{"id":21534,"date":"2012-12-05T16:41:00","date_gmt":"2012-12-05T16:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21534"},"modified":"2012-12-05T16:41:00","modified_gmt":"2012-12-05T16:41:00","slug":"passadeiras-vermelhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/passadeiras-vermelhas\/","title":{"rendered":"Passadeiras vermelhas"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> \u00c9 impressionante a imagem dos altos montes a serem abatidos e os vales profundos terraplanados por ac\u00e7\u00e3o de Deus. \u00c9 nestes termos que Baruc, secret\u00e1rio do profeta Jeremias durante a deporta\u00e7\u00e3o dos Judeus em Babil\u00f3nia, no s\u00e9c. VI antes de Cristo, nos apresenta os cativos \u00abregressando como filhos de reis\u00bb (1.\u00aa leitura), como que na alegria e seguran\u00e7a de uma gloriosa \u00abpassadeira vermelha\u00bb. Atrav\u00e9s desta \u00abmaterializa\u00e7\u00e3o\u00bb da ac\u00e7\u00e3o salvadora de Deus, traduz o reconhecimento da sua presen\u00e7a na nossa hist\u00f3ria, como aquele que d\u00e1 o sentido profundo das tristezas e alegrias. <\/p>\n<p>Mas o evangelho traz uma diferen\u00e7a significativa: somos n\u00f3s que devemos meter m\u00e3os a esse trabalho cicl\u00f3pico, para que a salva\u00e7\u00e3o se v\u00e1 tornando realidade. O pr\u00f3prio Jesus \u00e9 salvador \u2013 mas foi \u00aboper\u00e1rio da salva\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s somos necess\u00e1rios para a grande equipa de planeamento e execu\u00e7\u00e3o do melhor trajecto. A 2.\u00aa leitura lembra que a todos tamb\u00e9m \u00e9 pedido o exerc\u00edcio da capacidade de \u00abdiscernimento\u00bb, que nos permite distinguir o que \u00e9 \u00abmais conveniente\u00bb. <\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, todas as Igrejas crist\u00e3s precisam de fazer o levantamento das pr\u00f3prias \u00abtortuosidades\u00bb, do presente mais do que do passado, e assim terem autoridade para apontar as tortuosidades da sociedade civil, particularmente os crimes de ordem econ\u00f3mica e pol\u00edtica (que imperam sobre os v\u00e1rios tipos de guerra e de persegui\u00e7\u00e3o). <\/p>\n<p>E ainda, dar nova vida \u00e0 hist\u00f3rica fun\u00e7\u00e3o de \u00abIgreja educadora\u00bb (apesar dos erros de muitos \u00abmestres\u00bb e da pregui\u00e7a e mau comportamento de muitos \u00abalunos\u00bb).<\/p>\n<p>Todo o mundo s\u00f3 ganharia se, para al\u00e9m de uma honesta e cr\u00edtica gest\u00e3o das escolas crist\u00e3s, estas contribu\u00edssem para estudos alternativos da organiza\u00e7\u00e3o e governa\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds, no qual a economia seja \u00aba casa\u00bb (\u00aboikos\u00bb) em que a pessoa humana se sente \u00e0 vontade para descobrir os seus pr\u00f3prios \u00abprinc\u00edpios directivos\u00bb (\u00abn\u00f3mos\u00bb\/\u00abnomia\u00bb). E a religi\u00e3o est\u00e1 profundamente intrincada com a pol\u00edtica \u2013 ao contr\u00e1rio do que tantas vezes se diz (com o perigo de ser uma desculpa para n\u00e3o contribuir para a desej\u00e1vel mudan\u00e7a da sociedade). Ali\u00e1s, a \u00abdoutrina social da Igreja\u00bb continua a manifestar potencialidades de renova\u00e7\u00e3o e de cr\u00edtica n\u00e3o s\u00f3 das formas de ac\u00e7\u00e3o mas dos pr\u00f3prios princ\u00edpios. Aumentou assim a esperan\u00e7a de viver desde j\u00e1 a nossa salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Uma nota, por\u00e9m: n\u00e3o valeria a pena substituir \u00abdoutrina\u00bb, termo de conota\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas e de estagna\u00e7\u00e3o, por outro mais apelativo da interven\u00e7\u00e3o social \u2013 pelo menos qualquer coisa como \u00aborienta\u00e7\u00f5es sociais\u00bb?).<\/p>\n<p>Ao longo da bimilen\u00e1ria hist\u00f3ria da Igreja, surgiram v\u00e1rios movimentos de ascetismo pouco equilibrado, acautelando os projectistas dos novos caminhos para o perigo de se distra\u00edrem do objectivo principal, sobretudo com a tenta\u00e7\u00e3o de olhar apenas para o prazer pessoal \u2013 na riqueza, no poder, no sexo, na pol\u00edtica, na religi\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria vida de fam\u00edlia e a vida de trabalho foram catalogadas depreciativamente como \u00abcuidados do mundo\u00bb, ganhando um significado terrivelmente pessimista e negativo. Por\u00e9m, o \u00abmundo\u00bb continua a ser a \u00abtudo aquilo que era bom\u00bb como projecto de Deus (G\u00e9nesis 1,3-25), e \u00e9 tamb\u00e9m o espa\u00e7o-tempo onde o ser humano tem que escolher entre o bem e o mal, sabendo que os defensores da justi\u00e7a s\u00e3o frequentemente perseguidos. Acontece que a confus\u00e3o deste mundo \u00e9 tanta que chegamos a pensar nele s\u00f3 como terreiro do mal\u2026<\/p>\n<p>Por isso, ningu\u00e9m devia cruzar os bra\u00e7os perante este grande projecto de um mundo melhor, n\u00e3o esquecendo que \u00abo trabalho do menino \u00e9 pouco mas quem o despreza \u00e9 louco\u00bb. \u00abThink positive\u00bb \u2013 ser\u00e1 o lema das leituras de hoje. Com efeito, n\u00e3o se referem apenas \u00e0 colheita \u00abno fim dos tempos\u00bb, mas ao semear e recolher nesta vida. <\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o da liturgia de hoje pede a Deus \u00abque os cuidados deste mundo n\u00e3o sejam obst\u00e1culo para caminhar generosamente ao encontro de Cristo\u00bb \u2013 at\u00e9 porque s\u00e3o tamb\u00e9m o caminho de Deus. Por\u00e9m, o resto da ora\u00e7\u00e3o mais parece pedinchar \u00abum lugarzinho no c\u00e9u\u00bb. Com ligeiras altera\u00e7\u00f5es, podia ficar assim: \u00abque a sabedoria do Alto\u00bb nos ajude a tirar bom proveito dos \u00abcuidados deste mundo\u00bb, sem nos afundarmos neles nem perdermos o sentido das coisas. Tamb\u00e9m tecemos com eles a grande \u00abpassadeira vermelha\u00bb.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-21534","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21534\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}