{"id":22133,"date":"2013-03-27T16:47:00","date_gmt":"2013-03-27T16:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22133"},"modified":"2013-03-27T16:47:00","modified_gmt":"2013-03-27T16:47:00","slug":"firmes-nos-principios-tolerantes-com-as-pessoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/firmes-nos-principios-tolerantes-com-as-pessoas\/","title":{"rendered":"&#8220;Firmes nos princ\u00edpios, tolerantes com as pessoas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>O cristianismo \u00e9 verdade, \u00e9 lei, \u00e9 rito, \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 patrim\u00f3nio, \u00e9 hist\u00f3ria, \u00e9 raz\u00e3o, \u00e9 sentido, \u00e9\u2026 \u00c9, \u00e9 tudo isto, mas tudo isto n\u00e3o \u00e9, ainda, o cristianismo. J\u00e1 S. Paulo o exprimia com a clarivid\u00eancia de quem parecia ter vivido os dois mil anos que, entretanto, j\u00e1 percorremos: ainda que saibamos falar a l\u00edngua dos homens, se n\u00e3o tivermos amor, de nada vale isso. Porque, antes de tudo, o cristianismo \u00e9 encontro. E, por s\u00ea-lo, como diz Tolentino de Mendon\u00e7a, no seu livro sobre a amizade, \u00abnenhum caminho ser\u00e1 longo\u00bb. O encontro tornar\u00e1 curtas as longas peregrina\u00e7\u00f5es de dor e sofrimento, porque o encontro lhes conferir\u00e1 sentido e rumo. <\/p>\n<p>Mas n\u00f3s, crist\u00e3os, parecemos levar muito tempo a descobrir a ess\u00eancia do que nos diferencia. Como recordava Bento XVI, na sua program\u00e1tica primeira enc\u00edclica, \u00abDeus \u00e9 amor\u00bb, \u00abno in\u00edcio do ser crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma decis\u00e3o \u00e9tica ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que d\u00e1 \u00e0 vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo\u00bb. E ser\u00e1 isto que fascinar\u00e1, que seduzir\u00e1, que, como dizia D. Jos\u00e9 Policarpo, nas v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o do Papa Francisco, transformar\u00e1 a igreja num lugar onde se quer regressar. A tenta\u00e7\u00e3o tem sido, por\u00e9m, outra. Carregados por fardos pesados, em vez de seduzidos por tesouros eternos, desejamos impor aos outros a carga que nos esmaga por ainda n\u00e3o termos sido tomados por dentro pela beleza que inebria.<\/p>\n<p>Significar\u00e1, por\u00e9m, isto a ced\u00eancia ao relativismo que tudo aceita e a tudo confere legitimidade?<\/p>\n<p>A beleza do cristianismo adv\u00e9m-lhe de n\u00e3o ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de tudo reduzir ao branco e preto que tornaria t\u00e3o f\u00e1cil dividir o mundo em bons e maus. Mas esse n\u00e3o \u00e9 o caminho crist\u00e3o. Foi, ali\u00e1s, recusado com a rejei\u00e7\u00e3o do manique\u00edsmo dos primeiros tempos.<\/p>\n<p>Mas como, ent\u00e3o, conciliar o amor com a verdade?<\/p>\n<p>A resposta foi sendo burilada com o tempo, mas aprecio de forma particular o senso de In\u00e1cio de Loyola, fundador dos jesu\u00edtas, que fez da companhia de Jesus uma fraternidade assente no acolhimento das pessoas e da verdade, sem qualquer contradi\u00e7\u00e3o. Para ele, havia que ser firme nos princ\u00edpios, mas tolerantes com as pessoas.<\/p>\n<p>Uma concilia\u00e7\u00e3o que pode encontrar a sua nascente na forma como Jesus Cristo se situou diante da mulher ad\u00faltera. <\/p>\n<p>A resposta dos mais distra\u00eddos parece acabar na afirma\u00e7\u00e3o de Jesus que sublinha que, tal como ningu\u00e9m a condenara, tamb\u00e9m ele n\u00e3o a condenava. Contudo, o evangelho n\u00e3o acaba a\u00ed. \u00abVai e n\u00e3o tornes a pecar\u00bb \u00e9 a chancela do epis\u00f3dio. O centro n\u00e3o est\u00e1 na regra, nem na lei, nem na moral. Elas n\u00e3o s\u00e3o o ponto de partida, contrariamente ao que poderiam pretender os farisa\u00edsmos. Mas elas s\u00e3o o tra\u00e7o de confirma\u00e7\u00e3o, contrariamente ao que poderiam pretender os relativistas. N\u00e3o \u00e9 a moral o que seduz em Jesus, mas da sedu\u00e7\u00e3o e do encontro nasce uma nova forma de conduzir a vida. <\/p>\n<p>A nova evangeliza\u00e7\u00e3o, de que se ecoa a necessidade permanente, claudica quando um destes momentos falha: o encontro, por gigantismo da moral; a moral, por ced\u00eancia ao relativismo. O equil\u00edbrio s\u00f3 poder\u00e1 encontrar-se no dinamismo jesu\u00edta que reconhecia que o crist\u00e3o deve ser \u00abfirme nos princ\u00edpios e tolerante com as pessoas\u00bb. N\u00e3o a toler\u00e2ncia de quem se julga superior, mas de quem se reconhece irm\u00e3o na fragilidade, consciente, por\u00e9m, de que a fragilidade n\u00e3o deve obscurecer o horizonte para que se caminha.<\/p>\n<p>Explicitemos estas ideias.<\/p>\n<p>A moral crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 o in\u00edcio da vida crist\u00e3. O batizado n\u00e3o \u00e9 envolvido, pela \u00e1gua, num rolo de leis, mas acolhido no rega\u00e7o de Cristo. A moral \u00e9 como que um segundo momento, em resultado deste encontro. Assim deve ocorrer, tamb\u00e9m, no processo de evangeliza\u00e7\u00e3o. Primeiro, o encontro, pois a partir dele, cada um, ao sentir-se recebido, compreender\u00e1 que e como deve mudar a sua vida. Assim ocorreu em tantos e tantos encontros reais relatados nos evangelhos. A novidade do encontro suscita a convers\u00e3o, como ocorreu com Zaqueu: \u00abSenhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei algu\u00e9m em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais\u00bb (Lc 19,9).<\/p>\n<p>Mas os caminhos est\u00e3o demasiado longos, hoje. Parece n\u00e3o haver tempo. Somos como que consumidos, como diziam os gregos cl\u00e1ssicos, pelo deus \u00abcr\u00f3nos\u00bb que devora os filhos. Vivemos a nostalgia do futuro que nos atrai como abismo vertiginoso, e n\u00e3o permitimos o encontro. E, como o nosso Deus se fez pequeno e precisa da media\u00e7\u00e3o, sendo que os \u00abmediadores\u00bb n\u00e3o permitem que ele se torne presente nas vidas, os nossos contempor\u00e2neos sofrem a aus\u00eancia de Deus. \u00c9 grande a nossa responsabilidade: a de permitir que se torne poss\u00edvel o encontro. Talvez isto tamb\u00e9m explique porque parecem andar sumidos os valores maiores. Quem n\u00e3o encontrou o absoluto, deriva num mar sem ventos favor\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cristianismo \u00e9 verdade, \u00e9 lei, \u00e9 rito, \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 patrim\u00f3nio, \u00e9 hist\u00f3ria, \u00e9 raz\u00e3o, \u00e9 sentido, \u00e9\u2026 \u00c9, \u00e9 tudo isto, mas tudo isto n\u00e3o \u00e9, ainda, o cristianismo. J\u00e1 S. 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