{"id":2218,"date":"2010-07-28T16:29:00","date_gmt":"2010-07-28T16:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2218"},"modified":"2010-07-28T16:29:00","modified_gmt":"2010-07-28T16:29:00","slug":"alma-ate-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/alma-ate-almeida\/","title":{"rendered":"\u00abAlma at\u00e9 Almeida\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> DOMINGO XVIII do tempo comum &#8211; Ano C<\/p>\n<p>A 1.\u00aa leitura tornou c\u00e9lebre um prov\u00e9rbio, que ficou inalterado pelos s\u00e9culos fora: \u00abVaidade das vaidades, tudo vaidade\u00bb. \u00abVaidade das vaidades\u00bb \u00e9 um superlativo: o conjunto da frase significaria \u00abtudo neste mundo \u00e9 fugaz e enganador\u00bb. O termo \u00abvaidade\u00bb segue o sentido primitivo do que \u00e9 \u201cperecedoiro, ilus\u00f3rio, v\u00e3o, sem objectivo\u201d&#8230; Estamos perante um autor desiludido, revoltado e por fim tristemente resignado perante a falta de sentido da vida. O impreciso termo hebraico Qohelet designa algu\u00e9m relacionado com uma assembleia (como um mestre), que ter\u00e1 vivido 400 ou 300 anos antes de Cristo. <\/p>\n<p>O vocabul\u00e1rio hebreu, para designar este mundo de apar\u00eancias, de enganos e desenganos, de mentira e de ligeireza\u2026 tem pelo menos seis termos totalmente diferentes, consoante o sentido a vincar no contexto. Coelet usa sobretudo o termo hebel, cujo significado directo \u00e9 suspiro, vapor, nulidade. A futilidade da vida l\u00ea-se em muitos livros da B\u00edblia. Por\u00e9m, Coelet como que repisa as palavras do profeta Malaquias (3,14): \u00abQue interesse pode haver em servir Deus, guardar os seus preceitos e n\u00e3o tirar o maior gozo poss\u00edvel da vida?\u00bb (Note-se que Coelet viveu numa \u00e9poca \u201cmorna\u201d, como n\u00f3s podemos viver, em que o poder e a riqueza estavam nas m\u00e3os de quem n\u00e3o tinha educa\u00e7\u00e3o suficiente para governar).  <\/p>\n<p>Entre crentes e n\u00e3o crentes, o livro de Coelet suscita uma certa avers\u00e3o, t\u00e3o sombrio \u00e9 o cen\u00e1rio que apresenta, e logo em contraste com a frescura e exuber\u00e2ncia do livro precedente \u2013 o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Mas a sua inclus\u00e3o na B\u00edblia garante uma vis\u00e3o mais realista da situa\u00e7\u00e3o humana: na nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus h\u00e1 lugar para a indigna\u00e7\u00e3o e tristeza pelo mal que existe e pelo pouco que somos. Precisamos de uma rela\u00e7\u00e3o interactiva com Deus \u2013 um Deus que importuna e ainda por cima se esconde. <\/p>\n<p>O livro de Coelet passa um aut\u00eantico \u201ccart\u00e3o de est\u00fapido\u201d a quem se apega exageradamente \u00e0s coisas passageiras, embora a gente deva aproveitar os momentos gostosos da vida. Por outro lado, parece que s\u00f3 as pessoas que n\u00e3o se importam com a justi\u00e7a \u00e9 que t\u00eam uma vida regalada\u2026 <\/p>\n<p>Pessoas boas ou m\u00e1s, ricas ou pobres, ignorantes ou letradas, s\u00e1bias ou doidivanas\u2026 todos voltam igualmente a ser p\u00f3. Contudo, Coelet n\u00e3o desiste de viver: vale sempre a pena fazer o que achamos mais acertado.<\/p>\n<p>Mas a pior \u00abvaidade\u00bb \u00e9 pretender que Deus n\u00e3o passa de uma miragem. Para Coelet, se o ser humano se sente t\u00e3o infeliz, \u00e9 porque experimenta, de alguma maneira, um n\u00edvel de vida plena \u2013 como Deus que est\u00e1 sempre para al\u00e9m das nossas tentativas de o ver \u00abcomo Ele \u00e9\u00bb. Ora, todas estas tentativas ficar\u00e3o como sementes, aparentemente mortas, mas que dar\u00e3o fruto a seu tempo, enquanto houver \u201clavradores da Humanidade\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o coisas que s\u00f3 sabe ver quem tem outros olhos, de acordo com a 2.\u00aa leitura. Para S. Paulo, ali\u00e1s, dar tamanha import\u00e2ncia \u00e0 vida e mensagem de um homem crucificado como malfeitor e que teve por primeiros disc\u00edpulos gente sem valor aos olhos do mundo, \u00e9 mesmo uma loucura, um contra-senso. Mas por isso mesmo, se aconteceu alguma coisa (como a frutuosa energia desse homem e seus disc\u00edpulos) \u00e9 porque o \u00fanico ser \u00abque \u00e9\u00bb a s\u00e9rio, unindo bondade e justi\u00e7a perfeitas, est\u00e1 presente na hist\u00f3ria humana e nos leva pelo menos a suspeitar do reverso da medalha. S. Paulo acredita mesmo num mundo restaurado e apresenta a \u00abressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb como a valoriza\u00e7\u00e3o suprema da nossa fr\u00e1gil exist\u00eancia. <\/p>\n<p>Que diria o nosso melanc\u00f3lico autor se visse a Igreja de Cristo \u00aba acumular para si em vez de se tornar rica aos olhos de Deus\u00bb? A preocupar-se com \u00abvaidades\u00bb e a ligar pouco \u00e0 melhor semente \u2013 a de aut\u00eanticas (e her\u00f3icas) rela\u00e7\u00f5es humanas? <\/p>\n<p>Curioso o linguajar do negociante do Evangelho: \u00abMinha alma, tens muitos bens para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te\u00bb&#8230; Destes cuidados, de-via falar ao corpo, que deles precisa para aguentar a energia pr\u00f3pria da alma\u2026 Pois foi esse o erro: preferiu deixar de ter \u00abalma\u00bb, que \u00e9 a imagem do \u00abalimento\u00bb da vida. N\u00e3o quis lutar at\u00e9 ao fim. <\/p>\n<p>Almeida \u00e9 uma antiga pra\u00e7a-forte que fica para l\u00e1 das \u00abterras do Demo\u00bb, bem perto da fronteira e que sabe o que \u00e9 ser atacada. Para se chegar a \u00abAlmeida\u00bb e a\u00ed aguentar, \u00e9 mesmo preciso muita \u00abalma\u00bb\u2026<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-2218","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2218"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2218\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}