{"id":21942,"date":"2013-02-14T10:19:00","date_gmt":"2013-02-14T10:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21942"},"modified":"2013-02-14T10:19:00","modified_gmt":"2013-02-14T10:19:00","slug":"a-sopa-da-senhora-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-sopa-da-senhora-luz\/","title":{"rendered":"A sopa da Senhora Luz"},"content":{"rendered":"<p>Mem\u00f3rias &#8211; Bolores 7 <!--more--> Muitos de n\u00f3s, tempos idos, alunos da Escola Prim\u00e1ria da Gl\u00f3ria, s\u00f3 cal\u00e7\u00e1vamos sapatos ou sapatilhas quando tocava o sino para entrarmos na sala de aulas. A maior parte, a grande maioria dos meus companheiros de escola, era pobre; alguns, at\u00e9, muito pobres. Isso percebia-se bem pela forma como \u00edamos vestidos: cal\u00e7\u00f5es co\u00e7ados, uma blusita feita do pano das camisas que os homens da fam\u00edlia deixavam de usar por delidas. <\/p>\n<p>Falo, acima de tudo, dos meus amigos da Fonte dos Amores. Sa\u00edamos das nossas casas devidamente cal\u00e7ados mas, mal nos apanh\u00e1vamos em magote, Avenida de Ara\u00fajo e Silva fora, as atacas amarradas umas \u00e0s outras, sapatos \u00e0 volta do pesco\u00e7o para agilizar os nossos movimentos, sempre que a chuva amolecia o ch\u00e3o da art\u00e9ria inacabada, metade do caminho era feito a patinar nas lamas viscosas. Era ver-nos \u00e0 compita no comprimento das nossas voluntariosas escorregadelas. Cheg\u00e1vamos ofegantes \u00e0 escola e o frio n\u00e3o nos metia medo.<\/p>\n<p>Era lavar os p\u00e9s no lavat\u00f3rio que estava pr\u00f3ximo das casas da banho, enfiar os sapatos e, ala que se faz tarde, sala dentro, de p\u00e9, muito respeitosamente \u00e0 espera que o professor entrasse para come\u00e7ar a aula.<\/p>\n<p>Eram anos de pen\u00faria. Quando entrei oficialmente para a primeira classe, 1944, ainda a Segunda Guerra Mundial n\u00e3o tinha acabado. Os bens essenciais escasseavam. O governo de Salazar estabelecera ra\u00e7\u00f5es individuais com pre\u00e7os tabelados para esses bens que se adquiriam mediante senhas de racionamento. As \u201cbichas\u201d, que se formavam logo que surgia a not\u00edcia de que determinado produto (o a\u00e7\u00facar, o arroz, o leite, a manteiga, o azeite, o \u00f3leo alimentar, a carne, etc., etc\u2026.) estava dispon\u00edvel num certo estabelecimento, eram enormes. <\/p>\n<p>O p\u00e3o que se comia era o de \u201csegunda\u201d, mais escuro, feito com farinhas de mistura. Ou a boroa de milho. O p\u00e3o \u201cbranco\u201d, mais caro, n\u00e3o entrava nas casas dos pobres nem dos remediados.<\/p>\n<p>Dizia-se \u00e0 boca pequena que at\u00e9 serradura se misturava com as farinhas de cereais para aumentar os lucros das f\u00e1bricas de moagem. Fortunas se fizeram assim, murmurava-se\u2026 E havia \u201ccandonga\u201d de tudo o que escasseava no mercado legal\u2026 Houvesse dinheiro que as coisas apareciam como por milagre. Mas isso, o dinheiro, era pouco. \u00c0s vezes, mesmo nenhum.<\/p>\n<p>Havia fome, muita fome. <\/p>\n<p>N\u00e3o sei como, mas a minha av\u00f3 Joaninha e a minha tia Florize, ec\u00f3nomas ex\u00edmias, inventavam as refei\u00e7\u00f5es de modo a que ningu\u00e9m da fam\u00edlia, um rancho, deixasse de ser alimentado. Mais conduto menos conduto, mais pur\u00e9 menos pur\u00e9, mais arroz menos arroz, mais pataniscas menos pataniscas. Carne era a de galinha ou de coelho que se criavam num esconso do s\u00f3t\u00e3o transformado em capoeira. A manteiga que se punha no p\u00e3o, quando se punha, era feita em casa a aproveitar a nata do leite.<\/p>\n<p> Quando o peixe corria mais barato, chicharro do par, sardinha ou petinga da nossa costa, comia-se frito, acompanhado de natas com salsa picada salteadas na sert\u00e3, natas essas que se compravam ao litro na confeitaria da Costeira. Ia-se l\u00e1 pela porta das traseiras, a da Corredoura, porque, pela frente era uma vergonha. Salgava-se o peixe escachado, metido um no outro, nos per\u00edodos de abund\u00e2ncia e de pre\u00e7os mais baixos. Da salgadeira s\u00f3 sa\u00eda em tempo de carestia mais feroz.<\/p>\n<p>A sardinha grada, ramelada, como as gentes da Beira-mar lhe chamavam, era petisco apetecido. Com umas batatas, uns grelos de nabo, alho picado, fio de azeite ou de mistura com \u00f3leo, tudo cozido na hora e posto no prato a fumegar, era um regalo de refei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Era este o ambiente em que a maioria das fam\u00edlias tinha que viver. Tempos dif\u00edceis esses.<\/p>\n<p>A minha escola prim\u00e1ria tinha uma arquitetura muito digna que garantia uma grande funcionalidade. Para cada classe, uma sala bem iluminada por amplas janelas que ficavam do lado esquerdo das nossas carteiras de dois lugares; \u00e0 frente de cada carteira, dois tinteirinhos de porcelana que a senhora Luz, a cont\u00ednua da escola, se encarregava de garantir, logo de manh\u00e3zinha, sempre cheios de tinta azul. Era nesses tinteiros que n\u00f3s molh\u00e1vamos os aparos enfiados nas canetas de pau que se compravam na papelaria do senhor Abra\u00e3o, mesmo ao p\u00e9 do Governo Civil. O edif\u00edcio tinha uma planta em U e dispunha de tr\u00eas recreios: um, do lado da primeira classe; outro, no interior do U, que servia a segunda e a terceira classes; e ainda o que servia a quarta classe. Nos dois cantos do U havia resid\u00eancias para professores, no primeiro andar. Num dos cantos, entre a primeira e a segunda classes, t\u00ednhamos o reino da senhora Luz, a nossa cont\u00ednua, mais nossa m\u00e3e que funcion\u00e1ria. O sino servia para marcar o ritmo da vida da escola, marcando os tempos de entrada e sa\u00edda e as interrup\u00e7\u00f5es para os nossos recreios da manh\u00e3 e da tarde. E era a senhora Luz que media os nossos tempos. Ao meio dia, era ela tamb\u00e9m que se encarregava de ir buscar o panel\u00e3o da sopa que era confecionada na escola das meninas, vizinha da nossa, do lado das Carmelitas. E era ela tamb\u00e9m que enchia de sopa as malgas esmaltadas que, com um naco de p\u00e3o, garantiam a refei\u00e7\u00e3o quente para muitos dos meus companheiros, n\u00e3o s\u00f3 para os que viviam longe da escola mas tamb\u00e9m para aqueles que tinham mais necessidades em casa. Para al\u00e9m destes, havia sempre candidatos para a sopa remanescente. \u00c9 que era uma sopa saborosa, de couves e feij\u00e3o, que o apetite, ou mesmo a fome, nos levava a comer e chorar por mais. <\/p>\n<p>Para mim foi sempre um mist\u00e9rio\u2026 Quem providenciava para garantir este servi\u00e7o t\u00e3o generoso? N\u00e3o sei\u2026 nem nunca saberei.<\/p>\n<p>Seria o senhor Lopes das \u201cPorcelanas\u201d, o senhor vereador que criara o servi\u00e7o camar\u00e1rio da SOPA DOS POBRES?<\/p>\n<p>Certo, certo, \u00e9 que era a senhora Luz, a amiga que velava por todos n\u00f3s e enchia a malga de sopa que alimentava muitos dos meus companheiros. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3rias &#8211; Bolores 7<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-21942","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21942","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21942"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21942\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21942"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}