{"id":21939,"date":"2013-03-06T18:02:00","date_gmt":"2013-03-06T18:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21939"},"modified":"2013-03-06T18:02:00","modified_gmt":"2013-03-06T18:02:00","slug":"orgao-de-tubos-emudecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/orgao-de-tubos-emudecido\/","title":{"rendered":"\u00d3rg\u00e3o de tubos emudecido"},"content":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do \u00f3rg\u00e3o de tubos da S\u00e9, em constru\u00e7\u00e3o (1) <!--more--> JO\u00c3O GAMBOA<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m acende uma luz debaixo da mesa ou no canto da sala, junto ao ch\u00e3o. N\u00e3o iluminaria os convivas e n\u00e3o pouparia energia aos donos da casa se esse fosse o objetivo; antes roubaria brilho \u00e0 festa, ao mesmo tempo que era sinal de rematada insensatez.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o escreve o poeta o seu poema para ficar olvidado na gaveta, a vida inteira; nem o pintor joga e combina as cores no seu quadro para o deixar \u00e0 merc\u00ea do p\u00f3 e da humidade, no fundo da oficina. Tamb\u00e9m o compositor n\u00e3o escreve a sinfonia, o concerto ou a can\u00e7\u00e3o, para ficar embalsamada e morta, florida embora, na partitura, mas para dela ser erguida pela arte dos m\u00fasicos e tornada deleite para os mel\u00f3manos. Do mesmo modo, a obra dram\u00e1tica s\u00f3 vale a pena ter sido escrita quando \u00e9 recriada pelos atores sobre o palco e assim diverte, sugere, ensina, critica, comove.<\/p>\n<p>Mas aquele \u00f3rg\u00e3o de tubos, naquele templo belo e luminoso, \u00e9 candelabro que n\u00e3o ajuda \u00e0 festa, porque est\u00e1 apagado e n\u00e3o h\u00e1 quem o acenda; \u00e9 poema que n\u00e3o encanta nem comove, porque ningu\u00e9m o diz; \u00e9 tela que a ningu\u00e9m enche os olhos, porque est\u00e1 coberta de teias de aranha, virada para a parede; \u00e9 partitura de tocata, tento ou fuga que n\u00e3o se torna \u201cmagnificat\u201d nem \u201calleluia\u201d, porque nenhum organista a arranca ao olvido e a faz ressoar jubilosamente; \u00e9 obra de teatro que nenhum p\u00fablico aplaudir\u00e1, porque n\u00e3o h\u00e1 grupo que a leve \u00e0 cena.<\/p>\n<p>Quem se lembraria de cirurgicamente roubar ao rouxinol a possibilidade de cantar t\u00e3o melodiosamente nas balsas e salgueirais? Ou quem se atreveria a cortar as asas \u00e0 \u00e1guia para n\u00e3o subir \u00e0s alturas e voar magnificamente no azul, acima das montanhas? Ou, ainda, quem poluiria, por desleixo, o riacho, matando toda a vida que nele cantasse um hino ao Criador e sujando a limpidez da sua corrente? Ou quem castraria o pav\u00e3o para que n\u00e3o ostentasse e n\u00e3o seduzisse a f\u00eamea com o leque aberto e deslumbrante da sua plumagem magn\u00edfica?\t<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m faria nada disto e faz\u00ea-lo seria tomado, provavelmente, por um ato inqualific\u00e1vel, um ato de loucura, um ato criminoso. Ou n\u00e3o?!\t<\/p>\n<p>Mas aquele \u00f3rg\u00e3o de tubos, naquela igreja acolhedora, \u00e9 rouxinol silenciado que a ningu\u00e9m deleita os ouvidos e o cora\u00e7\u00e3o com o seu cantar; \u00e9 \u00e1guia de asas cortadas que n\u00e3o nos leva at\u00e9 \u00e0 morada de Deus, na montanha misteriosa azul-viol\u00e1cea; \u00e9 rio enegrecido e sem vida que n\u00e3o proclama as maravilhas da cria\u00e7\u00e3o nem oferece ao viajante cansado a frescura da sua \u00e1gua cristalina para deliciar os olhos e matar a sede; \u00e9 beleza escondida que n\u00e3o se v\u00ea e n\u00e3o aproveita a ningu\u00e9m, impedida de facilitar a resposta dos homens \u00e0 mensagem e \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o de Deus\u2026<\/p>\n<p>Furtar uma obra de arte \u00e0 frui\u00e7\u00e3o dos homens \u00e9 um ato grave. Impedir um ser vivo de o ser em toda a sua plenitude relativa e de exercer a fun\u00e7\u00e3o para que foi criado, \u00e9 um crime grave de leso-Criador.<\/p>\n<p>Aquele \u00f3rg\u00e3o de tubos sem voz retalha-me a alma. Porque est\u00e1 esvaziado do seu minist\u00e9rio. Foi constru\u00eddo para ajudar a assembleia dos crentes a louvar o seu Senhor, e est\u00e1 ali desprezado, esquecido, morto. Foi feito para ajudar a elevar at\u00e9 Deus os sentimentos dos homens \u00e1vidos do Bem e do Belo, e jaz ali in\u00fatil e triste.<\/p>\n<p>Aquele \u00f3rg\u00e3o, de tubos emudecidos corta-me o cora\u00e7\u00e3o e faz-me chorar. \u00c9 como Sexta-feira da Paix\u00e3o vista sem a luz da F\u00e9. Ou como uma boda de casamento comida em sil\u00eancio e sem rir.<\/p>\n<p>Aquele \u00f3rg\u00e3o de tubos n\u00e3o canta, n\u00e3o aplaude, n\u00e3o implora, n\u00e3o pede perd\u00e3o, n\u00e3o contempla, n\u00e3o pacifica, n\u00e3o exorta, n\u00e3o rejubila, n\u00e3o louva, n\u00e3o aclama, n\u00e3o exalta, n\u00e3o celebra.<\/p>\n<p>\u201cAquele \u00f3rg\u00e3o de tubos\u201d \u00e9 o velho \u00f3rg\u00e3o de tubos da S\u00e9, colocado sobre as portas que d\u00e3o para a sacristia. <\/p>\n<p>(Adapta\u00e7\u00e3o de texto publicado em O Aveiro, Ano 3, N.\u00ba 108, 16 Setembro 1993, p. 3, e republicado em \u201cEcos &#038; Miragens, Cr\u00f3nicas\u201d, Aveiro, 2009, pp. 107-109)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do \u00f3rg\u00e3o de tubos da S\u00e9, em constru\u00e7\u00e3o (1)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-21939","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21939"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21939\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}