3o XXIII nomeara para ocupar a cadeira da catedral de Aveiro D. Manuel de Almeida Trindade, \u00absacerdote de verdadeira e s\u00f3lida piedade e de invulgar talento e experi\u00eancia\u00bb. O novo bispo de Aveiro iniciou oficialmente o m\u00fanus pastoral perante o corpo de consultores em 08 de dezembro de 1962; perfazem-se hoje [s\u00e1bado passado] precisamente cinquenta anos. Porque estava ausente em Roma nos trabalhos do segundo conc\u00edlio ecum\u00e9nico do Vaticano, em 15 de novembro anterior havia mandatado como seu procurador para o efeito mons. J\u00falio Tavares Rebimbas. Recebeu a ordem episcopal em 16 seguinte na s\u00e9 de Coimbra e entrou na diocese na tarde do dia 23.<\/p>\n<p>Na igreja catedral, antes do canto do \u2018te-deum\u2019, D. Manuel proferiu a sua primeira Sauda\u00e7\u00e3o Pastoral, na qual logo demonstrou um rico testemunho de serenidade, prud\u00eancia e sabedoria, manifestando o esp\u00edrito de algu\u00e9m que n\u00e3o se deixava iludir por triunfalismos fugazes. Dela se extrai o seguinte: &#8211; \u00abA cruz que me pende dos ombros \u00e9 de oiro, mas n\u00e3o deixar\u00e1 de ser cruz. Mesmo que a amizade e a lealdade dos seus mais pr\u00f3ximos colaboradores lhe n\u00e3o faltem, mesmo que a compreens\u00e3o daqueles que s\u00e3o os detentores do poder o ajude na sua miss\u00e3o, ainda que a estima e a disciplina do povo crist\u00e3o facilitem a sua atividade pastoral, sempre os cuidados e os trabalhos de um bispo h\u00e3o de constituir uma cruz. Oxal\u00e1 eu saiba doirar o ferro dos pesos quotidianos com o oiro fino do aut\u00eantico amor de Deus e dos homens! Esse ser\u00e1 verdadeiramente o oiro da minha cruz peitoral\u00bb.<\/p>\n<p>Acumulando com o minist\u00e9rio de bispo de Aveiro, D. Manuel tamb\u00e9m foi, durante cerca de dezassete anos, presidente e vice-presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, manifestando sempre um esp\u00edrito invulgar de sabedoria, de prud\u00eancia, de pondera\u00e7\u00e3o, de coragem, de decis\u00e3o e de pacifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como sabemos, no dia 25 de abril de 1974, deu-se a \u2018revolu\u00e7\u00e3o dos cravos\u2019. Contudo, a exalta\u00e7\u00e3o inicial, na alegria das liberdades alcan\u00e7adas, foi esmorecendo entre o povo, porque no horizonte nacional come\u00e7ara a levantar-se a amea\u00e7a de nuvens negras a pressagiar um per\u00edodo cruel de desrespeito pelas liberdades conseguidas. Neste contexto, os \u00e2nimos andavam preocupados. Por isso, o povo e as pessoas mais respons\u00e1veis, incluindo os bispos, sentiam que n\u00e3o podiam ficar de bra\u00e7os cruzados, tolhidos pelo medo; propalava-se mesmo a hip\u00f3tese de se expressar a sua ang\u00fastia e a sua revolta em manifesta\u00e7\u00f5es apartid\u00e1rias, numa discord\u00e2ncia com tamanhas injusti\u00e7as.<\/p>\n<p>De facto, em ambiente t\u00e3o apreensivo, no \u2018ver\u00e3o quente\u2019 de 1975, D. Manuel concordou com a hip\u00f3tese, que lhe foi proposta, de se realizar uma manifesta\u00e7\u00e3o popular e apol\u00edtica de crist\u00e3os pela defesa da verdadeira democracia e pela leg\u00edtima salvaguarda dos direitos humanos; cuidadosamente organizada, tal manifesta\u00e7\u00e3o aconteceu na tarde do dia 13 de julho, na qual tomaram parte cerca de cinquenta mil pessoas. Na concentra\u00e7\u00e3o final junto da s\u00e9, no termo de tr\u00eas breves interven\u00e7\u00f5es, D. Manuel, que se integrara no cortejo, proferiu algumas palavras com voz corajosa e convicta: &#8211; \u00abExistem crist\u00e3os em todas as dioceses de Portugal. Oxal\u00e1 que o exemplo de Aveiro os desperte, do Minho ao Algarve&#8230; e se apresentem em massa a apoiar os seus bispos. Que os crist\u00e3os, se porventura est\u00e3o adormecidos, acordem finalmente. Acordem! Acordem!\u00bb O que aconteceu em Aveiro teve uma repercuss\u00e3o nacional e entusiasmou a id\u00eanticas manifesta\u00e7\u00f5es que se realizariam nos domingos seguintes em Viseu, Bragan\u00e7a, Coimbra, Lamego, Braga, Leiria e Vila Real. E a hist\u00f3ria saber\u00e1 contar o resultado de tudo isto\u2026 <\/p>\n<p>Quando chegou \u00e0 diocese de Aveiro, D. Manuel deixou logo transparecer a sua maneira de ser e de estar. As semanas do inverno eram passadas nas par\u00f3quias em visitas pastorais, num esquema de miss\u00f5es regionais; j\u00e1 implementadas pelo seu antecessor D. Domingos da Apresenta\u00e7\u00e3o Fernandes em 1959, elas significaram um facto in\u00e9dito na altura. Al\u00e9m das celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, o prelado visitava os doentes e os pobres; entrava nas choupanas, nas escolas e nas f\u00e1bricas; reunia com as associa\u00e7\u00f5es religiosas e c\u00edvicas; ia aonde as pessoas se encontravam, trabalhavam e viviam. Recordo n\u00e3o apenas a eleva\u00e7\u00e3o com que falava a professores universit\u00e1rios ou a pessoas de ci\u00eancia, como ainda a simplicidade com que se dirigia a crian\u00e7as e a homens do campo. Naquele trabalho mission\u00e1rio, teve a colabora\u00e7\u00e3o de sacerdotes, mas tamb\u00e9m quis ter a dos leigos, para falarem em ser\u00f5es e encontros \u2013 casais a casais, jovens a jovens, catequistas a catequistas, empres\u00e1rios a empres\u00e1rios, oper\u00e1rios a oper\u00e1rios. Com conhecimento pr\u00f3prio, relembro-o efetivamente como um homem e um bispo que nunca quis ser distante das pessoas, mas sempre pr\u00f3ximo, atento e carinhoso.<\/p>\n<p>D. Manuel requereu a resigna\u00e7\u00e3o de bispo de Aveiro ainda antes dos setenta anos de idade, porque se sentia cansado, n\u00e3o tanto com o trabalho pastoral na diocese, mas sobretudo por causa da responsabilidade que tivera na presid\u00eancia da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, nomeadamente no tempo ap\u00f3s o 25-de-abril. Todavia, sofreu muito com a sa\u00edda de Aveiro; afastou-se com tristeza, saudade e l\u00e1grimas. Pondo de parte as primeiras ideias que lhe surgiram de habitar na casa diocesana de Nossa Senhora do Socorro, em Albergaria-a-Velha, ou numa resid\u00eancia paroquial com um dos nossos p\u00e1rocos, resolveu por fim afastar-se, recolhendo-se no semin\u00e1rio de Coimbra; contudo, manter-se-ia sentimentalmente ligado a Aveiro. Quando voltava casualmente a esta cidade, era uma alegria m\u00fatua, quando se encontrava; andava a p\u00e9 pelas ruas e avenidas, visitava fam\u00edlias amigas e parava a conversar com as pessoas. <\/p>\n<p>Como uma das \u00faltimas disposi\u00e7\u00f5es, D. Manuel pediu que o seu cad\u00e1ver fosse trasladado de Coimbra para Aveiro. Tendo falecido em 05 de agosto de 2008, efetivamente o cad\u00e1ver, ap\u00f3s dois dias, foi trazido para Aveiro, sendo depositado no jazigo da diocese, no cemit\u00e9rio central. Na sua entrada em Aveiro, D. Manuel j\u00e1 havia dito publicamente que vinha para ficar; quando pediu a resigna\u00e7\u00e3o, numa conversa que manteve comigo, afirmou-me que finalmente resolvera ir para Coimbra, mas queria regressar depois da morte, para permanecer entre os aveirenses e ser acarinhado por eles. <\/p>\n<p>Uma das suas derradeiras fotografias rememora-o como bispo a ler, a pensar e a refletir sobre a B\u00edblia, que segura na m\u00e3o. \u00c9 precisamente assim que o evoco com um misto de ternura e de gratid\u00e3o\u2026 como um homem de intelig\u00eancia, de bondade, de leitura, de ora\u00e7\u00e3o e de f\u00e9; como um bispo que contemplava e meditava a palavra de Deus para a transmitir pela vida, pela voz e pelo testemunho. D. Manuel de Almeida Trindade foi um brilhante facho de luz, que teima em iluminar as nossas gentes, da ria \u00e0 Bairrada, do litoral mar\u00edtimo \u00e0s faldas do Arestal e do Caramulo.<\/p>\n<p>Mons. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u2018Bodas de Ouro\u2019 Episcopais, Catedral de Aveiro, 08-12-2012<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-21453","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21453","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21453"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21453\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}