{"id":22003,"date":"2013-03-13T17:30:00","date_gmt":"2013-03-13T17:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22003"},"modified":"2013-03-13T17:30:00","modified_gmt":"2013-03-13T17:30:00","slug":"o-orgao-de-tubos-desejado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-orgao-de-tubos-desejado\/","title":{"rendered":"O \u00f3rg\u00e3o de tubos desejado"},"content":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do \u00f3rg\u00e3o de tubos da S\u00e9, em constru\u00e7\u00e3o (2) <!--more--> J\u00d5\u00c3O GAMBOA<\/p>\n<p>Est\u00e1 ali, incrustado na parede e meio suspenso, h\u00e1 muitos anos. E reduzido ao sil\u00eancio, apesar da bela fachada. Como um colorido mas embalsamado pintassilgo. Ou como um rouxinol triste, emudecido dos seus gorjeios e cantares.<\/p>\n<p>Nas minhas ins\u00f3nias, \u00e0s vezes surpreende-me com os seus desabafos.<\/p>\n<p>\u2013 Estou aqui esquecido e desprezado, sem voz para cantar. As pessoas que s\u00e3o daqui j\u00e1 nem olham para mim; sabem que n\u00e3o canto e n\u00e3o me ligam. Os que v\u00eam de fora olham-me com enlevo, admiram o meu rosto, que dizem ser belo, e imaginam o j\u00fabilo e o deslumbramento do meu canto. Enganam-se, coitados. Mas eu n\u00e3o tenho culpa.<\/p>\n<p>\u2013 Pois n\u00e3o! \u2013 apoio eu, oferecendo-lhe algum consolo, mas sem estar seguro de que ele me ouve, pois imagino que, se j\u00e1 n\u00e3o tem voz, tamb\u00e9m ter\u00e1 perdido o ouvido.<\/p>\n<p>\u00c9 j\u00e1 bastante velho \u2013 tem mais de 250 anos \u2013 o velho \u00f3rg\u00e3o hist\u00f3rico da Igreja de Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, pois data de 1754. Colocado sobre as duas portas g\u00f3ticas reconstru\u00eddas em 1976, que d\u00e3o passagem para a sacristia atual, teve anteriormente outras localiza\u00e7\u00f5es e est\u00e1 ali desde essa data. Sofreu grande remodela\u00e7\u00e3o em 1883, que o beneficiou e lhe conferiu um som brilhante. Em 1976 foi totalmente revisto e bastante enriquecido. O fole manual foi substitu\u00eddo por turbo-insuflador; recebeu tr\u00eas meios-jogos de madeira: bord\u00e3o-aberto, de dezasseis p\u00e9s, flauta doce, de oito p\u00e9s, e flautado, de quatro p\u00e9s; e foi-lhe aplicado um segundo teclado, ficando provido de um tutti e \u00f3rg\u00e3o positivo. Lembro-lhe esta sua hist\u00f3ria e sabe o leitor o que me diz?<\/p>\n<p>\u2013 Sofri muito ao longo da minha vida. Mudaram-me de local, intervieram no meu organismo aplicando-me pr\u00f3teses, dotaram-me de novas cordas vocais, modernizaram o meu funcionamento\u2026 Tudo aceitei com um \u00fanico objetivo: cantar melhor, para melhor louvar o Criador e melhor sustentar o canto do povo crente.<\/p>\n<p>Digo-lhe que, de facto, muitas gera\u00e7\u00f5es de fi\u00e9is beneficiaram da sua beleza sonora e com a sua ajuda elevaram o cora\u00e7\u00e3o e a voz em festa ao Senhor.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade! E sinto-me muito feliz por isso \u2013 responde-me, entusiasmado. \u2013 O per\u00edodo de que melhor me lembro s\u00e3o os anos a seguir a 1976. O templo foi ampliado e ficou muito belo. Muito cantei nesses anos, muitas m\u00e3os me tocaram e eu exultei e fiz exultar de alegria. A Catedral de Aveiro renovada era uma primavera branca de flores e aleluias pascais. <\/p>\n<p>\u2013 Agora est\u00e1 a\u00ed, jubilado, tendo j\u00e1 ganho direito ao descanso \u2013 acrescento, a sosseg\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Talvez, pois parece ser essa a vontade dos homens.<\/p>\n<p>\u2013 De facto, os entendidos optaram por n\u00e3o o restaurar e decidiram-se por um \u00f3rg\u00e3o novo, moderno, constru\u00eddo de raiz, mais capaz de servir esta bela casa de Deus.<\/p>\n<p>\u2013 Eu sei\u2026 Aqui do meu canto vou observando tudo e estou a par do que se passa. J\u00e1 vejo, al\u00e9m, o esbo\u00e7o da face do meu sucessor. E promete! <\/p>\n<p>\u2013 E n\u00e3o est\u00e1 magoado? <\/p>\n<p>\u2013 Claro que n\u00e3o. At\u00e9 rejubilo. Anseio mesmo pelo dia em que ele se apresentar\u00e1 em todo o seu esplendor sonoro. Nesse dia, cantarei com ele, no meu \u00edntimo e em sil\u00eancio\u2026<\/p>\n<p>Fiquei satisfeito com este desfecho. Uma grande alma d\u00e1 sempre lugar a outra grande alma. <\/p>\n<p>E esse dia j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 longe, \u00e9 daqui a menos de cinco meses. At\u00e9 l\u00e1 cumprem-se as etapas previstas e os nossos cora\u00e7\u00f5es v\u00e3o aumentando de expetativa e curiosidade. Sobretudo v\u00e3o aumentando no amor ao \u00f3rg\u00e3o de tubos, por tudo o que ele significa e representa e por tudo o que ele vai ser para a Liturgia e para a cultura em Aveiro, alimentando a espiritualidade de muita gente. <\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o de tubos \u00e9 o instrumento musical que em si concentra mais vozes e cores sonoras, indo da mais celestial suavidade \u00e0 mais poderosa, imponente e arrebatadora for\u00e7a sonora.<\/p>\n<p>O seu rosto, a sua fachada \u00e9 sempre art\u00edstica e \u00e0s vezes majestosa. A cara deixa entrever a riqueza do cora\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Mais que todos os outros instrumentos, o \u00f3rg\u00e3o de tubos \u00e9 resson\u00e2ncia de toda a Cria\u00e7\u00e3o. O reino mineral est\u00e1 presente nos tubos de estanho, de cobre (e \u00e0s vezes de prata e ouro); o reino vegetal marca presen\u00e7a nos tubos de madeira feitos das \u00e1rvores da floresta (algumas muito raras e preciosas); o reino animal manifesta-se e associa-se nas peles dos foles, que s\u00e3o os pulm\u00f5es do \u00f3rg\u00e3o. O \u00f3rg\u00e3o de tubos \u00e9, portanto, um instrumento c\u00f3smico. Ele canta, em nome de toda a Cria\u00e7\u00e3o, em nome do Cosmos, o grande hino de louvor, o grande magnificat ao Criador.<\/p>\n<p>Por tudo isto, a Igreja d\u00e1-lhe lugar de relevo na Liturgia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do \u00f3rg\u00e3o de tubos da S\u00e9, em constru\u00e7\u00e3o (2)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-22003","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22003","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22003"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22003\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}