{"id":21457,"date":"2013-01-09T18:06:00","date_gmt":"2013-01-09T18:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21457"},"modified":"2013-01-09T18:06:00","modified_gmt":"2013-01-09T18:06:00","slug":"o-sr-pinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-sr-pinheiro\/","title":{"rendered":"O Sr. Pinheiro"},"content":{"rendered":"<p>Mem\u00f3rias &#8211; Bolores &#8211; 2 <!--more--> O Sr. Pinheiro era barbeiro. Rima e \u00e9 verdade. Era um senhor de mediana estatura, habitualmente vestido de escuro, que andava sempre com uma maleta semelhante \u00e0 das que os m\u00e9dicos usam para transportar as ferramentas da sua profiss\u00e3o. A dele tamb\u00e9m servia para transportar a sua barbearia. Era vizinho da casa da minha av\u00f3 Joaninha, ali para os lados da Fonte dos Amores, fonte que, na minha meninice, presidiu vaidosamente a um lugar m\u00e1gico duma Aveiro que j\u00e1 l\u00e1 vai. Hoje, essa fonte est\u00e1 seca e escondida no fim da Avenida Ara\u00fajo e Silva, saudosa dos seus tempos em que a sua \u00e1gua, l\u00edmpida, matava a sede dos seus vizinhos. Os tanques que ficavam a seu lado e onde a roupa branca de meio Aveiro era lavada foram destru\u00eddos para dar lugar a um incaracter\u00edstico bloco de apartamentos. O relvado que tudo emoldurava era onde a roupa se punha a corar. Esse relvado tamb\u00e9m foi levado pelo sopro de determinado tipo de progresso que nunca cheguei a entender. Ter-se-\u00e1 ganho cidade com essa perda? Julgo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas voltemos ao Sr. Pinheiro que Deus tem, personagem principal deste meu escrito. Como j\u00e1 referi ele era barbeiro, um barbeiro como j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1. Com efeito ele n\u00e3o tinha um espa\u00e7o pr\u00f3prio para exercer a sua profiss\u00e3o, um espa\u00e7o onde os seus clientes fossem procurar os seus servi\u00e7os. Era ele que ia a casa de todos os que precisassem dos seus talentos de competente barbeiro. Nunca o ouvi falar de falta de clientela que ia desde os alunos e professores do Semin\u00e1rio Diocesano at\u00e9 aos presidi\u00e1rios da nossa comarca. Quer no Semin\u00e1rio, quer na cadeia, ele trabalhava dias seguidos, sendo os cortes de cabelo e barba feitos de revoada.<\/p>\n<p>O dia em que ele ia a casa de minha av\u00f3 para me cortar o cabelo era sempre um dia especial pois que obrigava a alguns preparativos. Em primeiro lugar havia que colocar na sala de jantar duas cadeiras, uma, normal, de tampo de madeira e outra, mais pequena, em cima da primeira, de forma a dar a altura adequada para a fun\u00e7\u00e3o. A minha tia Florize j\u00e1 sabia o que a casa gastava. Ent\u00e3o, colocava uma bacia das m\u00e3os com \u00e1gua t\u00e9pida em cima da mesa, e a seu lado um len\u00e7ol lavado. Eu trepava para me sentar na cadeira pequenina e o Sr. Pinheiro depois envolvia-me no len\u00e7ol amarrando as pontas \u00e0 volta do meu pesco\u00e7o. E l\u00e1 come\u00e7ava a tosquia, cirandando o barbeiro e a sua tesoura \u00e0 minha volta. \u201cN\u00e3o te mexas menino\u201d era s\u00f3 o que ele me dizia, procurando, com m\u00e3o firme, colocar sempre a minha cabe\u00e7a de modo a facilitar a sua tarefa. O cabelo cortado ia caindo para o ch\u00e3o e era a minha tia que se encarregava de ir procedendo \u00e0 sua remo\u00e7\u00e3o. O que me provocava algum receio era ver a longa navalha que ele afiava com movimentos ritmados numa amoladora de couro dum preto brilhante. Depois era o ensaboar com o pincel que ele mergulhava numa malguinha de metal branco. Quando ele come\u00e7ava a aparar as patilhas e o pesco\u00e7o com a navalha eu confesso que tinha medo. Mas nunca o Sr. Pinheiro me cortou. No fim, penteava-me, amainava o remoinho do meu cabelo rebelde com um pouco de brilhantina, desinfetava com \u00e1lcool o meu pesco\u00e7o e depois com uma escova pequenina polvilhava a pele por onde tinha trabalhado com a navalha com um pouco de p\u00f3 de talco.<\/p>\n<p>Tr\u00eas leves pancadas com a escova na minha moleirinha eram sinal de que a tarefa estava terminada. O Sr. Pinheiro, ent\u00e3o, chamava a minha av\u00f3 para que ela apreciasse o corte de cabelo e desse a sua aprova\u00e7\u00e3o. Eu s\u00f3 me sentia aliviado quando descia das cadeiras e via o Sr. Pinheiro agradecer \u00e0 minha av\u00f3 o pagamento devido pela tarefa bem executada. <\/p>\n<p>O que venho de descrever j\u00e1 contei aos meus netos que tudo ouviram com ar incr\u00e9dulo. \u201cEnt\u00e3o era assim no tempo da meninice do av\u00f4?\u201d, perguntaram-me. \u201cEra, sim, meus meninos\u2026\u201d, afirmei eu sem deixar margem para d\u00favidas.<\/p>\n<p>O que me questiono hoje e agora n\u00e3o \u00e9 o que vivi e como vivi. O que me questiono \u00e9 ver como as realidades mudaram t\u00e3o radicalmente e de tal forma que senti a profunda, a imperativa necessidade de passar a escrito o que vivi e como vivi para que os jovens de hoje tomem consci\u00eancia do que foram os tempos idos.<\/p>\n<p>Gaspar Albino<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3rias &#8211; Bolores &#8211; 2<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-21457","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21457","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21457"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21457\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21457"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21457"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21457"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}