{"id":21543,"date":"2013-01-09T18:02:00","date_gmt":"2013-01-09T18:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21543"},"modified":"2013-01-09T18:02:00","modified_gmt":"2013-01-09T18:02:00","slug":"prostituta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/prostituta\/","title":{"rendered":"Prostituta"},"content":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 136 <!--more--> N\u00f3s cham\u00e1vamos-lhe Birinaite. Nunca soube o seu nome. Lembro-me dela pois conheci-a na minha inf\u00e2ncia. \u201cBirinaite\u201d \u00e9 o nome de uma mistura de bebidas alco\u00f3licas, no Brasil. O meu pai vendia-a aos copos num minibar na sua loja, a nossa quitanda, ou mercearia, onde conseguia o sustento da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Lembro-me que Birinaite era uma mulher alta, mulata, quase negra. Magr\u00edssima, de pernas altas e saia rodada. Andava veloz. Voz fina, meio rouca. Cabelo apanhado atr\u00e1s, de negra, meio esbranqui\u00e7ado. Ficava horas na loja de meu pai, sobretudo fazendo companhia \u00e0 minha m\u00e3e, que fazia o turno da tarde, enquanto o meu pai descansava, pois ele \u00e0s 4h da manh\u00e3 j\u00e1 andava no mercado, no Rio de Janeiro, para abastecer a mercearia para aquele dia, nos legumes e nas frutas, sobretudo. <\/p>\n<p>Birinaite tinha filhos. Vivia num barraco de madeira, numa dita favela, das que o Rio sempre teve. O marido era o seu chulo. Birinaite era prostituta. A mais famosa do bairro. \u00c9 interessante que nunca a minha m\u00e3e e o meu pai a afastaram dos filhos pequenos. Ela brincava connosco. Era alegre. Mas eu sempre a senti dorida. Vi v\u00e1rias vezes o seu rosto marcado de arranh\u00f5es e feridas ou marcas negras. O meu pai nunca lhe cobrava a bebida que ela preferia e que lhe mereceu a alcunha. Bebia birinaite. Era a Birinaite.<\/p>\n<p>Vi-a a conversar muito com a minha m\u00e3e, que lhe ficava muito grata pela companhia, pois deste modo sentia-se defendida das investidas de ass\u00e9dios e ladr\u00f5es. Por isso, uma vez por outra, Birinaite levava o saco cheio para fazer o jantar no barraco.<\/p>\n<p>Um dia, o tr\u00e2nsito da dupla via onde mor\u00e1vamos, parou. Um c\u00edrculo de homens e mulheres gritava. Faziam uma roda enorme. Ocupavam a avenida larga. No centro pude ver a Birinaite. A nossa loja ficava num s\u00edtio alto e domin\u00e1vamos a cena. O marido, de pau ou algo na m\u00e3o, perseguia Birinaite no meio da roda. Batia na pobrezinha sem d\u00f3 nem piedade. Ela defendia-se, ora agredindo ora dizendo palavr\u00f5es. Nunca esqueci a cena. Fiquei chocado pela crueldade das pessoas que gozavam com a \u201ctourada\u201d. Birinaite era t\u00e3o meiga. T\u00e3o doce. T\u00e3o amiga. T\u00ednhamo-la como nossa. O ser prostituta passava-nos ao lado, pois \u00e9ramos pequenos. S\u00f3 sab\u00edamos que dava e recebia carinho na nossa casa.<\/p>\n<p>No meio da luta, Birinaite encontrou um buraco e fugiu\u2026 para a loja do meu pai. Ali, o meu pai n\u00e3o deixou entrar o marido agressor. A minha m\u00e3e acolheu-a. Penso que lhe limparam as feridas, aconchegaram-na, recebeu guarida. \u00c9 a ultima lembran\u00e7a que tenho dela. Vim depois para Portugal, e s\u00f3 h\u00e1 uns anos soube que morreu. Como? N\u00e3o sei. Talvez na mesma desgra\u00e7a que fora a sua vida e sem os amigos da loja para a aconchegar\u2026<\/p>\n<p>Em Portugal viv\u00edamos num apartamento do r\u00e9s-do-ch\u00e3o. O primeiro andar tamb\u00e9m foi prost\u00edbulo por uns anos. Os clientes subiam e desciam e mais que uma vez bateram \u00e0 nossa porta por engano. Nunca vi os meus pais preocupados. Eu j\u00e1 era adolescente e lembro-me que uma delas, linda, a Helena, frequentava a minha casa conversando com os meus pais. Era, tamb\u00e9m, muito querida. Um dia, o chulo chegou e Helena ficou quase desfeita de tanta pancada. Bateu \u00e0 nossa porta. A minha m\u00e3e acolheu-a com carinho. Cuidou dela depois de ela chorar tudo aquilo a que tinha direito. As pessoas, sobretudo da Igreja, criticavam a exist\u00eancia da pouca vergonha ali\u2026 E n\u00e3o entendiam o apoio dado a elas\u2026 A minha fam\u00edlia n\u00e3o entendia a cr\u00edtica, pois afinal Jesus e as prostitutas sempre andaram juntos\u2026 Um dia, a sorte mudou para Helena. Um cat\u00f3lico holand\u00eas caiu na tenta\u00e7\u00e3o e foi l\u00e1. Conheceu Helena e gostou dela. Levou-a com ele. Ela casou-se pela Igreja, e, na \u00faltima vez que soube dela, j\u00e1 era m\u00e3e de um pequeno holand\u00eas. N\u00e3o sei nada dela, hoje, mas quero crer que, na vida dela, ganhou o amor. Talvez sim ou n\u00e3o na vida da Birinaite. S\u00f3 sei de uma coisa. Na vida, seja quem for, prostitutas, ladr\u00f5es ou o que seja\u2026 se n\u00e3o conseguem sair do buraco, muitas vezes \u00e9 por n\u00e3o encontrarem o rosto misericordioso de Jesus no acolhimento do vizinho, da fam\u00edlia\u2026 <\/p>\n<p>A prostitui\u00e7\u00e3o e o adult\u00e9rio, na B\u00edblia, s\u00e3o s\u00edmbolo da nossa infidelidade \u00e0 Alian\u00e7a de Deus com o seu povo. S\u00e3o o que eu o sou quando n\u00e3o vivo a minha vida de compromisso batismal\u2026<\/p>\n<p>Os seres humanos precisam de ser amados sem medos nem preconceitos. Vi o rosto feliz de Helena, a prostituta do meu pr\u00e9dio, e a alegria de ter sa\u00eddo dessa vida quando ela veio contar \u00e0 minha fam\u00edlia e agradecer termos sido amigos quando todos a condenavam. Lembro a ternura da Birinaite, j\u00e1 falecida, esperando que tenha encontrado em Jesus o que os homens lhe negaram. E sei que, enquanto o nosso cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se abrir ao irm\u00e3o por ele ser pessoa e amado por Deus, sem r\u00f3tulos ou cat\u00e1logos, nunca o Amor de Cristo triunfar\u00e1 no meio de n\u00f3s!<\/p>\n<p>Vitor Espadilha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 136<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-21543","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21543","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21543"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21543\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}