{"id":22130,"date":"2013-03-27T16:44:00","date_gmt":"2013-03-27T16:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22130"},"modified":"2013-03-27T16:44:00","modified_gmt":"2013-03-27T16:44:00","slug":"falar-do-andre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/falar-do-andre\/","title":{"rendered":"Falar do Andr\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 13 <!--more--> No Dia Mundial da Poesia, 21 de Mar\u00e7o, fui reler AINDA VIDA, um pequeno Livro de poemas da lavra do meu grande amigo ANDR\u00c9 ALA DOS REIS, que a Associa\u00e7\u00e3o dos Antigos Alunos da Escola Prim\u00e1ria da Gl\u00f3ria editou logo ap\u00f3s a sua funda\u00e7\u00e3o. Foi uma homenagem que os seus companheiros de cal\u00e7\u00e3o quiseram prestar a algu\u00e9m que, pelas suas qualidades intelectuais, deixou marca indel\u00e9vel em todos os que com ele conviveram ao longo da sua curta passagem por este mundo. De uma intelig\u00eancia fulgurante, impressionava pela sua enorme lhaneza de trato pela qual flu\u00eda, sem ostenta\u00e7\u00e3o, o seu enorme saber. Os primeiros sintomas da doen\u00e7a que o haveria de levar do nosso conv\u00edvio surgiram quando ele ainda estava em Heidelberg a colher elementos para a sua tese sobre Thomas Mann. Na altura, j\u00e1 ele tinha sido convidado para assistente do Professor Paulo Quintela do curso de Germ\u00e2nicas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Mais lembro que o Andr\u00e9 foi o melhor aluno de sempre do ent\u00e3o Liceu Nacional de Aveiro. De uma sensibilidade excecional, tudo o que sa\u00eda da sua pena sabia a poesia. E, neste 21 de mar\u00e7o de 2013, decidi recuperar um pequeno texto que escrevi como introito para a j\u00e1 referida colet\u00e2nea de poemas vinda a lume em letra de forma sob o nome de AINDA VIDA. <\/p>\n<p>FALAR DO ANDR\u00c9 foi o t\u00edtulo que dei, ent\u00e3o, \u00e0s palavras que se seguem: <\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil falar dum amigo que j\u00e1 l\u00e1 vai. Pelo que ficou, dele, em n\u00f3s. \u00c9 dif\u00edcil. O Andr\u00e9 escolheu, na multid\u00e3o das suas leituras, um pouco de Lorca:<\/p>\n<p>\/\u2026\/pero que todos sepan que no he muerto;<\/p>\n<p>que hay un establo de ora en mis labios;<\/p>\n<p>que soy el peque\u00f1o amigo del viento Oeste;<\/p>\n<p>que soy la sombra inmensa de mis lagrimas. \/\u2026\/<\/p>\n<p>Nisto est\u00e1 muito, tudo, do que um jovem quis dizer e, por conta do que foi dizendo, nada a vida lho deixou dizer.<\/p>\n<p>Sejamos objetivos. Lembramo-nos, todos n\u00f3s, seus companheiros e amigos, do seu ar bonacheir\u00e3o. No seu rosto sentia-se a intranquilidade duma calma que, n\u00e3o sendo dele \u2014 a calma \u2014, nos procurava transmitir.<\/p>\n<p>Profundamente honesto consigo, exigente. Rigoroso na rela\u00e7\u00e3o estabelecida. Algo paternalista. Mas bom!<\/p>\n<p>Disse exigente. S\u00f3 quem n\u00e3o com ele viveu \u2014 e eu vivi \u2014 n\u00e3o compreende o n\u00edvel da exig\u00eancia inteligencial que o Andr\u00e9 punha em tudo o que fazia, em tudo com que e com quem lidava.<\/p>\n<p>Mesmo quando brincava, o Andr\u00e9 deixou vendida a imagem de como o brinquedo era a sua \u00abcompra\u00bb de amizade.<\/p>\n<p>Seri\u00edssimo, intelectualmente, ele, crian\u00e7a grande que eu balbuciava, em todo o momento procurava-se nos outros.<\/p>\n<p>Lembro-me, como se hoje fora, que, um dia, me deu uma caixa vazia de charutos. <\/p>\n<p>Disse-me: \u2014 A tua av\u00f3 d\u00e1-te vinte e cinco tost\u00f5es por semana. Vamos l\u00e1 abaixo, e vais juntar essa \u00abmassa\u00bb para comprar livros na \u00abFeira de Mar\u00e7o\u00bb, porque s\u00e3o mais baratos. Mas s\u00e3o os mesmos. A caixa fica aqui na minha estante.<\/p>\n<p>Foi assim. Eu era menino de cerca de 10 anos. Marcou-me. A mim, mais do que, possivelmente, qualquer outro. <\/p>\n<p>Desenh\u00e1mos, juntos. Ouvi poesia, dele. Falei ingl\u00eas, por ele.<\/p>\n<p>\u00abO teu accent \u00e9 muito americano\u00bb, dizia ele. \u00abJ\u00e1 \u00e9s embrionariamente, portanto, empres\u00e1rio\u00bb. Assim razoava. Brincando&#8230;<\/p>\n<p>Deliberadamente optei por isto: por aquilo que ele mais me disse. <\/p>\n<p>Pelos passeios, a p\u00e9, de quil\u00f3metros ao longo da nossa Ria, parando aqui e al\u00e9m, tirando uma que outra fotografia: Vista Alegre, Barra, Costa, Forte. De tudo h\u00e1 registo.<\/p>\n<p>Das tardes, ouvindo Shakespeare, por ele lido com amor. Do seu Thomas Mann que o endemoninhou, at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Do nosso \u00ablunch\u00bb, depois de lavar as m\u00e3os, nas ch\u00e1venas da madrinha com o gato desenhado na asa. No c\u00e1gado que morreu no quintal.<\/p>\n<p>Na cave dos segredos onde se perdia a mem\u00f3ria do seu tio, jurista e primeiro presidente da Comiss\u00e3o Administrativa da C\u00e2mara Municipal de Aveiro, ap\u00f3s implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em livros, revistas, papelada infind\u00e1vel. Na neo-camoneana, do tio. No r\u00e1dio que ouv\u00edamos. No chap\u00e9u do padrinho Amadeu.<\/p>\n<p>A cave era l\u00fagubre. As escadas que levavam ao quente caf\u00e9-com-leite da madrinha, muito \u00edngremes. Ca\u00ed algumas vezes.<\/p>\n<p>Mas isto mesmo, com o calor da amizade, foi mesmo, mesmo, mesmo, a est\u00fapida coisa que fui capaz de escrever por conta da inteligente \u2014 sua \u2014 amizade que sempre soubemos manter.<\/p>\n<p>Eu sou \u00abeI peque\u00f1o amigo del viento Oeste\u00bb. Ele ser\u00e1, \u00e9, \u00abla sombra inmensa de mis lagrimas\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo&#8230;: \u00abde mis lagrimas\u00bb.<\/p>\n<p>E no Dia Mundial da Poesia foi tudo tamb\u00e9m o que fui capaz de escrever.<\/p>\n<p>IGNOTO DEO <\/p>\n<p>Obrigado, Senhor, por tudo o que me deste,<\/p>\n<p>plo bem sem par da minha vida calma,<\/p>\n<p>plo mal abundante que me tens oferecido,<\/p>\n<p>por toda a busca amarga dos Teus caminhos vagos,<\/p>\n<p>plo vacilar da rocha que n\u00e3o quis tombar.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as te dou, Senhor, por tudo o que me deste.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Ala dos Reis, in AINDA VIDA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 13<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-22130","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22130","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22130\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}