{"id":22007,"date":"2013-03-13T17:33:00","date_gmt":"2013-03-13T17:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22007"},"modified":"2013-03-13T17:33:00","modified_gmt":"2013-03-13T17:33:00","slug":"o-senhor-sargento-bagao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-senhor-sargento-bagao\/","title":{"rendered":"O senhor sargento Bag\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 11 <!--more--> Era um senhor esguio, muito direito no seu andar pausado. Sempre o vi fardado. Todos n\u00f3s da Fonte dos Amores o respeit\u00e1vamos muito, porque ele, a todos n\u00f3s, garotos da escola prim\u00e1ria, do mesmo modo tamb\u00e9m nos tratava. Isto \u00e9: como homenzinhos. Ele era o pai de dois dos nossos companheiros: o Am\u00edlcar, meu colega de classe, e o Carlos, uns dois anitos mais velho. Excelentes camaradas estes. A sua m\u00e3e era tratada por todos n\u00f3s como a Senhora Miquinhas do Bag\u00e3o. Do Bag\u00e3o, claro, por ser a esposa do senhor Sargento Bag\u00e3o, pessoa de farda, logo pessoa, aos nossos olhos, muito importante no nosso pequeno bairro.<\/p>\n<p>Creio que ele trabalhava como amanuense na secretaria do Quartel de Infantaria 10, j\u00e1 vizinho do Jardim sobranceiro ao Parque D. Pedro, que ficava ali logo adiante, no nosso caminho para a escola prim\u00e1ria da Gl\u00f3ria. Uma coisa que o caracterizava aos meus olhos era o facto de falar pouco. Mas quando falava, o que dizia atrai\u00e7oava-o imediatamente, denunciando a sua origem ilhavense. Exatamente como a minha av\u00f3 Joaninha, sua conterr\u00e2nea, que nunca abandonou a sua express\u00e3o mel\u00f3dica, quase que cantada, do seu linguajar t\u00e3o pr\u00f3prio dos \u00edlhavos. Ainda hoje eles, os \u00edlhavos, se mant\u00eam coerentes com as suas origens\u2026 nesse seu cantar de frase, o que lhes fica muito bem, diga-se de passagem.<\/p>\n<p>Por esses tempos da minha escola prim\u00e1ria, anos de 45 a 49 do s\u00e9culo passado, Aveiro tinha dois quart\u00e9is militares: o j\u00e1 referido quartel de infantaria e o Quartel de Cavalaria 5, ali para os lados de S\u00e1. As tropas aqui aquarteladas garantiam \u00e0 nossa pequena cidade um movimento extraordin\u00e1rio que alimentava o pequeno com\u00e9rcio e dava vida \u00e0s nossas ruas. Muitos mancebos se enamoraram pelas nossas tricanas e por c\u00e1 constitu\u00edram fam\u00edlia. S\u00e3o viv\u00eancias que nunca mais desaparecem da nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p> Com efeito, ainda hoje me basta s\u00f3 fechar os olhos para reviver o desfile da tropa que, certo dia, regressava dos A\u00e7ores, ao som cadenciado dos tambores misturado, de quando em vez, com toques estridentes de cornetim, rua de Gustavo Ferreira Pinto Basto fora, mesmo em frente ao antigo edif\u00edcio do Recreio Art\u00edstico, a caminho do Quartel de Infantaria 10. No meio desses soldados vinha o meu padrinho Alpoim que, com os seus camaradas de armas, esteve mobilizado, durante parte significativa da Segunda Guerra Mundial, naquele nosso arquip\u00e9lago atl\u00e2ntico. S\u00e3o momentos que, efetivamente, nunca se esquecem.<\/p>\n<p>Poder-se-ia pensar que no nosso quartel de infantaria n\u00e3o havia muares nem cavalos. Mas havia. E, num canto da enorme parada, situava-se uma esp\u00e9cie de armaz\u00e9m onde, em tulhas enormes, era guardada a sua alimenta\u00e7\u00e3o: uma farinha grosseira, misturada com muita alfarroba partida.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s, garotos de cal\u00e7\u00e3o, conhec\u00edamos muito bem a localiza\u00e7\u00e3o dessas tulhas, pois que todos n\u00f3s gost\u00e1vamos de fava rica, a nossa express\u00e3o para designar a tal alfarroba t\u00e3o almejada.<\/p>\n<p>A chave para entrar no quartel e chegarmos \u00e0s tulhas implicava alguma imagina\u00e7\u00e3o. Que, a preceito, foi encontrada. A chave passou a ser o senhor sargento Bag\u00e3o. Cheg\u00e1vamos \u00e0 sentinela muito ordeiros e o mais azougado do grupo pedia, depois de cumprimentar muito respeitosamente o soldado que algumas vezes at\u00e9 se punha em sentido, para ir \u00e0 secretaria dar um recado ao senhor sargento Bag\u00e3o. Logo se acrescentava que n\u00e3o era preciso sermos acompanhados por ningu\u00e9m pois j\u00e1 conhec\u00edamos o caminho. Afiveladas as faces mais ing\u00e9nuas do mundo, ningu\u00e9m desconfiava dos nossos prop\u00f3sitos. Ultrapassado o port\u00e3o, a sentinela dentro da guarita, e pernas para que te quero at\u00e9 ao armaz\u00e9m da farinha. As nossas sacolas aumentavam de volume em pouco tempo. Com sorte, e para nosso g\u00e1udio, at\u00e9 apareciam alfarrobas inteiras. Alcan\u00e7ada a quantidade desejada, l\u00e1 sa\u00edamos do quartel, outra vez bem devagar, saudando o soldado de sentinela com um solene \u201cbom dia\u201d ou \u201cboa tarde\u201d.<\/p>\n<p>Depois era seguir pela avenida Ara\u00fajo e Silva at\u00e9 ao nosso cantinho da Fonte dos Amores, roendo, sem parar, as doces alfarrobas.<\/p>\n<p>Por certo que o senhor sargento Bag\u00e3o nunca desconfiou das nossas invas\u00f5es no quartel por conta dos recados que nunca lhe demos. Que Deus o tenha em eterno descanso na sua profunda ignor\u00e2ncia das nossas diatribes de garotos.  <\/p>\n<p>Mas que as alfarrobas nos sabiam muito bem, l\u00e1 isso sabiam. Talvez at\u00e9 pelo expediente habilidoso por n\u00f3s utilizado para as irmos buscar \u00e0s tulhas l\u00e1 no canto da parada.<\/p>\n<p>E uma coisa \u00e9 certa: nem os cavalos nem os burros do quartel alguma vez reclamaram, tanto quanto se saiba, por falta de comida. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 11<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-22007","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22007","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22007"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22007\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}