{"id":22044,"date":"2011-03-09T09:31:00","date_gmt":"2011-03-09T09:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22044"},"modified":"2011-03-09T09:31:00","modified_gmt":"2011-03-09T09:31:00","slug":"claroes-de-esperanca-para-animar-a-presenca-crista-na-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/claroes-de-esperanca-para-animar-a-presenca-crista-na-sociedade\/","title":{"rendered":"Clar\u00f5es de esperan\u00e7a para animar a presen\u00e7a crist\u00e3 na sociedade"},"content":{"rendered":"<p>Chega por estes dias \u00e0s livrarias \u201cClar\u00f5es de Esperan\u00e7a\u201d, de Georgino Rocha. Neste livro, o sacerdote da Diocese de Aveiro, doutorado em Teologia Pastoral e professor da Universidade Cat\u00f3lica, apresenta relatos da vida, figuras b\u00edblicas, experi\u00eancias, entrevistas e factos marcantes da Igreja que ajudam a ter uma interven\u00e7\u00e3o social crist\u00e3 mais acutilante. A obra abre \u201cclareiras por onde se possa caminhar em liberdade e seguran\u00e7a\u201d. \u00c9 necess\u00e1ria uma atitude \u201cmais audaz da parte dos movimentos sociais crist\u00e3os e das institui\u00e7\u00f5es\u201d, afirma nesta entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Comecemos pelo princ\u00edpio. Porqu\u00ea o t\u00edtulo \u201cClar\u00f5es de Esperan\u00e7a?\u201d<\/p>\n<p>GEORGINO ROCHA &#8211; Escolhi este t\u00edtulo por v\u00e1rias raz\u00f5es. A primeira porque condensa e expressa de modo feliz o conte\u00fado da obra; a segunda, porque comporta uma carga simb\u00f3lica grande, tal como o ramo da amendoeira que \u00e9 a primeiro a florescer ap\u00f3s os rigores do Inverno; a terceira, porque os clar\u00f5es da aurora nascente v\u00e3o iluminando \u00e0 sua volta e ao longe, fazendo ver pessoas e identificar situa\u00e7\u00f5es, acordando energias adormecidas e abrindo horizontes de esperan\u00e7a para que a vida tenha mais clareiras por onde se possa caminhar em liberdade e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao rever a obra, dou conta do acerto da escolha. Cada clar\u00e3o brota de algo que considero significativo: relato da vida real, figura b\u00edblica, pergunta interpelante e pedag\u00f3gica, experi\u00eancia de voluntariado, entrevistas e cartas, poemas, factos marcantes da miss\u00e3o da Igreja, textos silenciados com enorme actualidade, acontecimentos pol\u00edticos e econ\u00f3micos relevantes. O substrato de suporte \u00e0 narrativa \u00e9 a cultura humanista e crist\u00e3, o protagonista da ac\u00e7\u00e3o \u00e9 a pessoa humana e sua rela\u00e7\u00e3o com as demais, o objectivo principal \u00e9 o de fazer \u201cfalar\u201d vozes caladas e transmitir as mensagens de que s\u00e3o portadoras.<\/p>\n<p>Apresenta casos e modos de interven\u00e7\u00e3o social numa perspectiva positiva. As pessoas precisam de conhecer estes casos para combaterem a resigna\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Para mim, \u00e9 claro que sim, pois a resigna\u00e7\u00e3o s\u00f3 se vence pela motiva\u00e7\u00e3o assertiva que facilite a mudan\u00e7a desse estado de \u00e2nimo. E as vias de acesso ao mundo interior da pessoa n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis, embora sejam indispens\u00e1veis, porque ningu\u00e9m \u00e9 feliz sozinho nem nasce para viver no individualismo solit\u00e1rio. Precisamos todos de ver o positivo da vida e de saber tirar partido das limita\u00e7\u00f5es como \u201cde p\u00e3o para a boca\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Deus escreve-se nas nossas circunst\u00e2ncias?<\/p>\n<p>Um dos caminhos mais acess\u00edveis, ali\u00e1s percorrido maravilhosamente por Jesus Cristo e por outros mestres em humanidade, leva-nos a assumir a situa\u00e7\u00e3o em que o outro se encontra, a lan\u00e7ar pontes pelas linguagens, a procurar sintonia pelo di\u00e1logo, a entrar na reciprocidade da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, o estilo preferido na minha escrita pauta-se normalmente por este realismo de proximidade, por este apego \u00e0 vida, por esta forma de interven\u00e7\u00e3o. Tento, e muitas vezes consigo, fazer uma leitura positiva da vida das pessoas e do curso dos acontecimentos. \u00c9 minha inten\u00e7\u00e3o clara desvendar o sentido e o alcance de tantas ocorr\u00eancias. Acredito que s\u00e3o vest\u00edgios de Deus, que vai construindo com a humanidade a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m deste modo.<\/p>\n<p>Refere modelos b\u00edblicos no seu livro. Quais s\u00e3o?<\/p>\n<p>Toda a B\u00edblia est\u00e1 recheada de formas de interven\u00e7\u00e3o de Deus em favor do seu povo e das respostas, nem sempre coerentes, que este lhe d\u00e1. \u00c9 nessa progressiva rela\u00e7\u00e3o que acontece o projecto de salva\u00e7\u00e3o que revela o sonho entusiasmante de Deus nos querer como \u201cparceiros\u201d na realiza\u00e7\u00e3o da sua obra, que \u00e9 boa e bela.<\/p>\n<p>Aprecio muito os modelos b\u00edblicos. Em \u201cClar\u00f5es de Esperan\u00e7a\u201d recorro a alguns pela for\u00e7a exemplar que comportam e pelo dinamismo que suscitam para confirmar ou denunciar atitudes, situa\u00e7\u00f5es ou acontecimentos actuais. Procuro situ\u00e1-los no seu contexto hist\u00f3rico e cultural para ser fiel \u00e0quilo que o texto diz; depois, extraio a mensagem mais consequente para o nosso tempo.<\/p>\n<p>Pode dar-nos exemplos?<\/p>\n<p>Das figuras a que recorro, cito, como exemplo, Nicodemos, o mestre que vai de noite falar com Jesus e, mais tarde, aparece a colaborar com Jos\u00e9 de Arimateia para que o cad\u00e1ver de Jesus fosse descido da cruz. Se na ida de noite, se pode encontrar o intelectual que busca a verdade que a sua consci\u00eancia reclama, na colabora\u00e7\u00e3o dada descobre-se o piedoso rito judaico de partir as pernas e abreviar o sofrimento dos condenados. Este rito abre-nos para a urg\u00eancia de aliviar os milh\u00f5es de irm\u00e3os nossos amarrados ao sofrimento imposto e para a imperiosa necessidade de fazer descer as v\u00edtimas da cruz em que est\u00e3o pregadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras figuras que servem de refer\u00eancia e inspira\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Muitas outras: O centuri\u00e3o e a justi\u00e7a aos inocentes condenados, a vi\u00fava dos dois c\u00eantimos e a confian\u00e7a radical, Zaqueu e a partilha de bens, Mateus e a alegria da festa, Sime\u00e3o e a sabedoria da velhice, Ana e a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o, Maria de Nazar\u00e9 e o amor que se faz servi\u00e7o, Jos\u00e9 e a for\u00e7a construtiva do sil\u00eancio. Penso que basta para ilustrar este recurso pedag\u00f3gico em ordem a transmitir mensagens significativas para a sociedade actual. <\/p>\n<p>Jesus de Nazar\u00e9 est\u00e1 presente, quer no testemunho das figuras seleccionadas, quer em alguns relatos das comunidades crist\u00e3s que nos s\u00e3o transmitidos pelos Evangelhos. Quis apresent\u00e1-lo de forma a desenvolver um olhar e uma escuta que provoque um encontro e uma comunh\u00e3o que geram certezas (Bento XVI, no seu livro mais recente sobre esta tem\u00e1tica).<\/p>\n<p>Em Ano Europeu do Voluntariado, o seu livro foca este aspecto?<\/p>\n<p>O voluntariado constitui a principal \u201clinha de for\u00e7a\u201d desta minha obra, quer como dinamismo galvanizador das iniciativas referidas, quer como projectos operativos. N\u00e3o pretendi fazer a sua publica\u00e7\u00e3o para celebrar o Ano Europeu, mas n\u00e3o deixa de ser uma feliz coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>A perspectiva que proponho \u00e9 bastante coincidente com a recente Nota Pastoral da CEP sobre \u201cVoluntariado e nova Consci\u00eancia Social\u201d (ver CV de 2 de Mar\u00e7o de 2011). Surge como um despertar para a cidadania e responsabilidade social, como actua\u00e7\u00e3o em rede para expressar e potenciar a nossa comum humanidade e a converg\u00eancia de diferentes capacidades, para afirmar a nossa solidariedade subsidi\u00e1ria na coopera\u00e7\u00e3o com tantos irm\u00e3os nossos que, nas \u201clinhas da frente\u201d, d\u00e3o o seu melhor em nome de Jesus Cristo pela promo\u00e7\u00e3o libertadora de pessoas e povos empobrecidos.<\/p>\n<p>Entre o voluntariado est\u00e1, naturalmente, o voluntariado mission\u00e1rio. O senhor  foi respons\u00e1vel diocesano e, por diversas vezes, trabalhou em \u201cpa\u00edses de miss\u00e3o\u201d\u2026<\/p>\n<p>Dedico uma especial aten\u00e7\u00e3o ao voluntariado mission\u00e1rio, designadamente em Angola, e destaco com grande emo\u00e7\u00e3o a experi\u00eancia abnegada de quantos na persegui\u00e7\u00e3o nazi arriscaram suas vidas pelos que corriam risco dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Evoco a coragem dos que, pela sua doa\u00e7\u00e3o e mart\u00edrio, constituem a p\u00e1gina mais brilhante na agenda negra do holocausto e da guerra civil angolana.<\/p>\n<p>Como avalia a interven\u00e7\u00e3o social dos crist\u00e3os e das suas institui\u00e7\u00f5es na Diocese de Aveiro?<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os na Diocese de Aveiro e suas institui\u00e7\u00f5es agem num ritmo que pode ser considerados a duas velocidades: o das emerg\u00eancias, que revela uma atitude altamente apreci\u00e1vel, e o da vida corrente que leva a reagir de forma intermitente, sobretudo no que d\u00e1 origem a males sociais e exige uma interven\u00e7\u00e3o organizada.<\/p>\n<p>Faz falta uma interven\u00e7\u00e3o de fundo, continuada, s\u00f3lida?<\/p>\n<p>De facto, \u00e9 quase inexistente, no que diz respeito ao saneamento da opini\u00e3o p\u00fablica com informa\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima da realidade, \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es em ordem a um novo habitat digno da condi\u00e7\u00e3o humana, \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o da democracia participativa, \u00e0 liberdade de ensino e de aprendizagem, \u00e0 ecologia humana, \u00e0 refunda\u00e7\u00e3o do sistema financeiro e \u00e0 responsabilidade social da economia e a tantas outras causas. Esta verifica\u00e7\u00e3o, a ser verdadeira, reclama uma atitude mais audaz da parte dos movimentos sociais crist\u00e3os e das institui\u00e7\u00f5es, designadamente das par\u00f3quias e das comiss\u00f5es diocesanas, uma urg\u00eancia de dar as m\u00e3os em parceria solid\u00e1ria a outras organiza\u00e7\u00f5es c\u00edvicas. A meu ver, a forma\u00e7\u00e3o humana generalizada para a promo\u00e7\u00e3o do bem comum, a partir da Doutrina Social de Igreja, surge como um imperativo de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1 um par de meses, lembrou a um grupo caritativo (os vicentinos) a mensagem social de Bento XVI na visita de Maio passado a Portugal. Pode resumir para os nossos leitores os aspectos mais importantes?<\/p>\n<p>Acho t\u00e3o rica a mensagem de Bento XVI confiada ao povo portugu\u00eas que me \u201cd\u00f3i a alma\u201d ver a curta vida que teve. Oxal\u00e1 venha a reassumir a import\u00e2ncia que tem, quer no seu estilo e conte\u00fado, quer no ambiente de coragem e confian\u00e7a.<\/p>\n<p>De facto dediquei ultimamente tr\u00eas sess\u00f5es a este refor\u00e7o: a dos vicentinos, a das equipas de casais e a dos visitadores de doentes. Sei que noutras inst\u00e2ncias foram promovidas iniciativas semelhantes.<\/p>\n<p>Ative-me, somo \u00e9 normal, a dois encontros: com os homens da cultura e com os agentes de pastoral social. Fazendo um resumo, destaco com insist\u00eancia o pedido de D. Carlos Azevedo: Renove os apelos de Cristo, bom samaritano; retire-nos do fatalismo que acomoda; convoque-nos para uma compaix\u00e3o que dignifica, para uma escuta que valoriza, para uma esperan\u00e7a que acompanha. Anime a nossa vontade de sermos servidores-l\u00edderes.<\/p>\n<p>E qual foi a resposta do Papa aos pedidos do bispo portugu\u00eas?<\/p>\n<p>O Santo Padre, em sintonia com esta mensagem-apelo, responde de modo assertivo exortando a que, em toda a pr\u00e1tica s\u00f3cio-caritativa, se actue com um cora\u00e7\u00e3o compassivo, \u00e0 maneira do bom samaritano, vendo a pessoa e a sua situa\u00e7\u00e3o, carecida de ajuda fraterna. <\/p>\n<p>Destaca no perfil do agente de pastoral os tra\u00e7os de quem, face ao perigo real do esvaziamento da vida espiritual e apost\u00f3lica, alcan\u00e7ou uma s\u00edntese satisfat\u00f3ria da mensagem crist\u00e3 para servir a Cristo na humanidade e cultiva a unidade de cora\u00e7\u00e3o, esp\u00edrito e ac\u00e7\u00e3o; de quem est\u00e1 consciente das pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e de que n\u00e3o pode dar solu\u00e7\u00f5es a tantos problemas; de quem se prop\u00f5e servir com determina\u00e7\u00e3o o bem comum, n\u00e3o pretendendo qualquer tipo de poder. <\/p>\n<p>Bento XVI dirigiu-se tamb\u00e9m \u00e0s institui\u00e7\u00f5es da Igreja\u2026<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es da Igreja, Bento XVI afirma ser necess\u00e1rio agirem com identidade bem patente e unidas a todas as outras organiza\u00e7\u00f5es, melhorarem capacidades e conhecimentos dos respons\u00e1veis e benefici\u00e1rios, e contribu\u00edrem para a edifica\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o do amor j\u00e1 semeada, pelo Esp\u00edrito Santo, no cora\u00e7\u00e3o de todo o povo. Recomenda que, impulsionadas pela caridade, a partir da doutrina social da Igreja; recorram a propostas criativas, e formula o voto de que saibam aproveitar com sabedoria os desafios da crise.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na ac\u00e7\u00e3o social, se calhar ainda mais, deve estar presente a esperan\u00e7a e a beleza?<\/p>\n<p>Bento XVI considera de import\u00e2ncia vital a forma\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es de l\u00edderes que, em esp\u00edrito de servi\u00e7o, assumam a nobre miss\u00e3o de promover o bem comum, de configurar a vida social, de saber articular associa\u00e7\u00f5es e din\u00e2micas que d\u00eaem consist\u00eancia e vitalidade \u00e0 sociedade e \u00e0s suas associa\u00e7\u00f5es, designadamente ao Estado.<\/p>\n<p>Lembra aos crist\u00e3os a urg\u00eancia de se empenharem na defesa dos direitos humanos, na aten\u00e7\u00e3o preocupada com o todo da pessoa, na luta contra os atentados \u00e0 vida e \u00e0 fam\u00edlia, na aposta conjunta de contribu\u00edrem para a constru\u00e7\u00e3o do bem comum, na anima\u00e7\u00e3o de projectos de liberdade que potenciem a busca da fraternidade universal.          <\/p>\n<p>O Papa deixa-nos o convite-apelo a que, juntos, caminhemos na esperan\u00e7a, servindo por amor todos os feridos da vida, em total doa\u00e7\u00e3o ao Senhor, o Amigo dos pobres, fazendo da nossa vida um espa\u00e7o de beleza. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chega por estes dias \u00e0s livrarias \u201cClar\u00f5es de Esperan\u00e7a\u201d, de Georgino Rocha. 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