{"id":21858,"date":"2013-02-21T12:09:00","date_gmt":"2013-02-21T12:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21858"},"modified":"2013-02-21T12:09:00","modified_gmt":"2013-02-21T12:09:00","slug":"uma-decisao-com-interpelacoes-incomodas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-decisao-com-interpelacoes-incomodas\/","title":{"rendered":"Uma decis\u00e3o com interpela\u00e7\u00f5es inc\u00f3modas"},"content":{"rendered":"<p>Admirei Bento XVI e fiquei contente, desde a primeira hora, com a sua elei\u00e7\u00e3o. Talvez porque os contactos de proximidade que tivera antes me mostrassem um homem humilde, superior, sereno, l\u00facido, atento. Encontrei-o em tr\u00eas s\u00ednodos dos bispos, na visita regulamentar dos bispos \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o a que presidia, no seu andar discreto,  atravessando cada manh\u00e3 a Pra\u00e7a de S. Padro a caminho do seu trabalho. Apesar da fama pouco abonat\u00f3ria que o seu m\u00fanus lhe acarretara, a minha dor pelas decis\u00f5es que nem sempre consegui entender atenuava-se com o conhecimento da pessoa, do seu curr\u00edculo de te\u00f3logo, da lucidez dos seus escritos, das suas interven\u00e7\u00f5es nos s\u00ednodos e, por fim, do rigor dos seus ju\u00edzos, exigidos pela unidade e defesa da f\u00e9. <\/p>\n<p>Ao ser eleito, sabendo que ele conhecia bem a C\u00faria Romana, tive esperan\u00e7a de que viria por ele, finalmente, a sua urgente reforma. Sabia que a clareza do seu pensamento e a vasta cultura de que era portador, dariam caminho \u00e0 Igreja, necessitada de luz orientadora e governo male\u00e1vel, ent\u00e3o a contas com um mundo perturbado, um laicismo exacerbado, as muitas mazelas pr\u00f3prias, p\u00fablicas e ocultas. Vi como ele soube dar aten\u00e7\u00e3o ao essencial do Evangelho, \u00e0 vastid\u00e3o da cultura emergente, como denunciou o carreirismo clerical romano. Assumiu, com humildade, o grave problema da pedofilia. N\u00e3o teve receio de mostrar o valor prof\u00e9tico de Lutero, um proscrito de muitos s\u00e9culos. Foi corajoso ao enfrentar perigos e amea\u00e7as em terreno onde n\u00e3o eram palavras v\u00e3s. Fez viagens de que, pela idade e pelo rigor dos programas, se podia dispensar, incarnando, de modo vigoroso, o seu dever de pastor universal. Falou claro aos bispos ao partilhar com eles as dificuldades da evangeliza\u00e7\u00e3o, e foi sempre muito cordial com eles nos seus encontros p\u00fablicos e privados. Mostrou aten\u00e7\u00e3o ao sofrimento das pessoas pelas dificuldades morais sentidas ante problemas que se generalizavam. Sentiu-se interpelado por situa\u00e7\u00f5es na Igreja que o punham a ele mesmo na ribalta e em contradi\u00e7\u00e3o com situa\u00e7\u00f5es de bispos, que lhe mereciam o maior respeito. Soube interpretar o Vaticano II com sabedoria e mostrou que, nos seus documentos, est\u00e1 a fonte da renova\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. No seu estilo, mostrou grande amor \u00e0 Igreja e \u00e0 sua miss\u00e3o no mundo. Respeitou chefes religiosos e pol\u00edticos, sem deixar d\u00favidas sobre a seriedade e a verdade das suas palavras e gestos.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, inesperadamente, decidiu deixar, com total liberdade, o governo da Igreja, alegando o que estava \u00e0 vista: idade avan\u00e7ada, sa\u00fade com limita\u00e7\u00f5es, cansa\u00e7o insuper\u00e1vel, exig\u00eancias do bem da Igreja. Deixou problemas em aberto, talvez porque, no seu pensamento, n\u00e3o havia ainda chegado a hora do enfrentamento.<\/p>\n<p>Este gesto \u00e9 um sinal a exigir discernimento. Muitos, mesmo estranhos \u00e0 vida da Igreja que n\u00e3o \u00e0 sua miss\u00e3o na hist\u00f3ria, o v\u00eam lendo com perspic\u00e1cia que falta, talvez, a alguma gente de dentro. Conhecendo Bento XVI, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil admitir quanto ter\u00e1 sofrido com a situa\u00e7\u00e3o da C\u00faria Romana, a estrutura criada para apoio ao Papa no governo da Igreja. Fez algumas reformas significativas, mas sentiu-se impotente ante os conflitos, manobras e at\u00e9 trai\u00e7\u00f5es, que se foram levantando a seus olhos, a ponto de tolher o seu caminho. Fala-se de favorecimentos e corru\u00e7\u00e3o no Vaticano e h\u00e1 sempre algum fundamento neste falar livre. A reforma da C\u00faria n\u00e3o se faz sem o Papa e a colabora\u00e7\u00e3o s\u00e9ria dos que a\u00ed trabalham. Esta colabora\u00e7\u00e3o parece ainda faltar.<\/p>\n<p>O trabalho da Igreja onde est\u00e1 implantada depende muito dos bispos e o Papa p\u00f4de ver, nas suas viagens apost\u00f3licas e nos grupos que chegavam a Roma, o trabalho insano que estes realizam em toda a parte. E, se n\u00e3o fazem mais, para al\u00e9m das suas limita\u00e7\u00f5es naturais, \u00e9 porque encontram as dificuldades de um centralismo romano controlador que, \u00e0 revelia do Vaticano II, cada dia cresce e bloqueia iniciativas, sem consultas pr\u00e9vias. O Col\u00e9gio Apost\u00f3lico, essencial \u00e0 miss\u00e3o da Igreja e ao seu dia a dia, vai-se desvalorizando. As Confer\u00eancias Episcopais nunca foram queridas, nem amadas, pelos poderosos da C\u00faria Romana e, nos seus pa\u00edses, salvo exce\u00e7\u00f5es merit\u00f3rias, mais somam bispos que esfor\u00e7os organizados de evangeliza\u00e7\u00e3o e de presen\u00e7a eclesial na sociedade. <\/p>\n<p>Mas, o Papa n\u00e3o poderia ter enfrentado esta situa\u00e7\u00e3o, se na realidade ela lhe era dificultadora da sua miss\u00e3o? Se reconheceu a sua impot\u00eancia, \u00e9 porque nem sempre conhecer o caminho se tem capacidade para o percorrer. O poder inconceb\u00edvel da C\u00faria Romana e a sua ferrugem de s\u00e9culos n\u00e3o se apalancam facilmente. Mas \u00e9 preciso enfrentar a situa\u00e7\u00e3o, e desde j\u00e1. A impot\u00eancia confessada de Bento XVI, assim o exige.<\/p>\n<p>A Igreja tem de se interrogar, a todos os n\u00edveis, sobre o significado deste gesto t\u00e3o interpelador, como inc\u00f3modo. N\u00e3o pode, por\u00e9m, deixar de se confrontar com as grandes preocupa\u00e7\u00f5es de Bento XVI: o conhecimento aprofundado e o seguimento total de Jesus Cristo, o Senhor e Mestre; a verdade vivida e testemunhada a todo o custo; a evangeliza\u00e7\u00e3o, a pedir um novo f\u00f4lego; a pr\u00e1tica da caridade, lei priorit\u00e1ria e insubstitu\u00edvel dos crist\u00e3os e comunidades; o esp\u00edrito de servi\u00e7o ao Povo de Deus e desprendimento de privil\u00e9gios da hierarquia, uma prem\u00eancia de todos os dias; o di\u00e1logo com o mundo e a cultura emergente, uma exig\u00eancia sem hiatos; a presen\u00e7a fraterna junto dos que mais sofrem, um dever; a esperan\u00e7a crist\u00e3, pano de fundo de todas as lutas e projetos pastorais e apost\u00f3licos\u2026<\/p>\n<p>Desde o Vaticano II, a Igreja contou com papas que testemunharam, com a sua vida e a\u00e7\u00e3o, a fidelidade \u00e0 Obra de Deus, as urg\u00eancias do Evangelho, a preocupa\u00e7\u00e3o incans\u00e1vel com o mundo das pessoas. Assim vai continuar. Por certo, ser\u00e1 escolhido um crente, venha de onde vier, capaz de sentir as preocupa\u00e7\u00f5es do Evangelho, das pessoas concretas e dos tempos que correm. Por\u00e9m, a Igreja n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o Papa e ningu\u00e9m pode subir \u00e0 varanda, para que a\u00ed, bem instalado, apenas veja e critique o que, a seu gosto, se passa ou n\u00e3o se passa. O gesto de Bento XVI foi de amor \u00e0 Igreja e de desinstala\u00e7\u00e3o, para nos dizer que, na comunidade eclesial, n\u00e3o h\u00e1 compromissos por procura\u00e7\u00e3o, nem aceita, como o carisma, a cr\u00edtica f\u00e1cil, alheia \u00e0 vida e \u00e0 miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais do que de especula\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e de ditos inconscientes, o tempo que corre at\u00e9 \u00e0 elei\u00e7\u00e3o do novo papa, \u00e9, para todos os crist\u00e3os e suas comunidades, tempo de reflex\u00e3o, ora\u00e7\u00e3o, enraizamento do compromisso que nasce da f\u00e9 Tempo de exame de consci\u00eancia sobre o amor efetivo \u00e0 Igreja conciliar e \u00e0s normais exig\u00eancias da miss\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Admirei Bento XVI e fiquei contente, desde a primeira hora, com a sua elei\u00e7\u00e3o. Talvez porque os contactos de proximidade que tivera antes me mostrassem um homem humilde, superior, sereno, l\u00facido, atento. 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