{"id":21489,"date":"2012-12-05T16:47:00","date_gmt":"2012-12-05T16:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21489"},"modified":"2012-12-05T16:47:00","modified_gmt":"2012-12-05T16:47:00","slug":"forca-e-sabedoria-do-povo-tambem-em-tempo-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/forca-e-sabedoria-do-povo-tambem-em-tempo-de-crise\/","title":{"rendered":"For\u00e7a e sabedoria do povo, tamb\u00e9m em tempo de crise"},"content":{"rendered":"<p>Muita gente que governa, legisla, promove manifesta\u00e7\u00f5es e grita slogans at\u00e9 \u00e0 rouquid\u00e3o desconhece o povo portugu\u00eas ou conhece apenas uma parte dele. Esse povo que segue a sua vida e luta por ela com realismo e sabedoria, rindo-se dos que falam dele e dizem que em seu nome, sem o ouvirem e o conhecerem. Quando S\u00e1 Carneiro falou do \u201cpovo real\u201d muitos gostaram da express\u00e3o e abusaram dela. Soava-lhes bem, mas nunca lhe captaram o verdadeiro sentido. Gritava-se, a torto e a direito, que \u201co povo \u00e9 quem mais ordena\u201d. E ordenou mesmo. Calou os jovens milicianos da quinta divis\u00e3o que andaram, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o, a percorrer as aldeias do interior para instruir o povo inculto. Fui testemunha da sua ignor\u00e2ncia e disparates.<\/p>\n<p>A reserva moral e a for\u00e7a de um pa\u00eds est\u00e3o no povo que o constitui. H\u00e1 tempos, na TV, perguntaram ao arcebispo de Braga como \u00e9 que o povo do norte sentia e vivia a crise. O povo, disse ele, mais ou menos por estas palavras, sente a crise, mas n\u00e3o deixa de fazer o que est\u00e1 ao seu alcance para continuar o seu caminho. N\u00e3o deixou as suas romarias e a sua alegria natural, trabalha e pensa que nem tudo est\u00e1 perdido. <\/p>\n<p>O nosso povo luta sempre, olhando para a frente com renovada esperan\u00e7a. Os seus des\u00e2nimos n\u00e3o duram muito. Sabe lutar e caminhar, mesmo com ventos contr\u00e1rios. <\/p>\n<p>Mas a gente que manda e grita em Lisboa n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m povo? Alguns n\u00e3o gostam de o ser. Julgam-se l\u00edderes intoc\u00e1veis, gente que sabe tudo e n\u00e3o perde tempo, nem a ouvir, nem a pensar. Outros s\u00e3o filhos do povo humilde, laborioso e simples, mas pensam que podiam, no barulho da capital, conquistar fortuna a qualquer pre\u00e7o, depressa e com pouco trabalho. Quando come\u00e7am a ter o nome nos jornais esquecem a terra e fam\u00edlia. Por vezes conseguiram o que almejaram. Alguns deles est\u00e3o agora no atoleiro. Do povo tem vindo, tamb\u00e9m, ao longo dos anos, gente grande que n\u00e3o se inebriou e junta, justificadamente, o seu nome aos poucos s\u00e1bios deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>A sabedoria do povo n\u00e3o \u00e9 a dos livros. \u00c9 a da vida. Muito mais consistente, porque nascida de uma experi\u00eancia vivida e sofrida. A for\u00e7a do povo portugu\u00eas vem da sua secular educa\u00e7\u00e3o moral e crist\u00e3, est\u00e1-lhe colada ao cora\u00e7\u00e3o, sempre foi determinante nos momentos, quer de facilidades, quer de dificuldades. A sementeira pode num ano n\u00e3o ter dado fruto, mas, no momento pr\u00f3prio, volta-se a semear. A esperan\u00e7a comanda a vida e dissipa as desilus\u00f5es. Quando tem de mudar, muda. E at\u00e9 parte, com igual determina\u00e7\u00e3o, mundo fora, sem cortar a liga\u00e7\u00e3o \u00e0s ra\u00edzes, a que sempre volta a procurar a for\u00e7a e a renovar o sentido que o norteia na vida. O povo tem hist\u00f3ria que sempre se pode ler. N\u00e3o nos livros. Na escola da vida aprende e ensina.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso voltar ao povo. N\u00e3o para o explorar, nem o alienar. Ningu\u00e9m \u00e9 seu dono. Voltar ao povo para aprender com ele a descobrir os caminhos do presente e do futuro. Uma aprendizagem que falta a pol\u00edticos profissionais, a gente da comunica\u00e7\u00e3o social, a quantos pensam que o mundo come\u00e7ou agora e que, para tr\u00e1s, \u00e9 tudo para esquecer. Uma aprendizagem que falta tamb\u00e9m a gente da Igreja. Pensa que sabe e ensina, mas acaba por tresler. Sem saber ler a vida, de pouco vale o saber.<\/p>\n<p>A nossa hist\u00f3ria diz que muito do que o povo \u00e9 o deve \u00e0 forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e \u00e0 apreens\u00e3o vivencial dos valores humanos e crist\u00e3os, que colheu no seio da fam\u00edlia,  na catequese e na comunidade onde todos se conhecem e partilham. Mas ser\u00e1 que este povo ainda existe? Ou\u00e7am-no e ver\u00e3o que sim. Dizia-me um rural a quem dei boleia numa estrada \u00edngreme da serra e deixei falar num momento dif\u00edcil e penoso:  \u201cSabe, senhor, o que vai c\u00e1 dentro da gente, e que Deus nos deu, ningu\u00e9m o tira se a gente n\u00e3o quiser\u201d. \u00c9 isto que faz a for\u00e7a do povo. Uma luz que vai c\u00e1 dentro e que nunca morre na sua determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>      As crises econ\u00f3micas um dia passam, porque h\u00e1 gente que n\u00e3o se deixa esmagar. Deixam marcas, provocam l\u00e1grimas, geram dores, espezinham direitos, acordam para realidades esquecidas, mas n\u00e3o t\u00eam ra\u00edzes que as tornem eternas. Delas tamb\u00e9m se aprende. Quem tem horizontes curtos fica a\u00ed parado, somando amarguras e cr\u00edticas. Quem, como o povo s\u00e3o e s\u00e1bio, nunca deixou de olhar para o alto e para a frente, aprendeu o que significa ter esperan\u00e7a e sabe que nenhum esfor\u00e7o se perde, quando se decide pela vida. N\u00e3o gasta o que n\u00e3o tem, sabe poupar, guardar e partilhar, gera amigos, aconselha-se nas horas m\u00e1s, confia na Provid\u00eancia, faz por viver de p\u00e9 na abund\u00e2ncia e nas priva\u00e7\u00f5es. \u00c9 assim a for\u00e7a do povo. Uma for\u00e7a capaz de ser luz, uma sabedoria caseira para vencer todas as crises.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muita gente que governa, legisla, promove manifesta\u00e7\u00f5es e grita slogans at\u00e9 \u00e0 rouquid\u00e3o desconhece o povo portugu\u00eas ou conhece apenas uma parte dele. Esse povo que segue a sua vida e luta por ela com realismo e sabedoria, rindo-se dos que falam dele e dizem que em seu nome, sem o ouvirem e o conhecerem. 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