{"id":22086,"date":"2013-03-27T16:00:00","date_gmt":"2013-03-27T16:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22086"},"modified":"2013-03-27T16:00:00","modified_gmt":"2013-03-27T16:00:00","slug":"ser-padre-uma-relacao-com-deus-que-se-vai-alimentando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ser-padre-uma-relacao-com-deus-que-se-vai-alimentando\/","title":{"rendered":"Ser padre: uma rela\u00e7\u00e3o com Deus que se vai alimentando"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e9lder Ruivo, 25 anos, de Oliveira do Bairro; Vitor Cardoso, 40 anos, da Gafanha do Carmo, e Leonel Abrantes, 34 anos, de Aguada de Cima. Est\u00e3o todos a concluir o sexto ano do curso de teologia, frequentando o Semin\u00e1rio dos Olivais e a Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, em Lisboa. Ao fim de semana colaboram, respetivamente, nas par\u00f3quias de Esgueira, Vera Cruz e Oi\u00e3.<\/p>\n<p>V\u00edtor Cardoso, Leonel Abrantes e H\u00e9lder Ruivo v\u00e3o ser ordenados di\u00e1conos no dia 7 de abril, na S\u00e9 de Aveiro. Ao Correio do Vouga revelam como vivem a identidade e voca\u00e7\u00e3o sacerdotal.<\/p>\n<p>No final de um retiro espiritual de uma semana, orientado por D. Ant\u00f3nio Marcelino, na Casa Jean Gailhac, na Costa Nova, o ambiente era de boa disposi\u00e7\u00e3o. Antes de partirem para as par\u00f3quias onde colaboram, a quinze dias de serem ordenados di\u00e1conos a caminho do presbiterado, os seminaristas revelam o que pensam sobre a voca\u00e7\u00e3o, o ser padre e o Papa Francisco.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio, claro, \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o. \u201cPadre porqu\u00ea?\u201d, \u00e9 a pergunta la\u00e7ada aos tr\u00eas. Responde Leonel Abrantes: \u201cPorque Deus me chama a isso. A decis\u00e3o de querer ser padre \u00e9 fruto de uma descoberta, de uma rela\u00e7\u00e3o pessoal com Deus, com as media\u00e7\u00f5es que a Igreja nos coloca, o meu p\u00e1roco, as viv\u00eancias crist\u00e3s, no Secretariado da Pastoral Juvenil e nos Conv\u00edvios Fraternos\u2026 A rela\u00e7\u00e3o com Deus foi-se alimentando, crescendo, e eu fui percebendo que Deus me chama\u201d.<\/p>\n<p>V\u00edtor Cardoso acrescenta que se \u00e9 padre para \u201cestar com Ele\u201d. E explica: \u201cNo retiro, fizemos eco da passagem dos Disc\u00edpulos de Ema\u00fas. Jesus explica-lhes tudo e, ainda sem o reconheceram, arde-lhes o cora\u00e7\u00e3o. Passa por aqui a descoberta. Vamos caminhando e vamos querendo sempre ouvir aquele que nos vai chamando com muitos sinais. Na minha caminhada pessoal, desde os 22 anos que sentia a interpela\u00e7\u00e3o, mas depois n\u00e3o tinha a coragem para avan\u00e7ar\u201d. Vitor \u00e9 o mais velho dos tr\u00eas. Entrou no semin\u00e1rio j\u00e1 depois dos 30 anos, tendo trabalhado 14 na empresa Heliflex (Gafanha da Encarna\u00e7\u00e3o), enquanto estudava \u00e0 noite para terminar o 12.\u00ba ano. Antes de frequentar os semin\u00e1rios de Leiria, Coimbra e Lisboa \u2013 percurso comum aos tr\u00eas \u2013 ainda esteve um ano em It\u00e1lia, numa comunidade de Focolares.<\/p>\n<p>H\u00e9lder Ruivo real\u00e7a o car\u00e1cter instrumental da voca\u00e7\u00e3o sacerdotal: \u201cNuma rela\u00e7\u00e3o com Deus fui sentindo que Deus me chamava a algo mais concreto. A iniciativa parte de Deus, mas precisa da nossa resposta, sim ou n\u00e3o. Tendo respondido sim e dispondo da minha vida, sou instrumento nas m\u00e3os de Deus. Deus tem um projeto salv\u00edfico para o seu povo, mas para realizar este projeto precisa de instrumentos e h\u00e1 pessoas que s\u00e3o instrumentos. Considero o ser padre ser um instrumento nas m\u00e3os de Deus para levar Deus aos homens e para levar os homens at\u00e9 Deus. O padre \u00e9 sempre um pastor que caminha com o povo e conduz o povo para Deus, nomeadamente pelos sacramentos\u201d.<\/p>\n<p>Os tempos que correm n\u00e3o s\u00e3o f\u00e9rteis em voca\u00e7\u00f5es sacerdotais. \u00c9 preciso recuar mais de uma d\u00e9cada para a Diocese de Aveiro ter tr\u00eas ordena\u00e7\u00f5es de padres num s\u00f3 ano. Para mais, a n\u00edvel mundial, a Igreja viu o dom do sacerd\u00f3cio ministerial ser manchado pelo pecado e crime da pedofilia. Estas quest\u00f5es preocupam os futuros padres? Pensam eles no risco de fracassar?<\/p>\n<p>\u201cQuando olhamos seriamente para as coisas, podemos p\u00f4r a hip\u00f3tese de algo correr mal\u201d, adianta Leonel Abrantes, \u201cmas se o Senhor nos chama e se n\u00f3s procurarmos ser fi\u00e9is, isto vai correr bem. Com atitudes de confian\u00e7a, Ele h\u00e1 de ajudar-nos a ultrapassar as tribula\u00e7\u00f5es\u201d. Com j\u00e1 alguma experi\u00eancia no trabalho com jovens, concretiza: \u201cPor vezes os jovens perguntam-me como aceitamos pertencer a uma Igreja com pedofilia. Mas n\u00e3o \u00e9 por dois ou tr\u00eas, que s\u00e3o uma minoria, que a Igreja h\u00e1 de deixar de propor o que prop\u00f5e. O nosso caminho n\u00e3o se faz porque dois ou tr\u00eas fizeram asneiras, mas porque com tantos e tantos correu bem\u201d. <\/p>\n<p>H\u00e9lder Ruivo n\u00e3o consegue imaginar a hip\u00f3tese de infelicidade ou frustra\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 vida sacerdotal. \u201c\u00c9 uma decis\u00e3o muito importante a que tomamos. \u00c9 um passo que n\u00e3o dou sem ter a firme certeza de que \u00e9 Deus que me chama, que a minha voca\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira e que quero consagrar a minha vida por inteiro e definitivamente. Tendo isto em conta, n\u00e3o consigo imaginar nem p\u00f4r a hip\u00f3tese de que correr\u00e1 mal. Se a pusesse deixava uma r\u00e9stia de incerteza, que n\u00e3o existe. Confio totalmente em Deus, tendo em conta que Deus nos chama com as nossas imperfei\u00e7\u00f5es e fraquezas. Sei que sou imperfeito e que nem sempre tudo correr\u00e1 bem, mas tenho a certeza absoluta neste passo, se n\u00e3o, n\u00e3o valeria a pena avan\u00e7ar\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Vitor Cardoso, por seu turno, destaca a import\u00e2ncia da fam\u00edlia na voca\u00e7\u00e3o do padre:  \u201cA fam\u00edlia que se cria na comunidade e no presbit\u00e9rio \u00e9 muito saud\u00e1vel e acaba por nos ajudar. Somos chamados a ser uma fraternidade presbiteral. Quando existe uma verdadeira comunh\u00e3o de sacerdotes, as dificuldades ultrapassam-se facilmente. Vemos, por exemplo em leigos consagrados, que o celibato n\u00e3o \u00e9 algo inating\u00edvel. Temos \u00e9 que estar enraizados e viver numa fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>E como veem o perfil do padre nos dias de hoje? \u201c\u00c9 dif\u00edcil definir um estere\u00f3tipo para o padre ideal porque \u00e9 bom que haja variedade de carismas\u201d, responde H\u00e9lder Ruivo. \u201cA Igreja espera que o padre saiba estar com as pessoas, que seja pr\u00f3ximo, que tenha um sentido muito profundo, uma identidade s\u00f3lida, seja um homem de ora\u00e7\u00e3o, capaz de conduzir as pessoas para Deus, falar de Deus \u00e0s pessoas\u201d. Leonel Abrantes resume em duas palavras: \u201cO ideal \u00e9 sempre este: Jesus Cristo. Traduzir isto no tempo concreto passa por ouvir as alegrias, as esperan\u00e7as, as tristezas, as ang\u00fastias\u2026 \u00c9 fundamental acompanhar e sabermos dar Deus na vida concreta das pessoas\u201d. Vitor Cardoso acrescenta uma ideia do Ap\u00f3stolo: \u201cComo dizia S\u00e3o Paulo, \u00abfiz-me tudo para todos para ganhar alguns\u00bb. Penso que passa por a\u00ed o servi\u00e7o. O padre tem como miss\u00e3o estar ao servi\u00e7o de todos e n\u00e3o simplesmente do que nos s\u00e3o mais pr\u00f3ximos. Tem de ir ao encontro do marginalizado, do pobre, do doente\u2026\u201d<\/p>\n<p>De Bento a Francisco<\/p>\n<p>A conversa com os candidatos a di\u00e1conos prolongou-se por outros temas, que agora n\u00e3o s\u00e3o desenvolvidos. Mas um n\u00e3o poderia faltar, j\u00e1 que ainda estamos no rescaldo da transi\u00e7\u00e3o de Bento para Francisco. Como viveram eles esta mudan\u00e7a? \u201cViveu-se de maneiras diferentes porque temos sensibilidades diferentes. A grande t\u00f3nica foi a da esperan\u00e7a, porque o Esp\u00edrito Santo est\u00e1 a agir, embora n\u00e3o compreendamos todo o alcance de at\u00e9 onde \u00e9 que isto vai. Certamente que cada um cria rela\u00e7\u00f5es de empatia com as pessoas, mas o minist\u00e9rio petrino \u00e9 muito maior do que a pessoa que o exerce\u2026\u201d, responde Leonel Abrantes. <\/p>\n<p>V\u00edtor Cardoso confessa que foi apanhado de surpresa pela ren\u00fancia de Bento XVI. \u201cFui interpelado por algumas pessoas que ficaram tristes com a resigna\u00e7\u00e3o, mas ao mesmo tempo surgiu um olhar de confian\u00e7a, porque a Igreja n\u00e3o \u00e9 nossa, \u00e9 de Nosso Senhor. Foi Ele que ao longo dos dois mil\u00e9nios a conduziu e a conduz. Por isso, fui dizendo a algumas pessoas uma palavra de esperan\u00e7a. Agora acolhemos este Papa que, sem desvalorizar o minist\u00e9rio de Pedro dos anteriores, olha para os pobres\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPergunta se algu\u00e9m ficou descontente? Eu n\u00e3o fiquei descontente, fiquei muito chocado, na altura da resigna\u00e7\u00e3o de Bento XVI. E triste\u201d, responde H\u00e9lder Ruivo. \u201cDepois foi passando. O Papa decidiu livremente. Se ao longo do seu pontificado fomos acolhendo filialmente as suas indica\u00e7\u00f5es para a Igreja, tamb\u00e9m temos de acolher a decis\u00e3o da ren\u00fancia. Agora, as primeiras impress\u00f5es do papa Francisco s\u00e3o muito positivas. Quando Bento XVI foi eleito, dizia-se que ir a ser muito dif\u00edcil porque sucedia ao carism\u00e1tico Jo\u00e3o Paulo II, que tinha tido um pontificado longo. Agora, penso que o Papa Francisco tamb\u00e9m tem a dificuldade de suceder a Bento XVI, que tamb\u00e9m foi marcante e tem um magist\u00e9rio riqu\u00edssimo. Como costuma haver uma certa altern\u00e2ncia, se Bento era mais doutrinal, Francisco ser\u00e1 mais pastoral\u201d.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e9lder Ruivo, 25 anos, de Oliveira do Bairro; Vitor Cardoso, 40 anos, da Gafanha do Carmo, e Leonel Abrantes, 34 anos, de Aguada de Cima. 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