{"id":21642,"date":"2013-02-06T16:45:00","date_gmt":"2013-02-06T16:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21642"},"modified":"2013-02-06T16:45:00","modified_gmt":"2013-02-06T16:45:00","slug":"o-senhor-lopes-das-porcelanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-senhor-lopes-das-porcelanas\/","title":{"rendered":"O Senhor Lopes das Porcelanas"},"content":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 6 <!--more--> A ideia mais forte que eu continuo a guardar deste senhor Lopes \u00e9 a da bondade personificada. Poderei dizer que foi o meu segundo patr\u00e3o\u2026 Patr\u00e3o?&#8230; julgo que nunca foi, pois, que eu tenha consci\u00eancia, nunca me pagou qualquer sal\u00e1rio. Ainda andava na escola prim\u00e1ria. Chegadas as f\u00e9rias grandes, a minha av\u00f3 Joaninha ter\u00e1 falado com o meu padrinho Alpoim, irm\u00e3o de minha m\u00e3e, para ver se os donos das Porcelanas de Aveiro, Lda., onde ele era encarregado, me acolhiam durante esse per\u00edodo, quase tr\u00eas meses de Ver\u00e3o, para eu \u201cn\u00e3o andar na rua\u201d. Eu j\u00e1 conhecia esta express\u00e3o. E, sinceramente, ainda hoje acho que, no meu caso, isso de andar na rua n\u00e3o era l\u00e1 muito meu. Perder-me e achar-me era \u00e0s voltas com os livros do meu falecido av\u00f4 materno, o av\u00f4 Ant\u00f3nio Gaspar, meu hom\u00f3nimo, a vasculhar os \u201cvegetais\u201d dos seus projetos e a maravilhar-me com seus estudos para escultura. Da sua estada por terras do Brasil, ele trouxera livros de Alan Kardec, prova do seu interesse pelas coisas esp\u00edritas. A minha av\u00f3 sempre me disse que eu n\u00e3o deveria ler nada desses assuntos, mas, a verdade \u00e9 que nunca me proibiu de forma bem expl\u00edcita. E eu li-os todos, para matar a minha curiosidade. Era um mundo um tanto ou quanto misterioso que me provocava muitas interroga\u00e7\u00f5es que eu s\u00f3 conseguia, relativamente, apaziguar com as li\u00e7\u00f5es das senhoras da catequese da S\u00e9 e com as sabatinas da minha tia Florize. Um dia descobri um dicion\u00e1rio de nomes pr\u00f3prios no meio dos livros daquele meu av\u00f4 que morrera pouco tempo antes de eu nascer. E muitas vezes dei comigo a pensar como seria bom t\u00ea-lo tido como meu perceptor para melhor poder apreci\u00e1-lo. Foi com a descoberta desse livro de nomes que eu, pelo menos para mim, encontrei a raz\u00e3o de ser dos nomes dos meus tios: Florize, Alpoim, Cor\u00edntio Aquilino, Lizette, todos eles muito pouco normais no meio em que eu vivia. Um pouco mais frequente era o nome da minha m\u00e3e: Maria Benedita. Nome que, no meu conceito, lhe assentava que nem uma luva\u2026  <\/p>\n<p>Mas voltemos ao senhor Lopes\u2026 das Porcelanas de Aveiro e ao armaz\u00e9m onde eu iria passar o melhor dos tr\u00eas meses de f\u00e9rias de Ver\u00e3o. Foi o meu padrinho Alpoim que me apresentou ao pessoal: ao sr. Henrique (mais tarde viria a ter, na Escola Industrial e Comercial, um seu filho, o Ac\u00e1cio, como meu colega); e ao sr. Jo\u00e3o, que gestionava os movimentos de entradas e sa\u00eddas do armaz\u00e9m. O meu padrinho j\u00e1 teria falado com os patr\u00f5es, pois o meu posto de trabalho j\u00e1 me estava destinado. Eu iria endireitar os pregos quase de barrote que teria de arrancar, com um martelo de orelhas, \u00e0s t\u00e1buas dos caixotes em que o sr. Henrique embalava a lou\u00e7a, quer de porcelana, quer de vidro, envolvendo, quer uma quer outra, em papel de jornal e palha. As caixas, o papel e a palha eram o que vinha das f\u00e1bricas da Vista Alegre, de Coimbra e da Marinha Grande. Nada se desperdi\u00e7ava; n\u00e3o havia taras perdidas. E a maioria dos pregos era reutilizada, merc\u00ea do meu labor. \u00c0s vezes sa\u00edam retorcidos de forma exagerada e as minhas for\u00e7as de garoto eram postas \u00e0 prova. Quantas marteladas mandei eu nos meus polegares!<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o havia mais pregos para endireitar, eu ia para o escrit\u00f3rio da firma onde pontificavam os senhores J\u00falio e Silva. Foi a\u00ed que aprendi, mi\u00fado de 8 anos, o que era um \u201cborr\u00e3o\u201d, proleg\u00f3meno da contabilidade de \u201cpartidas dobradas\u201d, que, mais tarde, viria a estudar e dominar. E punham-me a somar as longas colunas das folhas brancas de trinta e cinco linhas, de cima at\u00e9 baixo, de baixo para cima, tudo seguidinho e com rapidez. Nessa altura, toda a contabilidade era manuscrita mas disso eu ainda n\u00e3o percebia nada. Mas j\u00e1 somava bem e depressa, o que j\u00e1 n\u00e3o era mau. <\/p>\n<p>Apesar de mais martelada, menos martelada, eu sentia-me muito bem, pois toda a gente me acarinhava. At\u00e9 o sr. Lopes, j\u00e1 que, passados poucos dias de eu ter come\u00e7ado a trabalhar na sua empresa, a\u00ed por volta das onze horas da manh\u00e3, ele passava pela sec\u00e7\u00e3o de embalagem, vindo do escrit\u00f3rio, e levava-me para o jardim, onde criava macieiras de jardim e muitas roseiras lindas que nem amores, para limpar a terra de tudo o que fosse daninho.  E eu gostava, se gostava!, daquela meia hora, se tanto, em que o ouvia a falar mais com as plantas do que comigo. Era uma del\u00edcia!<\/p>\n<p>A minha meninice de ent\u00e3o n\u00e3o me permitia formar uma ideia de quem, verdadeiramente, o sr. Lopes era. Sabia que ele era uma pessoa importante na cidade, um comerciante muito conceituado. O meu padrinho disse-me que ele at\u00e9 era vereador da C\u00e2mara Municipal  de Aveiro. Aos meus olhos de menino aquele senhor, t\u00e3o af\u00e1vel, era mesmo diferente da maioria das outras pessoas que eu via \u00e0 minha volta. <\/p>\n<p>Um dia, eu pr\u00f3prio, tamb\u00e9m fui vereador da nossa C\u00e2mara. E foi por conta dessa minha passagem pela vida municipal que eu descobri muito do que me faltava para justificar a enorme impress\u00e3o que aquele homem bom me tinha provocado, naqueles tempos em que ainda se respiravam os fumos horrorosos da Segunda Guerra Mundial, com o nosso povo, a minha fam\u00edlia tamb\u00e9m, a passar enormes priva\u00e7\u00f5es de toda a ordem.<\/p>\n<p>Como Vereador, ele fez com que a C\u00e2mara de que fazia parte pusesse de p\u00e9 o servi\u00e7o que permitiu mitigar a fome de muita gente em estado de car\u00eancia absoluta. Esse servi\u00e7o foi a SOPA DOS POBRES.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que o carinho e a devo\u00e7\u00e3o com que o sr. Lopes tratava as plantas do seu jardim ter\u00e3o sido os mesmos que ele dedicou \u00e0quela sua t\u00e3o benfazeja iniciativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 6<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-21642","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21642"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21642\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}