{"id":21850,"date":"2013-02-21T11:58:00","date_gmt":"2013-02-21T11:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21850"},"modified":"2013-02-21T11:58:00","modified_gmt":"2013-02-21T11:58:00","slug":"os-amigos-sao-para-as-ocasioes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-amigos-sao-para-as-ocasioes\/","title":{"rendered":"Os amigos s\u00e3o para as ocasi\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> N\u00e3o h\u00e1 projecto que se aguente, sem amigos reconfortantes. E amigos que nos afaguem com as palavras, com os gestos ou com o olhar.<\/p>\n<p>A lenda do Para\u00edso terreal conta como Ad\u00e3o se sentia s\u00f3 \u2013 apesar de Deus \u00abpassear pelo jardim\u00bb\u2026 Abra\u00e3o, que via em Deus um amigo, n\u00e3o parava de se queixar da falta de um filho que lhe enchesse a vida de carinho (G\u00e9nesis 15,2-3). E como seria a vida dos profetas, a vida de Jesus, sem os amigos, sem os bons mestres e as \u00absantas mulheres\u00bb? N\u00e3o gostava Jesus de recompor as for\u00e7as em casa de Maria, Marta e L\u00e1zaro?<\/p>\n<p>Mas Deus \u00e9 um \u00abamigo estranho\u00bb (um tema recorrente na B\u00edblia, como em todas as religi\u00f5es). N\u00e3o \u00e9 de admirar que muitas descri\u00e7\u00f5es de experi\u00eancias de Deus recorram a imagens temerosas como as da 1.\u00aa leitura. Ali\u00e1s, a narra\u00e7\u00e3o de Lucas \u00e9 a que mais imita o epis\u00f3dio de Abra\u00e3o \u2013 usando os chav\u00f5es pr\u00f3prios da \u00e9poca: espanto, sono, medo e nuvem. O que \u00e9 de admirar \u00e9 que em todos os relatos desta ordem haja um momento de viragem, um momento de suavidade e de luz, delineando uma presen\u00e7a amiga, que afinal lan\u00e7a ra\u00edzes bem fundas na nossa carne e no nosso sangue.<\/p>\n<p>Quem escreveu a hist\u00f3ria de Abra\u00e3o conhecia bem a fragilidade humana. Era costume que as partes empenhadas num acordo ou alian\u00e7a se submetessem ao ritual macabro de atravessar entre as carnes esquartejadas dos animais sacrificados, com a impreca\u00e7\u00e3o: \u00abassim seja eu esquartejado se for infiel \u00e0 promessa!\u00bb Mas amigo n\u00e3o explora a fraqueza do amigo\u2026 e s\u00f3 Deus \u00e9 que atravessou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Pedro, Jo\u00e3o e Tiago foram convidados, como amigos, para ver Jesus de um modo totalmente novo, embora fugaz (evangelho). Tudo come\u00e7ou com a caminhada de tr\u00eas homens simples que adormeceram \u2013 e quando viram o que se passava s\u00f3 queriam ficar a gozar toda aquela beleza (mas sem grande esfor\u00e7o&#8230;). At\u00e9 pensaram em arranjar tr\u00eas c\u00f3modas tendas para Jesus, Mois\u00e9s e Elias.\t<\/p>\n<p>Na realidade, eram amigos ainda muito \u00abverdes\u00bb para perceberem quem ele era. A transfigura\u00e7\u00e3o aparece como uma \u00abajudinha\u00bb para os ap\u00f3stolos compreenderem a miss\u00e3o de Cristo e aguentarem os duros momentos que estavam para vir.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, mostrou que precisava de amigos, como toda a gente que se preze (e bem triste ficou por os ap\u00f3stolos n\u00e3o o terem acompanhado nas horas finais!). Deu ainda uma li\u00e7\u00e3o sobre a amizade: todos n\u00f3s temos qualidades ocultas, que s\u00f3 os amigos poder\u00e3o descobrir. Cabe aos amigos ver o sentido positivo de certas palavras e ac\u00e7\u00f5es aparentemente chocantes. <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos viver demasiado dependentes de horas felizes, rodeados de amigos. N\u00e3o \u00e9 a li\u00e7\u00e3o a tirar da atitude dos tr\u00eas ap\u00f3stolos, que n\u00e3o queriam sair do \u00abbem bom\u00bb da transfigura\u00e7\u00e3o? Precisamos de amigos que nos acompanhem \u2013 e assim nos ajudem a erguer dos trambolh\u00f5es. N\u00e3o podemos ficar prisioneiros nem dos maus nem dos bons momentos: falta-nos olhar \u00abpara cima\u00bb (como diz o pr\u00f3prio Ionesco, o c\u00e9lebre dramaturgo da frustra\u00e7\u00e3o humana). O \u00abmau estado social\u00bb da humanidade prov\u00e9m de n\u00e3o querermos deixar o horizonte imediato dos interesses pessoais que se organizam em v\u00e1rios tipos de \u00ablobbies\u00bb \u2013 um horizonte anti-humano, que nos leva a andar em c\u00edrculos sem esperan\u00e7a, mesmo que, no melhor dos casos, dentro de um sistema de alta tecnologia (tanto material como econ\u00f3mica ou pol\u00edtica\u2026). Mas o poder tecnol\u00f3gico n\u00e3o nos consegue libertar dos grandes problemas \u2013 justamente porque somos de um n\u00edvel infinitamente superior. Precisamos de reflectir nas linhas de orienta\u00e7\u00e3o que efectivamente nos podem conduzir para uma sociedade mais justa, mais feliz (2.\u00aa leitura). Precisamos de \u00abtransfigurar\u00bb este mundo.<\/p>\n<p>Nas conversas amigas, tira-se proveito tanto do trivial como do mais s\u00e9rio \u2013 e assim tudo na vida pode receber um valor positivo. E por que n\u00e3o havemos de falar, mesmo numa conversa trivial, sobre as maneiras de \u00abolhar para cima\u00bb? Ou sobre quem ser\u00e1 o tal \u201cestranho amigo\u201d?<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt  <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-21850","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21850"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21850\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}