{"id":21510,"date":"2013-01-16T17:03:00","date_gmt":"2013-01-16T17:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21510"},"modified":"2013-01-16T17:03:00","modified_gmt":"2013-01-16T17:03:00","slug":"triciclo-e-punchball","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/triciclo-e-punchball\/","title":{"rendered":"Triciclo e &#8220;punchball&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 4 <!--more--> Sou s\u00f3cio da associa\u00e7\u00e3o dos Amigos do Museu de \u00cdlhavo desde os primeiros tempos da sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi por convite da Dr.\u00aa Ana Maria Lopes, na altura directora desse museu, que adquiri essa qualidade. Mas mesmo que n\u00e3o fora pela m\u00e3o dessa apaixonada pelas coisas marinheiras, eu sempre faria parte dessa fam\u00edlia, por fort\u00edssimas raz\u00f5es afectivas: tudo o que tem a ver com o mar, com a nossa ria que n\u00e3o \u00e9 mais do que esse mesmo mar que se deixa abra\u00e7ar pelas nossas areias; tudo o que tem a ver com os homens que quase n\u00e3o sabem o que \u00e9 viver em terra, tudo o que foi moldando a minha maneira de estar e de sentir o mundo que ao mar diz respeito. N\u00e3o fora eu filho de homem desse mesmo mar que tanto o enfeiti\u00e7ou ao longo de toda a sua vida! Enfeiti\u00e7ou o meu pai que nele e dele viveu e enfeiti\u00e7ou-me a mim que dele vivi.<\/p>\n<p>Agora que estou reformado e profissionalmente fora das coisas marinheiras, principalmente dos pescadores e dos barcos, parece que esse feiti\u00e7o, longe de amainar, recrudesceu, traduzindo-se no que pinto, no que escrevo, nos livros que leio, nas exposi\u00e7\u00f5es que procuro, nas visitas que fa\u00e7o a museus, nos sonhos que tenho, no vento prenhe de maresia que, na regi\u00e3o de Aveiro, me afaga ou, por vezes, me fustiga.<\/p>\n<p>Como corol\u00e1rio disto tudo, f\u00e1cil se torna compreender que eu seja visita frequente do Museu Mar\u00edtimo de \u00cdlhavo.<\/p>\n<p>Na minha \u00faltima visita, logo \u00e0 entrada, dei comigo frente a uma maravilhosa maqueta de um navio mercante, com uma escala suficientemente avantajada que me permitiu analisar em pormenor toda a sua morfologia.<\/p>\n<p>Fiquei pregado ao ch\u00e3o quando li na placa identificadora dessa maqueta que se tratava de um barco que sempre mexeu comigo, j\u00e1 que foi o \u00faltimo navio em que o meu pai Manuel andou embarcado. Era o n\/m \u201cALC\u00c2NTARA\u201d que fazia viagens entre Portugal e os Estados Unidos e onde meu Pai serviu de contramestre. Hoje resta essa maqueta para lembrar o meu saudoso Pai. E para tornar mais viva a sua aus\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Certo Natal, deveria ter os meus cinco anos, ao lado dos meus sapatitos, fui encontrar, manh\u00e3 cedo, na lareira da casa da minha av\u00f3 Joaninha, em Aveiro, na rua de Gustavo Ferreira Pinto Basto, um triciclo duma eleg\u00e2ncia de desenho como nunca vira. Eu n\u00e3o esperava mais do que os habituais cigarritos de chocolate\u2026 Mas n\u00e3o! Daquela vez o menino Jesus tinha sido generoso: um triciclo!<\/p>\n<p>\u00c9 claro que fiquei radiante. Era um triciclo diferente de todos os outros que eu tinha visto at\u00e9 ent\u00e3o. <\/p>\n<p>Passados uns dias, a minha av\u00f3 explicou-me a sua origem. Que tinha sido o meu pai que o tinha encontrado no lixo, numa das suas idas a Nova Iorque, e, porque estava quase novo, o levara para bordo para mo dar quando chegasse a Portugal. Mas, j\u00e1 que o Natal estava \u00e0 porta, o triciclo converteu-se em prenda do menino Jesus.<\/p>\n<p>\u00c9 mais do que evidente que o triciclo constituiu, para mim, motivo de grande orgulho. E n\u00e3o descansei enquanto a minha av\u00f3 n\u00e3o me autorizou a ir visitar, de triciclo, a minha tia Lizette que morava no fim da ladeira do Alboi. Por esses tempos, o tr\u00e2nsito era pouco, os autom\u00f3veis eram \u201cum l\u00e1 vem um\u201d. S\u00f3 havia que ter cuidado no atravessar da rua de Gustavo Ferreira Pinto Basto. O resto era passar pela travessa do Recreio Art\u00edstico e descer pela ladeira do Alboi.<\/p>\n<p>A\u00ed, na descida da ladeira, lembro-me bem que tirava os p\u00e9s dos pedais e me deixava embalar pelo declive s\u00f3 parando mesmo em frente \u00e0 casa da minha tia. Era uma maravilha! <\/p>\n<p>J\u00e1 casado, quando um dia relembrava aos meus filhos pequenos as dificuldades com que se vivia na minha meninice, falei no triciclo novaiorquino e nas minhas descidas pela ladeira do Alboi. E n\u00e3o \u00e9 que a minha saudosa mulher, a Claudette, se sai com a confiss\u00e3o de que era desses tempos que come\u00e7ara a gostar de mim. Ela guardou a imagem do mi\u00fado das pernitas muito brancas esticadas para a frente em cima do triciclo. <\/p>\n<p>Aben\u00e7oado brinquedo! Morreu de uso. Mas n\u00e3o desapareceu da minha mem\u00f3ria. <\/p>\n<p>J\u00e1 morava a minha av\u00f3 na Rua de \u00cdlhavo, pr\u00f3ximo da Fonte dos Amores, quando, noutro Natal, a\u00ed pelos meus sete anos, outra surpresa tive com a mesma proveni\u00eancia. Ao lado dos meus sapatos estava um objecto que nunca vira. Era de couro castanho, como se fora uma bola de futebol, mas tinha a forma de um bal\u00e3o deflacionado. A parte mais estreita terminava num forte gancho met\u00e1lico. Perguntei para que serviria tal coisa. Foi-me dito que o meu pai tamb\u00e9m tinha encontrado no lixo de Nova Iorque o que chamara de \u201cpunchball\u201d, (s\u00f3 mais tarde viria a saber como escrever tal palavra\u2026) e que era uma bola para treino de \u201cbox\u201d.<\/p>\n<p>Enchi com uma bomba de bicicleta a tal \u201cpunchball\u201d e pendurei-a numa trave do teto do s\u00f3t\u00e3o da casa. E isso foi a del\u00edcia dos meus amigos de escola, mal souberam da sua exist\u00eancia. Muitos murros deram eles no bal\u00e3o. E muito suaram. Eu n\u00e3o, que nunca fui dado a essas coisas.<\/p>\n<p>Olhando para tr\u00e1s, relembrando tudo isto, muito da forma como vivi sinto que se volta a verificar agora nestes tempos de crise. Para mal dos nossos pecados, como diria a minha av\u00f3 Joaninha\u2026 <\/p>\n<p>Gaspar Albino<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 4<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-21510","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21510"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21510\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}