{"id":21918,"date":"2013-03-06T16:12:00","date_gmt":"2013-03-06T16:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21918"},"modified":"2013-03-06T16:12:00","modified_gmt":"2013-03-06T16:12:00","slug":"emilia-nadal-o-metodo-dos-artistas-e-essencilamente-o-da-procura-como-a-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/emilia-nadal-o-metodo-dos-artistas-e-essencilamente-o-da-procura-como-a-fe\/","title":{"rendered":"Em\u00edlia Nadal: &#8220;O m\u00e9todo dos artistas \u00e9 essencilamente o da procura, como a f\u00e9&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 pintora, mas Em\u00edlia Nadal confessou que gostava era de ser m\u00fasica. Come\u00e7ou a expor em 1957, tr\u00eas anos antes de se licenciar em Pintura pela Academia de Belas Artes de Lisboa. Nos anos 70 ficou conhecida por criticar a sociedade de consumo com a s\u00e9rie \u201cEmbalagens para conte\u00fados naturais e imagin\u00e1rios liofilizados\u201d, que oferecia \u201cprodutos\u201d como \u201cdetergente para lavagem ao c\u00e9rebro\u201d, \u201cdiscursos pol\u00edticos em flocos\u201d e \u201cAlgarve enlatado\u201d. Recentemente acrescentou embalagens de \u201cCorruptil\u201d e \u201cAnticorruptil\u201d. Algumas pessoas perguntaram-lhe onde poderiam encontrar tais produtos. N\u00e3o estavam a brincar.<\/p>\n<p>Em\u00edlia Nadal presidiu \u00e0 Sociedade Nacional de Belas Artes de 2005 a 2012 e foi condecorada pelo Presidente da Rep\u00fablica no 10 de Junho do ano passado. \u00c9 habitual comentadora do programa Ecclesia (RTP 2).<\/p>\n<p>Desta pintora, \u00e0 entrada da exposi\u00e7\u00e3o diocesana (patente at\u00e9 7 de abril, com entrada gratuita) est\u00e1 um quadro sobre o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. O livro b\u00edblico \u00e9 um c\u00e2ntico de amor humano. Na pintura, Em\u00edlia Nadal ilustra \u201ca impossibilidade de reter a totalidade do amor no tempo e no espa\u00e7o\u201d. O amor, afirma, \u201cvive-se entre a fugacidade e o recome\u00e7o. \u00c9 d\u00e1diva e n\u00e3o posse. E como algu\u00e9m disse, \u00abs\u00f3 o amor \u00e9 digno de f\u00e9\u00bb\u201d.<\/p>\n<p>Em\u00edlia Nadal esteve no Museu de Aveiro na noite de 2 de mar\u00e7o, no espa\u00e7o da exposi\u00e7\u00e3o de arte sacra do Jubileu da Diocese, para falar do \u201cTranscendente presente\u201d. Ou seja, a rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 (ou n\u00e3o f\u00e9) e arte, Deus e a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Para o encontro, que contou com um momento musical de Diogo Alte da Veiga, esteve tamb\u00e9m convidado o escritor Gon\u00e7alo M. Tavares, que, devido a doen\u00e7a, n\u00e3o p\u00f4de comparecer. Aqui ficam as principais ideias da credenciada pintora.<\/p>\n<p>O que \u00e9 arte?<\/p>\n<p>Reconhecemos que isto \u00e9 arte e aquilo n\u00e3o \u00e9. A arte est\u00e1 para l\u00e1 do utilit\u00e1rio. Reconhecemos num objeto de arte uma dimens\u00e3o superlativa, a singularidade a que chamados beleza. Na obra art\u00edstica, \u00e9 frequente as pessoas verem coisas que n\u00e3o passaram pela cabe\u00e7a dos autores. A imagina\u00e7\u00e3o das pessoas tamb\u00e9m \u00e9 cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 sinal de que a obra funciona.<\/p>\n<p>Religi\u00e3o e arte<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 religi\u00e3o que n\u00e3o tenha express\u00e3o art\u00edstica, nas imagens, nos espa\u00e7os, nos textos sagrados, nos objetos de culto. Mesmo religi\u00f5es sem imagens, como o isl\u00e3o, usam a arte gr\u00e1fica nos seus textos, nos bel\u00edssimos arabescos.<\/p>\n<p>Procuras e releva\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Todas as express\u00f5es art\u00edsticas exigem muito trabalho t\u00e9cnico, com ferramentas adequadas, gram\u00e1ticas e leis pr\u00f3prias. O m\u00e9todo dos artistas \u00e9 essencialmente o da procura, como a f\u00e9. H\u00e1 lampejos, d\u00favidas, decis\u00f5es arriscadas, revela\u00e7\u00f5es. O artista interroga-se: \u201cDe onde isto veio?\u201d Por vezes acontece que a personagem n\u00e3o quer ir por ali. O pintor quer p\u00f4r um azul e o azul n\u00e3o quer ir para l\u00e1. A obra de arte brota da interioridade. Acontece quando acontece e se acontece. Quem explica como nasce a arte ou sabe muito ou \u00e9 arrogante. Um artista amigo, n\u00e3o crente, a quem foi pedido que pintasse o Esp\u00edrito Santo [tradicionalmente simbolizado pela pomba], por vezes fala da inspira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vem dele mas de outro lado como sendo fruto do \u201ctal, o passaroco\u201d.<\/p>\n<p>Ateus mas inspirados<\/p>\n<p>O transcendente na arte \u00e9 independente da op\u00e7\u00e3o religiosa do artista. Muitos n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia de uma espiritualidade, mas sentem que h\u00e1 uma dimens\u00e3o que os ultrapassa. H\u00e1 bons exemplos de arte religiosa feita por ateus em di\u00e1logo com as comiss\u00f5es de arte sacra, como \u00e9 o caso da Igreja de Nossa Senhora de F\u00e1tima, em Lisboa. No caso da Igreja de Siza Vieira (em Marco de Canavezes), aprecio o espa\u00e7o, mas n\u00e3o alguns elementos, como a imagem de Nossa Senhora a 20 cent\u00edmetros do ch\u00e3o ou a cruz de lado, de modo a n\u00e3o se ver toda. Isto tema ver com a inten\u00e7\u00e3o do arquiteto, que at\u00e9 nos edif\u00edcios p\u00fablicos n\u00e3o quer que se veja o extintor ou placas que indicam as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Verdade na arte<\/p>\n<p>Na arte sacra o que \u00e9 realmente importante \u00e9 ser verdadeiro. Um Cristo crucificado muito bonitinho \u00e9 uma mentira, pois Ele \u00e9 a suprema beleza desfigurada. O mist\u00e9rio de Cristo \u00e9 ser a humanidade trucidada, o divino no humano. A Santa Catarina toda repintada [refer\u00eancia a uma pe\u00e7a da exposi\u00e7\u00e3o] \u00e9 um mau restauro, mas \u00e9 bonita na inten\u00e7\u00e3o do artista que quis p\u00f4-la bonita. \u00c9 bonita nessa verdade.<\/p>\n<p>Artistas e comiss\u00f5es<\/p>\n<p>Na arte sacra os artistas n\u00e3o podem estar \u00e0 solta. Tem de haver maleabilidade e sensibilidade de parte a parte. Almada Negreiros, para uma imagem de Deus para a Igreja de Nossa Senhora de F\u00e1tima (Lisboa), evoluiu de um deus grego para um deus irado para chegar ao Deus-Amor.<\/p>\n<p>Cinema e arquitetura<\/p>\n<p>O cinema \u00e9 a grande arte do s\u00e9c. XX, mas a arquitetura \u00e9 a maior das artes porque d\u00e1 a dimens\u00e3o da humanidade ao espa\u00e7o. Cria o ambiente feliz e harm\u00f3nico. Sentimo-nos envolvidos.<\/p>\n<p>Sobre a m\u00fasica lit\u00fargica<\/p>\n<p>O sagrado n\u00e3o pode ser banalizado. N\u00e3o se pode pensar em transcend\u00eancia sem exemplos que a transmitam. Para isso serve a arte. A liturgia n\u00e3o \u00e9 uma reuni\u00e3o qualquer. O espa\u00e7o, a m\u00fasica, os gestos, os objetos devem ser muito bons. Os senhores bispos dizem que tudo isto deve ser incentivado. Eu digo que se n\u00e3o for muito bom deve ser proibido, porque em vez de causar eleva\u00e7\u00e3o causa irrita\u00e7\u00e3o. Quando se vai a uma liturgia, o importante \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o animar as hostes. Canta-se pessimamente em Portugal. N\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o musical. At\u00e9 a \u201cGr\u00e2ndola\u201d \u00e9 mal cantada. A algumas m\u00fasicas usadas na liturgia eu chamo cantigas e cantorias. Ficam t\u00e3o bem numa igreja antiga como uns t\u00e9nis nos p\u00e9s e um saco de pl\u00e1stico a fazer de mala numa senhora com um belo vestido e de chap\u00e9u. Podem ser usadas noutros lugares, num encontro de escuteiros, no campo, no est\u00e1dio de futebol\u2026 Na liturgia, podem atrair durante algum tempo, mas depois cansam. Como a m\u00fasica na liturgia tem a fun\u00e7\u00e3o de ajudar \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, \u00e0 revela\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o \u00e9 boa, prefiro o sil\u00eancio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 pintora, mas Em\u00edlia Nadal confessou que gostava era de ser m\u00fasica. 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