{"id":21914,"date":"2013-02-28T10:45:00","date_gmt":"2013-02-28T10:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21914"},"modified":"2013-02-28T10:45:00","modified_gmt":"2013-02-28T10:45:00","slug":"o-cigarro-das-barbar-de-milho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-cigarro-das-barbar-de-milho\/","title":{"rendered":"O cigarro das barbar de milho"},"content":{"rendered":"<p>BOlores &#8211; 9 <!--more--> Foi \u00e0 hora do meio-dia. \u00c0 porta do armaz\u00e9m (hoje transformado no caf\u00e9-restaurante \u201cConv\u00edvio\u201d) onde o senhor Azevedo guardava os ton\u00e9is de vinho que vendia na sua loja do gaveto da frente, um grupo de rapazes do bairro da Fonte dos Amores, de diferentes idades (eu deveria ser o mais novo de todos eles, pois alguns j\u00e1 usavam cal\u00e7as de homem e faziam a barba) falava sobre as coisas que nos tinham acontecido na semana. Era um s\u00e1bado e o sol quente de fim de ver\u00e3o animava a nossa tagarelice. Tudo o que se passava na escola, tudo o que se passava no bairro era dissecado ao pormenor. Os mais velhos l\u00e1 se iam gabando dos seus namoricos para espanto dos que ainda n\u00e3o tinham idade para essas veleidades. E esses, os mais velhos, j\u00e1 fumavam alguns dos cigarros Provis\u00f3rios (era a marca do tabaco mais barato) que tinham comprado \u00e0 unidade no quiosque da senhora Rosinha do largo do Governo Civil, mesmo ao lado da rotunda da palmeira, em frente do quartel da Pol\u00edcia de Seguran\u00e7a P\u00fablica que, ent\u00e3o, ocupava o convento das Carmelitas.<\/p>\n<p>Os mais novos, ainda de cal\u00e7\u00e3o, como eu, n\u00e3o se metiam na conversa dos maiores. Mas ouviam tudo com enorme aten\u00e7\u00e3o na sua aprendizagem para a vida. <\/p>\n<p>Nesse dia, um de n\u00f3s tinha trazido dos Carreiros (zona que mediava entre o barreiro da F\u00e1brica Campos e a rua que levava para S\u00e3o Bernardo e na qual eu nunca me aventurei por conta dos medos resultantes das avisadas recomenda\u00e7\u00f5es da minha av\u00f3 Joaninha), umas espigas de milho, com as respetivas barbas. N\u00e3o sei onde foram desencantar um bocado papel de jornal, mas a verdade \u00e9 que, logo, um dos mais velhos, depois de ter rapado das espigas algumas barbas, come\u00e7ou, diligentemente, a enrol\u00e1-las no papel. Feito um cigarro que mais parecia um nutrido charuto, acendeu-o e come\u00e7ou a puxar o fumo goela abaixo. Pela sua cara, parecia que a fumadela lhe estava a saber muito bem. Feito outro cigarro, incitou-me a fazer a minha primeira experi\u00eancia. Os meus tios fumavam. Mas eu nunca me senti l\u00e1 em casa tentado a surripiar um cigarrito. O pr\u00f3prio cheiro do fumo me desagradava. Mas, ali, no meio dos rapazes do meu bairro, senti que uma recusa mais pareceria um ato de cobardia. Ent\u00e3o, enchi-me de coragem, levei \u00e0 boca o que se parecia com um cigarro, e inspirei como via fazer aos meus amigos. Para minha vergonha desatei a tossir, quase engasgado com o fumo, ficando com um enorme desejo de vomitar. Mas contive-me. Quando levantei a cabe\u00e7a, dei de caras com o olhar severo do meu padrinho Alpoim, irm\u00e3o de minha m\u00e3e Maria, que vinha do seu trabalho para almo\u00e7ar. S\u00f3 me disse: \u201cAnda para casa que j\u00e1 falamos\u201d. Envergonhado e com receio das consequ\u00eancias do meu ato leviano, acompanhei-o. Pelo caminho, n\u00e3o mais de cinco minutos, s\u00f3 me disse que n\u00e3o voltasse a fazer asneiras daquela natureza. Ele pr\u00f3prio se lastimava por se ter deixado viciar pelo fumo, pois que se sentia muito mal a respirar. O seu maior desejo era ser capaz de deixar de fumar. Quando nos sent\u00e1mos \u00e0 mesa, s\u00f3 restava do ralhete um suor que perlava a minha testa. E disse para com os meus bot\u00f5es que as palavras do meu tio e padrinho deveriam ser seguidas \u00e0 risca, pois eram para meu bem. Fumar, nunca.<\/p>\n<p>Mas, para mal dos meus pecados, as coisas n\u00e3o se passaram assim. Acabado o meu Curso Geral de Com\u00e9rcio, na Escola Industrial e Comercial de Aveiro, fui logo trabalhar para uma empresa bacalhoeira, com escrit\u00f3rio no Largo Rossio, como ajudante de guarda-livros. E, seguindo o conselho do meu grande amigo e professor de Ingl\u00eas, o doutor Rocha e Cunha, continuei a estudar para al\u00e9m das horas do trabalho preparando-me para fazer o Liceu, de modo a inscrever-me na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Fiz os sete anos do liceu de rajada, em dois anos seguidos. E matriculei-me em Coimbra, como estudante-trabalhador, \u201cvolunt\u00e1rio\u201d como era uso dizer-se ent\u00e3o, praticamente sem atraso em rela\u00e7\u00e3o aos jovens da minha gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00ed, as coisas come\u00e7aram a complicar-se. Com o tempo que o estudo das cadeiras de Direito me tomava, os meus dias eram curtos demais para tudo o que tinha que fazer. As minhas responsabilidades profissionais foram aumentando e \u00e0 noite faltavam horas para estudar. Decidi ir consultar o m\u00e9dico da minha fam\u00edlia. Contei-lhe o que se estava a passar e pedi-lhe que me receitasse alguma coisa que permitisse reduzir as horas de sono.<\/p>\n<p>Que fumasse um cigarrito, foi o que me recomendou o m\u00e9dico. E foi assim que eu comecei a fumar aos vinte anos de idade. A conselho m\u00e9dico, frise-se.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que segui o conselho \u00e0 risca. E t\u00e3o \u00e0 risca que, com o acr\u00e9scimo das minhas obriga\u00e7\u00f5es profissionais, dei comigo a fumar, por vezes, mais do que tr\u00eas ma\u00e7os de tabaco di\u00e1rios. E isto com s\u00e9rios danos para a minha sa\u00fade. Dificuldades respirat\u00f3rias, cansa\u00e7o a andar, tosse, sei l\u00e1 que mais.<\/p>\n<p>Um dia, em 2002, foram-me diagnosticados dois tumores malignos. Tinha que ser operado de urg\u00eancia. A minha saudosa mulher, a minha Claudette, tinha feito um seguro de sa\u00fade que me permitiu vir a ser operado na Cl\u00ednica Universit\u00e1ria de Navarra. Disse para com os meus bot\u00f5es: ou \u00e9 agora que deixo de fumar, ou nunca mais isso me ser\u00e1 poss\u00edvel. Na cl\u00ednica n\u00e3o posso fumar e eu n\u00e3o sei se sobrevirei ou n\u00e3o. Certo \u00e9 que, pelas 16 horas de um s\u00e1bado de abril desse ano de 2002, quando ia a entrar para a Cl\u00ednica, eu entreguei \u00e0 minha Claudette o meio ma\u00e7o de tabaco que me restava dos dois que tinha comprado logo de manh\u00e3, bem como o meu isqueiro. E disse-lhe: \u201cAmiguita, tabaco nunca mais!\u201d<\/p>\n<p>Sobrevivi. E nunca mais fumei!  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BOlores &#8211; 9<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-21914","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21914","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21914"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21914\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21914"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21914"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21914"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}