{"id":21708,"date":"2011-02-23T10:51:00","date_gmt":"2011-02-23T10:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21708"},"modified":"2011-02-23T10:51:00","modified_gmt":"2011-02-23T10:51:00","slug":"ruinas-de-uma-guerra-e-odio-destruidor-de-uma-liberdade-nao-preparada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ruinas-de-uma-guerra-e-odio-destruidor-de-uma-liberdade-nao-preparada\/","title":{"rendered":"Ru\u00ednas de uma guerra e \u00f3dio destruidor de uma liberdade n\u00e3o preparada"},"content":{"rendered":"<p>Fui h\u00e1 poucos dias \u00e0 Guin\u00e9-Bissau, em miss\u00e3o de solidariedade fraterna, depois de l\u00e1 ter ido, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o quase quarenta anos, numa dif\u00edcil e perigosa miss\u00e3o pastoral. Ent\u00e3o, era a guerra. Agora, a muita mis\u00e9ria \u00e0 vista, onde ressalta o esfor\u00e7o her\u00f3ico de abnegados reconstrutores, uns que a\u00ed vivem de h\u00e1 anos, outros que v\u00e3o por um tempo, todos procurando dar prioridade ao essencial: a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a reconcilia\u00e7\u00e3o lenta de etnias e religi\u00f5es, o acolhimento a um voluntariado preparado e generoso, a coragem de n\u00e3o desistir nunca ante o que faz falta, ainda que conseguido com dores e lentid\u00e3o. Tudo aquilo que se v\u00ea com algum futuro \u00e9 fruto da iniciativa poss\u00edvel, sobretudo das institui\u00e7\u00f5es religiosas, porque outra iniciativa, bem urgente, como a da cria\u00e7\u00e3o de pequenas e m\u00e9dias empresas que garantam trabalho, n\u00e3o encontra garantias de sucesso, dada a falta de seguran\u00e7a, de apoio, de rumo, de esperan\u00e7a. <\/p>\n<p>Pa\u00eds adiado<\/p>\n<p>A Guin\u00e9-Bissau aparece-nos, em aspectos fundamentais, como um pa\u00eds ainda sem rumo certo, nem pressa de o encontrar, onde as pessoas v\u00e3o vegetando, entregues a um provis\u00f3rio, que se vai tornando definitivo. De quem manda, se acaso h\u00e1 a\u00ed algu\u00e9m a servir o povo, tudo sem pressa, a menos que se espere gente de fora a quem \u00e9 preciso dar a imagem de um progresso que, de facto, n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>A riqueza mais vis\u00edvel da Guin\u00e9 Bissau s\u00e3o os muitos milhares de jovens e crian\u00e7as. Patrim\u00f3nio humano e natural que se est\u00e1 deteriorando de muitas maneiras pela falta de empenhamento presente, de perspectivas de futuro, de ocupa\u00e7\u00e3o estimulante, de um trabalho que impulsione a viver, a crescer e a produzir.<\/p>\n<p>O primeiro bispo da diocese, criada depois da independ\u00eancia e que ocupava todo o pa\u00eds, foi um franciscano italiano, D. Sept\u00edmio Ferrazzetta, mission\u00e1rio que j\u00e1 a\u00ed vivia e trabalhava desde h\u00e1 anos, conhecia bem a realidade, viu os horrores da guerra e recebeu, com a chamada ao episcopado, um na\u00e7\u00e3o em ru\u00ednas e sem meios. Dotado de um cora\u00e7\u00e3o onde o amor ao povo n\u00e3o tinha limites, de uma f\u00e9 em Deus que era o segredo da sua coragem frente aos empreendimentos inadi\u00e1veis, de uma lucidez nos processos de ac\u00e7\u00e3o, de uma capacidade ex\u00edmia para convocar quantos, de perto e de longe, podiam colaborar com ajudas indispens\u00e1veis, foi, todos hoje o reconhecem, o primeiro cabouqueiro de uma restaura\u00e7\u00e3o lenta, mas promissora, que foi de novo implantando e enraizando a comunidade crist\u00e3 no seio de uma comunidade humana, necessitada de est\u00edmulos e de sinais de esperan\u00e7a, concretos e vis\u00edveis. Colhi dele a frase emblem\u00e1tica da sua dedica\u00e7\u00e3o, gravada no liceu Jo\u00e3o XXIII, que criou e que \u00e9 hoje a melhor escola de Bissau. Diz assim: \u201cMelhor que todas as constru\u00e7\u00f5es \u00e9 construir o cora\u00e7\u00e3o do homem\u201d. O mais dif\u00edcil, por certo, mas o mais indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Logo depois vieram mais escolas, centros de forma\u00e7\u00e3o profissional, hospitais e maternidades, apoios aos mais desprotegidos, iniciativas que pudessem gerar fraternidade e reconcilia\u00e7\u00e3o, voluntariado organizado e colabora\u00e7\u00e3o sem reservas nem fronteiras. Hoje, na Guin\u00e9, pa\u00eds com maiorias mu\u00e7ulmanas e animistas e onde os crist\u00e3os s\u00e3o minoria, a ac\u00e7\u00e3o da Igreja traduz-se em o\u00e1sis activos e vivos, no meio de um deserto, que n\u00e3o gera nem vida nem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Um famoso hospital de leprosos, hoje com muitos doentes de sida e tuberculose, \u00e9 dirigido por um padre franciscano portugu\u00eas, m\u00e9dico, que, com um sorriso de \u201dPaz e Bem\u201d, espalha cuidados, acolhimento, serenidade, alegria, esperan\u00e7a e compet\u00eancia profissional. Um hospital, modesto, mas asseado e lindo, que se transformou em lugar de apelo a m\u00e9dicos e enfermeiros de Portugal, que ali v\u00e3o, em grupo e a seu custo, para fazer as cirurgias poss\u00edveis, durante uma semana, num trabalho sem horas e numa dedica\u00e7\u00e3o sem limites.<\/p>\n<p>Voluntariado<\/p>\n<p>Encontrei na viagem, com a alegria de saber que ir\u00edamos ser hospedados na mesma casa da diocese, um grupo de volunt\u00e1rios italianos que viajavam \u00e0 sua custa e iam terminar as obras de restaura\u00e7\u00e3o de um orfanato, assaltado e abandonado ap\u00f3s a independ\u00eancia. Desde 2007 que tomaram a obra \u00e0 sua conta e foram resgatando, gratuitamente, de ru\u00ednas abandonadas durante anos, com o apoio da sua par\u00f3quia e de outros amigos da It\u00e1lia, o que por fim se tornou num lindo edif\u00edcio, entregue \u00e0 Diocese, equipado e mobilado, para poder receber crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s, ainda antes do Ver\u00e3o. Outros grupos de volunt\u00e1rios de Portugal e da It\u00e1lia, de gente activa, jovens e adultos, homens e mulheres, mas, sobretudo, de reformados, chegam, trabalham sem hor\u00e1rio os dias de que disp\u00f5em, ensinam os nativos residentes, regressam felizes.<\/p>\n<p>\u201cConstruir o cora\u00e7\u00e3o do homem\u201d<\/p>\n<p>Cada dia dou mais por mim a pensar se a Guin\u00e9, apesar da sua pobreza natural, que \u00e9 evidente, n\u00e3o seria hoje um pa\u00eds diferente, se o tempo do colonialismo tivesse sido um tempo de promo\u00e7\u00e3o humana e social, de responsabiliza\u00e7\u00e3o, de valoriza\u00e7\u00e3o das pessoas e dos bens naturais dispon\u00edveis, um tempo de servi\u00e7o e de respeito pela cultura e costumes locais? Muitos dos que j\u00e1 l\u00e1 estavam e continuam agora, os mission\u00e1rios, sabiam como fazer e tentavam esse caminho com o povo. Ou foram, ent\u00e3o, expulsos, ou viram destru\u00eddas as obras que serviam o povo e eram fruto de muito trabalho, generoso e abnegado. Outra gente, que por l\u00e1 passou, nunca encarnou a realidade, abusou do poder, espalhou morte, viu mais os seus interesses que o das pessoas que ali viviam,  para se libertar a si, criou escravos. Muito mal feito o que era urgente fazer e nunca o faria a guerra. A hist\u00f3ria da descoloniza\u00e7\u00e3o, necess\u00e1ria e justa, na Guin\u00e9 e n\u00e3o s\u00f3, mostra que nem sempre se respeitou o servi\u00e7o \u00e0s pessoas, \u00e0 sua terra e \u00e0 sua cultura. Era a \u00fanica justifica\u00e7\u00e3o para estar l\u00e1. As comemora\u00e7\u00f5es recentes, feitas com largo tempo de antena televisiva, com hist\u00f3rias pessoais a querer passar por her\u00f3icas, n\u00e3o falaram do presente, mostrando o fruto apodrecido de uma ac\u00e7\u00e3o desumana e de uma decis\u00e3o pouco respons\u00e1vel. A Igreja l\u00e1 continua em campo, com generosidade e esperan\u00e7a, a mostrar que o mais importante ser\u00e1 sempre \u201cconstruir o cora\u00e7\u00e3o do homem\u201d. Miss\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel, quando a educa\u00e7\u00e3o se assume como um servi\u00e7o de amor, quando o outro \u00e9 uma pessoa e um irm\u00e3o.  A li\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vale para c\u00e1 e para hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui h\u00e1 poucos dias \u00e0 Guin\u00e9-Bissau, em miss\u00e3o de solidariedade fraterna, depois de l\u00e1 ter ido, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o quase quarenta anos, numa dif\u00edcil e perigosa miss\u00e3o pastoral. Ent\u00e3o, era a guerra. Agora, a muita mis\u00e9ria \u00e0 vista, onde ressalta o esfor\u00e7o her\u00f3ico de abnegados reconstrutores, uns que a\u00ed vivem de h\u00e1 anos, outros que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-21708","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21708","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21708"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21708\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}