{"id":21646,"date":"2013-02-06T16:48:00","date_gmt":"2013-02-06T16:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21646"},"modified":"2013-02-06T16:48:00","modified_gmt":"2013-02-06T16:48:00","slug":"diz-me-com-quem-andas-dir-te-ei-quem-es","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/diz-me-com-quem-andas-dir-te-ei-quem-es\/","title":{"rendered":"\u00abDiz-me com quem andas, dir-te-ei quem \u00e9s\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Por alguma raz\u00e3o se diz \u00abantes s\u00f3 que mal acompanhado\u00bb. E a verdade \u00e9 que h\u00e1 muita gente para quem Deus n\u00e3o passa de uma p\u00e9ssima companhia \u2013 se \u00e9 que chega a ser companhia alguma. Acresce que o natural \u00abdesejo de Deus\u00bb esmorece perante a mesquinhez e negativismo de muitas imagens ou maneiras de falar de Deus (por parte at\u00e9 de quem O devia \u00abrepresentar\u00bb de modo especial).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, muitas vezes, nem queremos p\u00f4r a hip\u00f3tese desse \u00abamigo escondido\u00bb, com justificado receio de que n\u00e3o concorde com os nossos projectos ou que nos obrigue a pensar e a arriscar, a sair da tranquilidade do nosso cantinho.  <\/p>\n<p>Isa\u00edas viu-se a bra\u00e7os com uma presen\u00e7a estranha, pertinazmente importuna, descrita com as usuais e impressionantes imagens de \u00abgrande rei do universo\u00bb, rodeado de fogo, aclama\u00e7\u00f5es e de \u00abseres ardentes\u00bb (significado do termo hebraico \u00abserafim\u00bb) que Lhe chamavam \u00abSanto\u00bb tr\u00eas vezes (o grau m\u00e1ximo de perfei\u00e7\u00e3o) \u2013 antiga f\u00f3rmula de culto, anterior a Isa\u00edas e n\u00e3o exclusiva do juda\u00edsmo, e que prevaleceu na liturgia crist\u00e3. <\/p>\n<p>Havia raz\u00e3o para ter medo: acreditava-se que a vis\u00e3o da transcend\u00eancia divina era de tal modo tremenda que podia aniquilar o ser humano. Por isso, esse profeta precisou de muita coragem (ou ter\u00e1 tido o atrevimento) para aceitar o desafio lan\u00e7ado pelo pr\u00f3prio Deus \u2013 mas sobretudo porque teve a experi\u00eancia de que o encontro com Deus tamb\u00e9m podia purificar e salvar. Partiu ent\u00e3o a anunciar que vale a pena a amizade de Deus, que nos inspira o olhar positivo sobre a vida (a pesar de tudo) e a saber agir na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa. <\/p>\n<p>\u00abSanto\u00bb e \u00absagrado\u00bb (em ingl\u00eas \u00abholy\u00bb) derivam do mesmo radical indo-europeu (\u00absak\u00bb e \u00absank\u00bb), j\u00e1 com o sentido de consagrar, dedicar, apontando para algo aparte e inviol\u00e1vel (o radical de \u00abholy\u00bb tem o sentido de completo, em perfeito estado, como se v\u00ea em \u00abwhole\u00bb e \u00abhealth\u00bb).<\/p>\n<p>O \u00abSanto de Israel\u00bb n\u00e3o encaixa, portanto, nas medidas humanas (est\u00e1 acima de toda a relatividade). Como entender que possamos travar com Ele uma rela\u00e7\u00e3o de amizade? Mas, na verdade, Ele \u00e9 amor, prazer, for\u00e7a, salva\u00e7\u00e3o e apoio absolutos, \u00abrochedo inabal\u00e1vel\u00bb, \u00abbenevol\u00eancia e fidelidade eternas\u00bb. Ao longo da B\u00edblia, e particularmente nos Salmos (como no da liturgia de hoje), s\u00e3o frequentes estes conceitos.<\/p>\n<p>Na 2.\u00aa leitura, encontramos a forma provavelmente mais antiga do credo crist\u00e3o, que v\u00ea na morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus a \u00abprova\u00bb de que ele \u00e9 \u00abo Cristo de Deus\u00bb (o \u00abMessias\u00bb), a sua perfeita revela\u00e7\u00e3o. S. Paulo j\u00e1 n\u00e3o v\u00ea barreiras entre os seres humanos e Deus. Confessa-se \u00abindigno de ser chamado ap\u00f3stolo\u00bb por ter perseguido os crist\u00e3os e se sentir, perante a perfei\u00e7\u00e3o de Deus, como um ser mal formado (um \u00ababorto\u00bb, como ele pr\u00f3prio escreve), mas que mesmo assim a Vida divina se serve dele para comunicar mais vida. E cultivou esta amizade bem exigente quanto plenamente gratificante. <\/p>\n<p>E que dizer de S. Pedro? J\u00e1 andava desconfiado sobre quem Jesus seria, mas ficou aturdido ao dar-se conta de que \u00abo Santo de Israel\u00bb se manifestava no Mestre. Caiu de joelhos e gritou: \u00abAfasta-te de mim!\u00bb <\/p>\n<p>N\u00e3o lembra o espanto de Isa\u00edas e Paulo?<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os tempos eram outros e Jesus deu-lhe a volta: \u00abpromoveu-o\u00bb a \u00abpescador de homens\u00bb \u2013 e por isso o ensinou, bem como aos companheiros, a n\u00e3o se entregarem ao des\u00e2nimo, mesmo quando o trabalho aturado de uma noite inteira n\u00e3o d\u00e1 nada que se veja. <\/p>\n<p>O amigo Deus aguenta bem os nossos defeitos \u2013 mas sem a gente teimar no erro, por caturrice ou pregui\u00e7a.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria do cristianismo, Deus \u00e9 muitas vezes apresentado como avesso aos nossos prazeres. Ora o nosso amigo Deus s\u00f3 quer que em tudo, desde a brincadeira ao trabalho mais \u00abs\u00e9rio\u00bb, olhemos os outros como amigos tamb\u00e9m. O mal \u00e9 magoar os outros, impedi-los, em todos os tipos de rela\u00e7\u00f5es humanas, de se realizarem e ser felizes a 100%. <\/p>\n<p>Bem vistas as coisas, Deus n\u00e3o ser\u00e1 assim t\u00e3o m\u00e1 companhia \u2026<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt  <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-21646","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21646","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21646"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21646\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21646"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21646"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21646"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}