{"id":21676,"date":"2013-02-06T16:59:00","date_gmt":"2013-02-06T16:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21676"},"modified":"2013-02-06T16:59:00","modified_gmt":"2013-02-06T16:59:00","slug":"um-sentimento-pouco-habitual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-sentimento-pouco-habitual\/","title":{"rendered":"Um sentimento pouco habitual"},"content":{"rendered":"<p>Quando Jo\u00e3o Paulo II pediu desculpa dos erros e desvios da Igreja ao longo da hist\u00f3ria, n\u00e3o faltou gente a dizer que foi um gesto perigoso, pois, desse modo, estava a dar motivo para novos ataques por parte dos seus inimigos. O mesmo aconteceu com Bento XVI ao sentir-se humilhado publicamente e indo ao encontro das v\u00edtimas dos crimes de pedofilia, cometidos por gente da Igreja e em institui\u00e7\u00f5es a ela ligadas. Hoje j\u00e1 aparecem bispos a reconhecer que o afastamento da Igreja se deve ao facto da pouca forma\u00e7\u00e3o recebida e da falta de sentido de perten\u00e7a ao povo de Deus por parte de gente que andou anos e anos pelos templos e se foi empobrecendo na sua f\u00e9.  <\/p>\n<p>Este sentimento de culpa n\u00e3o agrada aos que continuam marcados pela velha apolog\u00e9tica, para a qual a Igreja \u00e9 impoluta e tudo nela tem justifica\u00e7\u00e3o ante as cr\u00edticas, ju\u00edzos e atitudes de quem vive fora e lhe quer mal.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Conc\u00edlio Vaticano II foi dif\u00edcil, pelo peso de uma tradi\u00e7\u00e3o que mais pensava no prest\u00edgio institucional, reconhecer os pecados da Igreja, passados e presentes, n\u00e3o entrando no documento final sobre a Igreja, a express\u00e3o \u201cIgreja pecadora\u201d, que foi substitu\u00edda por uma outra mais suave, \u201cIgreja santa, mas sempre necessitada de purifica\u00e7\u00e3o\u201d. Mesmo assim, ainda h\u00e1 quem reaja a esta confiss\u00e3o p\u00fablica, mais lhe agradando dizer-se \u201cIgreja santa e povoada de santos\u201d.<\/p>\n<p>A primeira condi\u00e7\u00e3o para uma renova\u00e7\u00e3o, pessoal e comunit\u00e1ria, \u00e9 reconhecer que nem tudo na Igreja, a todos os n\u00edveis, pessoais e institucionais, esteve ou est\u00e1 sempre bem, sentimento acompanhado de uma vontade s\u00e9ria de entrar no caminho do Evangelho, que \u00e9 para o crist\u00e3o o caminho da verdade a seguir e a professar. Em linguagem mais exata dir-se-\u00e1 vontade de convers\u00e3o a Cristo e ao seu projeto salvador. Um caminho sempre poss\u00edvel, porque Ele mesmo o andou e o apontou aos que nele acreditam e O querem seguir livremente.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que seja alguma vez poss\u00edvel analisar as crises da Igreja sem procurar as suas verdadeiras causas. S\u00e3o muitas as crises que se enfrentam hoje: crise de f\u00e9 de muitos batizados, de di\u00e1logo no interior da comunidade eclesial e com a sociedade, de presen\u00e7a apost\u00f3lica na sociedade, de voca\u00e7\u00f5es ao minist\u00e9rio ordenado e \u00e0 vida consagrada por amor ao Reino, crises das fam\u00edlias e dos jovens e de credibilidade num mundo cada vez mais atento e cr\u00edtico\u2026<\/p>\n<p>A Igreja tem de procurar as causas dentro de si pr\u00f3pria, no seu agir di\u00e1rio, nas prioridades que d\u00e1 \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o, nos objetivos que persegue em virtude da sua miss\u00e3o, na forma\u00e7\u00e3o que ministra aos mais respons\u00e1veis, no esfor\u00e7o de atualiza\u00e7\u00e3o ante as mudan\u00e7as sociais e culturais, na falsa conce\u00e7\u00e3o de que a catequese \u00e9 para os sacramentos e menos para a vida crist\u00e3. Sempre consciente de que o que determina a sua vida \u00e9 for\u00e7a que leva consigo. Fora dela apenas encontra condicionamentos e interpela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o a deixam nem adormecer, nem instalar.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil encontrar na hist\u00f3ria uma institui\u00e7\u00e3o religiosa que, a n\u00edvel mundial, conte ou tenha contado para a realiza\u00e7\u00e3o dos seus fins, com um t\u00e3o grande n\u00famero de gente generosa, permanente ou volunt\u00e1ria, com tantas possibilidades de agir livremente, com tantos meios de forma\u00e7\u00e3o acess\u00edveis. Porque se chegou, ent\u00e3o, ao s\u00e9culo XXI, em pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, a uma t\u00e3o grande debilidade da f\u00e9 e do sentido de perten\u00e7a, a um individualismo corrosivo, sempre em crescimento, a uma manifesta desafei\u00e7\u00e3o pelo trabalho pastoral programado e realizado de modo org\u00e2nico e em conjunto, a um predom\u00ednio de clericalismo ser\u00f4dio e doentio, a uma atitude pouco sens\u00edvel \u00e0 presen\u00e7a apost\u00f3lica em campos de fronteira, a uma alargada dificuldade no acolhimento e no trabalho com os leigos, a uma tenta\u00e7\u00e3o do vistoso em detrimento do essencial, a uma dif\u00edcil compreens\u00e3o de que a Igreja, por natureza e por miss\u00e3o, \u00e9 pobre e para os pobres, a um medo de os jovens batizados e confirmados se comprometerem, de modo definitivo e permanente, tanto no matrim\u00f3nio, como em formas de compromisso, por inteiro, \u00e0 miss\u00e3o evangelizadora?<\/p>\n<p> Se n\u00e3o se reconhecer o caminho aberto e pastoralmente urgente para uma renova\u00e7\u00e3o, s\u00e9ria e consequente, a operar em tempos dif\u00edceis como os atuais, o retrocesso \u00e9 inevit\u00e1vel e a debandada n\u00e3o parar\u00e1. N\u00e3o falta gente capaz que todos os dias se gasta generosamente. N\u00e3o falta a certeza de que Deus est\u00e1 empenhado nesta causa. Falta talvez a confiss\u00e3o das culpas e o prop\u00f3sito s\u00e9rio de prosseguir. Mas isto tem a ver com toda a Igreja, sem que desta miss\u00e3o algu\u00e9m se possa escusar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Jo\u00e3o Paulo II pediu desculpa dos erros e desvios da Igreja ao longo da hist\u00f3ria, n\u00e3o faltou gente a dizer que foi um gesto perigoso, pois, desse modo, estava a dar motivo para novos ataques por parte dos seus inimigos. 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