{"id":21561,"date":"2013-01-23T16:28:00","date_gmt":"2013-01-23T16:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21561"},"modified":"2013-01-23T16:28:00","modified_gmt":"2013-01-23T16:28:00","slug":"o-meu-primeiro-emprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-meu-primeiro-emprego\/","title":{"rendered":"O meu primeiro emprego"},"content":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 5 <!--more--> Gaspar Albino<\/p>\n<p>Artista pl\u00e1stico<\/p>\n<p>N\u00e3o deveria ter mais de sete anos\u2026 Certo, certo, j\u00e1 andava na escola prim\u00e1ria da Gl\u00f3ria, n\u00e3o no edif\u00edcio que l\u00e1 est\u00e1 hoje no mesmo s\u00edtio, mas noutro, para mim muito mais bonito e organizado. E j\u00e1 morava na rua de \u00cdlhavo, hoje rua do Dr. M\u00e1rio Sacramento, pois que a minha av\u00f3 Joaninha, vi\u00fava, para l\u00e1 mudara com o seu rancho de filhos, deixando para tr\u00e1s a casa da rua de Gustavo Ferreira Pinto Basto, onde eu vivera at\u00e9 esses meus sete anos de idade. Em termos muito pr\u00e1ticos, tal mudan\u00e7a significava que a minha fam\u00edlia tinha passado da zona nobre da cidade de Aveiro para a periferia, pois que quase campo era o s\u00edtio da Fonte dos Amores. <\/p>\n<p>O meu saudoso amigo de toda a minha verdadeira meninice, o Andr\u00e9 Ala dos Reis de seu nome completo, o melhor aluno de sempre do nosso Liceu, passou a ser s\u00f3 o meu companheiro de fim-de-semana. Com grande pena minha, pois que, perder-me e achar-me, era, enquanto seu vizinho, em casa dele que eu passava todo o meu tempo de garoto. Foi l\u00e1 que eu comecei a tartamudear as minhas primeiras letras, a fazer os meus primeiros desenhos, sempre sob o avisado conselho e opini\u00e3o do meu mestre, do meu quase irm\u00e3o, e que, apesar de s\u00f3 ser mais velho do que eu a\u00ed uns tr\u00eas anos, n\u00e3o mais, se comportava para comigo com um ar paternalista  que correspondia \u00e0 sua maneira bonacheirona de me transmitir os seus saberes. <\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que com a minha ida para a escola prim\u00e1ria voltei a encontrar-me com o Andr\u00e9, ele na quarta classe e eu na primeira. Mas, feitas as obriga\u00e7\u00f5es, os meus companheiros passaram a ser os garotos da Fonte dos Amores, todos eles com apet\u00eancias totalmente diferentes daquelas que o meu amigo Andr\u00e9 me instilava. \u00c9 certo que eu n\u00e3o era muito de andar a brincar na relva onde as mulheres punham a corar a roupa das senhoras da cidade que elas lavavam nos tanques da Fonte dos Amores.<\/p>\n<p>Perdia, ou ganhava, muito do meu tempo a descobrir os segredos do estirador do meu falecido av\u00f4 Ant\u00f3nio Gaspar que, nos seus \u00faltimos tempos de vida, trocara as engenharias da constru\u00e7\u00e3o de estradas (at\u00e9 no Brasil!) pela feitura de esculturas em pedra de An\u00e7\u00e3 para adornar sepulturas e capelas que ele foi fazendo por esse norte de Portugal fora. Esse estirador fora arrumado no s\u00f3t\u00e3o da casa da minha av\u00f3 Joaninha e era l\u00e1 que eu gostava de passar o meu tempo livre, a ver desenhos do meu av\u00f4, a tentar reproduzi-los, a ver postais com fotografias de modelos para as suas esculturas\u2026<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a minha av\u00f3, apesar de eu n\u00e3o ser nada de vagabundear, logo que se aproximaram as primeiras f\u00e9rias de Natal, disse-me que eu iria para a oficina de carpintaria que o meu tio Jeremias tinha na Pra\u00e7a do Peixe para \u201cn\u00e3o me perder na rua\u201d.<\/p>\n<p>E assim foi. \u201cPegava\u201d no trabalho \u00e0s oito da matina, almo\u00e7ava em casa da minha tia Lizette que nessa altura j\u00e1 morava na Beira-Mar, e regressava a casa ao fim do dia. As minhas tarefas consistiam em ajudar os oficiais carpinteiros chegando-lhes as ferramentas do seu of\u00edcio, form\u00f5es, martelos, goivas, plainas, garlopas, cadetes (achei sempre piada ao nome desta plaina estreitinha que, nas m\u00e3os dos artistas, fazia verdadeiros milagres); a certa altura, j\u00e1 me punham a fazer malhetes, coisa nada f\u00e1cil para as m\u00e3os de um mi\u00fado como eu. A verdade \u00e9 que nunca parava. Nos intervalos, havia sempre pregos de barrote para endireitar, ou pequenos recados para fazer. Lembro, contudo, um dia em que fui a Matadu\u00e7os com o Z\u00e9, camarada de trabalho pouco mais velho do que eu, buscar uns barrotes para fazer uns port\u00f5es. Para o seu transporte, lev\u00e1mos um carro de m\u00e3o. Para l\u00e1 tudo bem. Mas, na volta, a subir a ladeira do Olho-de-\u00c1gua, em Esgueira, com a inclina\u00e7\u00e3o, os barrotes come\u00e7aram a escorregar. E n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos nem tamanho nem for\u00e7a para subir com a carga. Valeu-nos um senhor que parou o seu autom\u00f3vel \u00e0 frente de n\u00f3s e deu-nos uma m\u00e3o, ajudando-nos, assim, a subir a \u00edngreme ladeira. J\u00e1 su\u00e1vamos por todos os lados quando regress\u00e1mos \u00e0 oficina. Mas nem tugimos nem mugimos\u2026<\/p>\n<p>Deste meu primeiro \u201cemprego\u201d \u00e9 esta aventura que mais me ficou. Ou talvez n\u00e3o\u2026 \u00c0 dist\u00e2ncia, tenho a impress\u00e3o de que aquilo que vos vou contar me ter\u00e1 marcado muito mais.<\/p>\n<p>Eu tinha um sal\u00e1rio que me era pago religiosamente ao s\u00e1bado. Eram cinco escudos que, logo que chegava a casa, entregava \u00e0 minha av\u00f3. Um dia, o meu tio Jeremias, meu patr\u00e3o, entendeu que eu merecia mais. E aumentou-me um escudo. Vinha a p\u00e9 para casa todo contente mas, ao passar pelas 5 Bicas, lembrei-me de que o aro de bicicleta que eu h\u00e1 tanto tempo desejava possuir para poder andar \u00e0s corridas com os meus companheiros de escola custava, na oficina do Sr. Ra\u00fal, ali mesmo a meu lado, exactamente o escudo do meu aumento. Meu dito, meu feito. O Sr. Ra\u00fal era um indiv\u00edduo de cara bondosa, que, talvez por for\u00e7a da sua profiss\u00e3o, andava sempre dobrado, fazendo lembrar um L ao contr\u00e1rio. S\u00f3 a cabe\u00e7a se levantava para nos falar. Entrei afoitamente na oficina, fechei o neg\u00f3cio, paguei o aro e j\u00e1 regressei a casa, todo lampeiro, a correr, radiante, atr\u00e1s da roda que eu impulsionava, feliz. <\/p>\n<p>Deixei o aro bem arrumado atr\u00e1s da porta de entrada e subi as escadas que me levavam ao primeiro andar onde morava. Entreguei \u00e0 minha av\u00f3 o meu sal\u00e1rio e tudo correu normalmente. Mas, no dia seguinte, domingo, a minha tia Lizette foi com o meu tio Jeremias visitar a minha av\u00f3 Joaninha. Durante o ch\u00e1 com o \u201cbolo de 24 horas\u201d que costumavam levar da Costeira, o meu tio, todo ufano, quis saber do resultado do aumento que me tinha dado. E a\u00ed \u00e9 que foram elas. Minha av\u00f3 chamou-me e quis saber o que eu fizera ao precioso escudo que lhe n\u00e3o entregara. Envergonhado, contei o que tinha feito ao dinheiro. Na verdade, eu nunca pensei que o meu tio fosse logo vangloriar-se da sua \u201cgenerosidade\u201d. Ouvi um ralhete como nunca me tinha sido dado. Se eu tivesse um buraco era por l\u00e1 que eu desaparecia. \u00c9 claro que me arrependi. \u00c9 claro que reconheci que n\u00e3o devia ter feito o que fiz. Mas o mal j\u00e1 estava feito.<\/p>\n<p>Enfim: uma hist\u00f3ria das hist\u00f3rias de um tempo que j\u00e1 l\u00e1 vai, de um tempo que j\u00e1 se n\u00e3o usa.<\/p>\n<p>Mas que foi tempo\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 5<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-21561","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21561","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21561"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21561\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21561"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21561"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21561"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}