{"id":22084,"date":"2013-03-20T16:52:00","date_gmt":"2013-03-20T16:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22084"},"modified":"2013-03-20T16:52:00","modified_gmt":"2013-03-20T16:52:00","slug":"o-meu-primo-cesar-marconi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-meu-primo-cesar-marconi\/","title":{"rendered":"O meu primo C\u00e9sar Marconi"},"content":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 12 <!--more--> Vou regressar aos tempos em que a minha av\u00f3 Joaninha, vi\u00fava, vivia com o seu rancho de filhos numa casa estreitinha que tinha duas frentes: uma, por onde se entrava, virada para a rua de Gustavo Ferreira Pinto Basto, mesmo em frente do velho edif\u00edcio do Recreio Art\u00edstico; outra, cujas janelas de primeiro andar permitiam uma excelente leitura da nossa rua Direita. Foi quando morei l\u00e1 que eu quase que fui adotado pela fam\u00edlia Ala dos Reis constitu\u00edda pelo senhor Amadeu Ala dos Reis e pela sua esposa, senhora Dona Mariazinha, primos direitos, que tinham um \u00fanico filho, o Andr\u00e9 Lu\u00eds. O Andr\u00e9, para mim o Andrezinho, tr\u00eas anos mais velho que eu, f\u00e1cil se tornou no meu maior amigo, no quase irm\u00e3o que eu, ent\u00e3o, ainda n\u00e3o tinha. Vou confessar-vos uma coisa. Teria uns dois anos quando comecei a ir para casa do meu amigo. Era sair duma porta e entrar, logo ali ao lado, pelo port\u00e3o do jardim da Dona Mariazinha. Ora, eu n\u00e3o era capaz de dizer direito este seu nome. A minha l\u00edngua de crian\u00e7a entaramelava-se e, em vez de Mariazinha, sa\u00eda qualquer coisa que mais se assemelhava a, imagine-se!, \u201cmerdinha\u201d. Um dia a m\u00e3e do Andr\u00e9 vira-se para mim e, muito s\u00e9ria, pediu-me para pronunciar \u201cmadrinha\u201d. E n\u00e3o \u00e9 que \u201cmadrinha\u201d saiu mesmo direitinho pela minha boca fora?! Da\u00ed em diante ela promoveu-me a afilhado, com direito a folar e tudo. E ficou, para sempre, minha madrinha. Foi como que o selar de uma amizade que s\u00f3 com a morte prematura do meu amigo Andr\u00e9, tinha ele trinta e tr\u00eas anos.., se veio a transformar em saudade! Este per\u00edodo da minha vida passado na rua Direita marcou-me profundamente. Dele ainda hei de desencantar mais uns quantos \u201cbolores\u201d para me sentir mais reconfortado. Foi um per\u00edodo que se estendeu quase at\u00e9 \u00e0 minha entrada na escola prim\u00e1ria, quando, sempre com a minha av\u00f3 Joaninha, passei a viver ao p\u00e9 da Fonte dos Amores. Eu nasci em 1938 e a segunda Guerra Mundial come\u00e7ou em 1939, s\u00f3 acabando em 1945. Foram anos muito dif\u00edceis esses. Eu era pequenito mas sentia as dificuldades que a minha av\u00f3 tinha que gerir. O meu padrinho Alpoim fora mobilizado para os A\u00e7ores e as receitas da casa eram s\u00f3 garantidas pelo trabalho do meu tio Cor\u00edntio e da minha tia S\u00e3o. A minha m\u00e3e estava em Lisboa, pois o meu pai fora mobilizado para a Marinha e estava aquartelado no Alfeite.<\/p>\n<p>Lembro-me dos vidros das janelas com fitas autocolantes mandadas colocar pela Defesa Civil para evitar quebras resultantes de poss\u00edveis explos\u00f5es. Lembro-me de ter tido sarampo e da minha av\u00f3 o ter talhado com um responso que come\u00e7ava mais ou menos assim: \u201cSarampo, sarampelho, eu te corto eu te talho, etc., etc\u2026\u201d Por conta desse sarampo, durante quase duas semanas n\u00e3o vi a luz do sol. <\/p>\n<p>Lembro-me de ver o meu tio Cor\u00edntio debaixo de um cobertor de papa a tentar sintonizar a BBC para saber not\u00edcias da guerra transmitidas de Londres pelo locutor aveirense Fernando Pessa. L\u00e1 em casa eram todos pelos aliados. Ningu\u00e9m suportava Hitler. O r\u00e1dio, a TSF, era um caixote de madeira polida, com um altifalante coberto de tecido. A sintonia devia ser dif\u00edcil pois o som ia e vinha, com altos e baixos. O meu tio Cor\u00edntio era um coca-bichinhos destas coisas da t\u00e9cnica radiof\u00f3nica. Lembro-me de ele me levar at\u00e9 \u00e0 oficina do meu primo C\u00e9sar, ali para os lados da rua de Jos\u00e9 Est\u00eav\u00e3o, onde ele ganhava a vida a consertar telefonias. Da\u00ed a sua alcunha Marconi. Com efeito, todos o conheciam por C\u00e9sar Marconi. A mim metia-me especial impress\u00e3o olhar para a sua m\u00e3o direita, que s\u00f3 tinha o polegar e o dedo mindinho. Tinha nascido assim. A falta dos outros dedos n\u00e3o lhe provocava, aparentemente, quaisquer engulhos. Bem pelo contr\u00e1rio. A unha do polegar era uma aut\u00eantica chave de fendas e com o seu dedo m\u00ednimo ele estabelecia contactos el\u00e9tricos que faziam iluminar as l\u00e2mpadas dos r\u00e1dios avariados. Ele chamava v\u00e1lvulas a essas l\u00e2mpadas. Verdadeiramente, o que levava o meu tio at\u00e9 \u00e0 oficina do primo C\u00e9sar Marconi era para tentar saber como construir um r\u00e1dio de galena, um cristal de chumbo que, conjugado com outros elementos, permitia escutar sinais de TSF. Depois de porfiadas sintonias eu cheguei a ouvir m\u00fasica sa\u00edda da geringon\u00e7a que o meu tio montara sob as indica\u00e7\u00f5es de C\u00e9sar Marconi, meu primo por parte da minha av\u00f3 paterna, Guilhermina de Deus da Loura.<\/p>\n<p>Muito mais tarde, j\u00e1 eu era gerente de uma empresa de pesca, vim a trabalhar com um seu irm\u00e3o, o Carlos Loura, que come\u00e7ara a mexer em coisas da eletr\u00f3nica merc\u00ea do v\u00edrus familiar que herdara do mano. Tenho saudades do Carlos. Morreu muito novo. Era um excelente especialista em sondas de pesca, em radares, em aparelhos de radiotelegrafia. Trabalhava para quase todas as empresas de pesca sediadas na Gafanha da Nazar\u00e9. E era muito meu amigo, daqueles \u00e0 moda antiga, daqueles em quem se pode confiar em todas as circunst\u00e2ncias. Acontece que tamb\u00e9m foi meu companheiro no Lions Clube de Aveiro. Ao p\u00e9 dele era imposs\u00edvel n\u00e3o estarmos sempre bem dispostos, tal o seu natural jeito para contar, melhor, para inventar hist\u00f3rias hilariantes.<\/p>\n<p>O meu amigo e companheiro Lion, dr. Jos\u00e9 Balac\u00f3, est\u00e1 sempre a citar sa\u00eddas do saudoso Carlos Loura que, nos dias que correm, serviriam de verdadeiro ant\u00eddoto para a crise atual que nos avassala. <\/p>\n<p>Aqui fica uma das dele, Carlos Loura: \u201cSer\u00e1 que esta crise fazer\u00e1 mal \u00e0 gente? Supremo que n\u00e3o, supremo que n\u00e3o\u201d, respondia ele a si pr\u00f3prio. \u201cCom palmas e luzes e bandeiras a acenar em festival, isto h\u00e1 de passar\u201d, misturando tudo com as suas sonoras e contagiantes gargalhadas\u2026<\/p>\n<p>Nestes dias acabrunhantes que tanto me fazem lembrar os tempos idos da carestia sofrida por conta da Segunda Guerra Mundial, sinto bem a falta do bom humor com que o meu primo Carlos Loura nos sabia contagiar. Pessoas como ele fazem falta\u2026 E, agora, mais do que nunca!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 12<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-22084","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22084\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}