{"id":22025,"date":"2013-03-20T16:50:00","date_gmt":"2013-03-20T16:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22025"},"modified":"2013-03-20T16:50:00","modified_gmt":"2013-03-20T16:50:00","slug":"as-arvores-e-os-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/as-arvores-e-os-livros\/","title":{"rendered":"As \u00e1rvores e os livros"},"content":{"rendered":"<p>AS \u00c1RVORES E OS LIVROS<\/p>\n<p>As \u00e1rvores como os livros t\u00eam folhas<\/p>\n<p>e margens lisas ou recortadas,<\/p>\n<p>e capas (isto \u00e9 copas) e cap\u00edtulos<\/p>\n<p>de flores e letras de oiro nas lombadas<\/p>\n<p>E s\u00e3o hist\u00f3rias de reis, hist\u00f3rias de fadas,<\/p>\n<p>as mais fant\u00e1sticas aventuras,<\/p>\n<p>que se podem ler nas suas p\u00e1ginas,<\/p>\n<p>no pec\u00edolo, no limbo, nas nervuras.<\/p>\n<p>As florestas s\u00e3o imensas bibliotecas,<\/p>\n<p>e at\u00e9 h\u00e1 florestas especializadas,<\/p>\n<p>com faias, b\u00e9tulas e um letreiro<\/p>\n<p>a dizer: \u00abFloresta das zonas temperadas\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que n\u00e3o podes plantar<\/p>\n<p>no teu quarto, pl\u00e1tanos ou azinheiras.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar a construir uma biblioteca,<\/p>\n<p>basta um vaso de sardinheiras.<\/p>\n<p>Jorge Sousa Braga, <\/p>\n<p>\u201cHerb\u00e1rio\u201d, Ass\u00edrio e Alvim, 1999<\/p>\n<p>Porque a mat\u00e9ria das \u00e1rvores se sublima nos livros de poesia, faz todo o sentido a comemora\u00e7\u00e3o conjunta, a 21 de Mar\u00e7o, do Dia Mundial da \u00c1rvore e do Dia Mundial da Poesia: o tronco converte-se em voo. <\/p>\n<p>Felizmente que, cada vez mais, as escolas e at\u00e9 as fam\u00edlias n\u00e3o deixam de assinalar este dia com actividades comemorativas, o que \u00e9 \u00f3ptimo, desde que sejam efectivamente fecundas na modela\u00e7\u00e3o de novas atitudes, e n\u00e3o apenas por motivo de \u201crotina de calend\u00e1rio\u201d. Contudo, tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que, passada a efem\u00e9ride, pouca continuidade e aten\u00e7\u00e3o se d\u00e1, durante o resto do ano, \u00e0 import\u00e2ncia das \u00e1rvores e da poesia na educa\u00e7\u00e3o e vida das crian\u00e7as, e tamb\u00e9m \u00e0 import\u00e2ncia da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as para a sobreviv\u00eancia da poesia e das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Faltam \u00e1rvores \u00e0s nossas crian\u00e7as. Segundo o pedagogo Rubem Alves: \u201cToda a crian\u00e7a tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e \u00e1rvores nas quais subir\u201d. Mas quantas das nossas crian\u00e7as j\u00e1 fizeram uma cabana nos bosques, treparam a uma \u00e1rvore, contaram os an\u00e9is de um cepo para lhe descobrir a idade, ou sabem distinguir uma b\u00e9tula de um abeto? Quantas das actividades comemorativas do Dia da \u00c1rvore n\u00e3o se realizam totalmente dentro de portas?! Desenhos e pesquisas no Google n\u00e3o bastam para se conhecer o cheiro da resina\u2026 <\/p>\n<p>Muito do conhecimento precisa de ser sensorial. E nem \u00e9 preciso ir a uma quinta pedag\u00f3gica para as crian\u00e7as descobrirem o mundo de sensa\u00e7\u00f5es novas que uma \u00e1rvore proporciona a todos os sentidos do nosso corpo. Qual a crian\u00e7a que nunca descascou um pl\u00e1tano? \u201cA natureza \u00e9 o melhor laborat\u00f3rio de ponta que existe\u201d, disse-me uma cientista. E apetece-me acrescentar: e a melhor sala de aula. Lembro-me bem de como aprendi em crian\u00e7a \u2014 para jamais esquecer \u2014 a distinguir algumas \u00e1rvores: fazendo com a minha m\u00e3e um herb\u00e1rio de folhas.<\/p>\n<p>Faltam folhas de poesia \u00e0s nossas crian\u00e7as. E faltam estantes de poesia \u00e0s nossas livrarias. Porque, se o gosto pela poesia n\u00e3o for cultivado e regado desde a inf\u00e2ncia, os leitores, quando adultos, dificilmente ter\u00e3o desenvolvido a sensibilidade est\u00e9tica, liter\u00e1ria, musical, simb\u00f3lica, para apreciar e fruir a arte po\u00e9tica. Como as \u00e1rvores, a poesia \u00e9 fundamental ao Homem integral, porque nos humaniza e, simultaneamente, nos eleva. Mas a poesia n\u00e3o tem apenas um valor pedag\u00f3gico e est\u00e9tico, tem tamb\u00e9m um valor instrumental: como podemos educar as crian\u00e7as no dom\u00ednio da criatividade, da imagina\u00e7\u00e3o, da inova\u00e7\u00e3o, do pensamento livre, sem passar pela forma mais bem conseguida de criatividade da linguagem e do pensamento, que \u00e9 a express\u00e3o po\u00e9tica?<\/p>\n<p>Sou ass\u00eddua na leitura de poesia, muito gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia t\u00e3o prazerosa que, na minha inf\u00e2ncia, exerceu a colect\u00e2nea de poetas lus\u00f3fonos \u201cPrimeiro Livro de Poesia\u201d, organizada pela Sophia. Jamais esqueci poemas como \u201cIrene no C\u00e9u\u201d ou \u201cCaf\u00e9 com p\u00e3o\u201d, de Manuel Bandeira; ou Alexandre O\u2019Neill e aquele verso final \u201cSai depressa, \u00f3 c\u00e3o, deste poema\u201d. Como m\u00e3e, tenho vindo a descobrir como a poesia tem o potencial extraordin\u00e1rio de levar as crian\u00e7as a apropriarem-se da linguagem po\u00e9tica e simb\u00f3lica para se (re)conhecerem, recriarem e verbalizarem emo\u00e7\u00f5es. Tive h\u00e1 pouco esta experi\u00eancia com o meu filho de seis anos (que \u00e9 muito irrequieto e acelerado): ao deitar, lemos alguns poemas do livro \u201cHerb\u00e1rio\u201d. Ele ouviu-os com muita aten\u00e7\u00e3o, mas mal terminei o \u00faltimo, intitulado \u201cRa\u00edzes\u201d, ele levantou-se, apontou vagamente para a p\u00e1gina e disse: \u201cEu n\u00e3o gosto nada disso!\u201d Estranhei esta reac\u00e7\u00e3o de desagrado perante um poema, t\u00e3o pouco habitual nele: \u201cN\u00e3o gostas do poema, ou n\u00e3o gostas do desenho?!\u201d \u201cN\u00e3o \u00e9 isso, m\u00e3e! N\u00e3o gosto nada de ter os p\u00e9s presos ao ch\u00e3o\u201d. Nunca antes ele se definira t\u00e3o bem&#8230; Por meio do poema, espontaneamente, foi capaz de fazer a sua autopsicografia. A poesia \u00e9 fonte de (auto)conhecimento.<\/p>\n<p>\u201cUm poema ou uma \u00e1rvore podem ainda salvar o mundo\u201d, lembra-nos Eug\u00e9nio de Andrade. Por isso, deixo para este dia, mas como desafio a continuar, uma sugest\u00e3o para pais\/filhos, av\u00f3s\/netos\/ professores\/alunos: fru\u00edrem estes dois poemas, sob a copa de uma \u00e1rvore ou trepando aos ramos, e aprenderem a identificar, pelos sentidos, cada uma das esp\u00e9cies referidas. E, quem sabe?, come\u00e7ar um herb\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p>RA\u00cdZES<\/p>\n<p>Quem me dera ter ra\u00edzes,<\/p>\n<p>que me prendessem ao ch\u00e3o<\/p>\n<p>Que n\u00e3o me deixassem dar<\/p>\n<p>um passo que fosse em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Que me deixassem crescer<\/p>\n<p>silencioso e erecto,<\/p>\n<p>como um pinheiro-de-riga,<\/p>\n<p>uma faia ou um abeto.<\/p>\n<p>Quem me dera ter ra\u00edzes,<\/p>\n<p>ra\u00edzes em vez de p\u00e9s.<\/p>\n<p>Como o l\u00f3d\u00e3o, o aloendro,<\/p>\n<p>o \u00e1cer e o alo\u00e9s.<\/p>\n<p>Sentir a copa vergar,<\/p>\n<p>quando passasse um tuf\u00e3o.<\/p>\n<p>E ficar bem agarrado,<\/p>\n<p>pelas ra\u00edzes, ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Jorge Sousa Braga, <\/p>\n<p>\u201cHerb\u00e1rio\u201d, Ass\u00edrio e Alvim, 1999<\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)     <\/p>\n<p>Nota da reda\u00e7\u00e3o: Inicia-se neste n\u00famero a colabora\u00e7\u00e3o de Joana Abranches Portela, m\u00e3e de duas crian\u00e7as, que se dedica profissionalmente \u00e0 revis\u00e3o de texto para editoras, universidades e outras institui\u00e7\u00f5es. Autora de \u201cEscritas de Fonte Boa\u201d, livro que relata as suas viv\u00eancias como volunt\u00e1ria mission\u00e1ria durante dois anos em Mo\u00e7ambique (a este prop\u00f3sito foi entrevistada por este jornal na edi\u00e7\u00e3o de 20 de fevereiro de 2008), Joana Portela escrever\u00e1 principalmente sobre assuntos relacionados com a educa\u00e7\u00e3o dos mais novos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS \u00c1RVORES E OS LIVROS As \u00e1rvores como os livros t\u00eam folhas e margens lisas ou recortadas, e capas (isto \u00e9 copas) e cap\u00edtulos de flores e letras de oiro nas lombadas E s\u00e3o hist\u00f3rias de reis, hist\u00f3rias de fadas, as mais fant\u00e1sticas aventuras, que se podem ler nas suas p\u00e1ginas, no pec\u00edolo, no limbo, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-22025","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22025","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22025"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22025\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}