{"id":22231,"date":"2013-04-17T16:22:00","date_gmt":"2013-04-17T16:22:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22231"},"modified":"2014-02-13T10:17:34","modified_gmt":"2014-02-13T10:17:34","slug":"a-forca-da-familia-em-tempos-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-forca-da-familia-em-tempos-de-crise\/","title":{"rendered":"A for\u00e7a da fam\u00edlia em tempos de crise"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/familia.bmp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-24271\" alt=\"familia\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/familia.bmp\" width=\"1\" height=\"1\" \/><\/a>Nota Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa <!--more--> A fam\u00edlia,<\/p>\n<p>um bem social<\/p>\n<p>1. Consideramos da maior oportunidade, no atual contexto da sociedade portuguesa, atravessada por uma crise social e econ\u00f3mica de particular gravidade, que se traduz para muitos em desalento e falta de perspetivas de futuro, colocar em relevo o bem insubstitu\u00edvel que representa a institui\u00e7\u00e3o familiar, \u00aborigem e patrim\u00f3nio da humanidade\u00bb (Bento XVI).<\/p>\n<p>A fam\u00edlia representa um bem p\u00fablico, um bem social. Podemos encar\u00e1-la na perspetiva do seu relevo privado, como um bem para a realiza\u00e7\u00e3o pessoal, no plano afetivo, espiritual ou outros, de cada um dos seus membros. Mas devemos tamb\u00e9m encar\u00e1-la na perspetiva do seu relevo social, do bem que representa para a sociedade no seu todo. Podemos caracteriz\u00e1-la como a fonte b\u00e1sica do capital humano, social e espiritual de uma sociedade, a que assegura o seu futuro e o seu crescimento harmonioso. A sa\u00fade e coes\u00e3o de uma sociedade dependem, por isso, da sa\u00fade e coes\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>S\u00f3 a fam\u00edlia concebida a partir do compromisso definitivo entre um homem e uma mulher pode desempenhar esta fun\u00e7\u00e3o social. As altera\u00e7\u00f5es legislativas que, entre n\u00f3s como noutros pa\u00edses, v\u00eam redefinindo o casamento de forma a nele incluir uni\u00f5es de pessoas do mesmo sexo, esquecem esta verdade fundamental.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 a primeira e mais b\u00e1sica das institui\u00e7\u00f5es sociais, antes de mais porque assegura a renova\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es, sendo a primeira fun\u00e7\u00e3o de qualquer comunidade a de assegurar a sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia e renova\u00e7\u00e3o. E cumpre essa fun\u00e7\u00e3o porque representa o contexto mais adequado e harmonioso para a educa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 o santu\u00e1rio da vida e do amor, lugar da manifesta\u00e7\u00e3o de \u00abuma grande ternura, que n\u00e3o \u00e9 a virtude dos fracos, antes pelo contr\u00e1rio denota fortaleza de \u00e2nimo e capacidade de solicitude, de compaix\u00e3o, de verdadeira abertura ao outro, de amor. N\u00e3o devemos ter medo da bondade, da ternura\u00bb (Papa Francisco).<\/p>\n<p>Raz\u00f5es da insubstitu\u00edvel import\u00e2ncia da fam\u00edlia<\/p>\n<p>2. Na fam\u00edlia respeita-se a dignidade da pessoa humana, esta \u00e9 encarada como ser \u00fanico e irrepet\u00edvel. Nela n\u00e3o h\u00e1 lugar para o anonimato. Nela a pessoa \u00e9 acolhida e amada pelo que \u00e9, n\u00e3o pelo que faz ou pelo que produz. Por isso, o contexto familiar \u00e9 aquele em que os mais vulner\u00e1veis, incluindo os doentes e portadores de defici\u00eancia, n\u00e3o deixam de ser valorizados.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 a primeira e mais b\u00e1sica escola de sociabilidade. Nela se aprende a conviv\u00eancia com o outro e o diferente; o homem \u00e9 diferente da mulher, os irm\u00e3os nunca s\u00e3o iguais, e os filhos nunca s\u00e3o o reflexo da imagem dos pais.<\/p>\n<p>Na fam\u00edlia a solidariedade n\u00e3o \u00e9 imposta, \u00e9 espont\u00e2nea e calorosa. Ela \u00e9 o campo privilegiado da gratuidade, do dom desinteressado, onde espontaneamente se d\u00e1 sem esperar nada em troca e com a maior das alegrias.<\/p>\n<p>Na fam\u00edlia a autoridade \u00e9 exercida como servi\u00e7o e por amor.<\/p>\n<p>A renova\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es no seio da fam\u00edlia tamb\u00e9m permite a mais harmoniosa alian\u00e7a entre a tradi\u00e7\u00e3o e a novidade. As gera\u00e7\u00f5es mais velhas transmitem \u00e0s gera\u00e7\u00f5es mais novas, como a sua mais preciosa heran\u00e7a, aqueles valores perenes que n\u00e3o est\u00e3o sujeitos \u00e0 usura do tempo e n\u00e3o passam com as modas. As gera\u00e7\u00f5es mais novas representam a abertura ao novo, ao dinamismo e \u00e0 criatividade, que tornam vivos esses valores perenes.<\/p>\n<p>Num outro aspeto a fam\u00edlia representa o contexto mais adequado e harmonioso para o crescimento e educa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es. A fam\u00edlia nasce da unidade e complementaridade das dimens\u00f5es masculina e feminina, que cooperam, nessa unidade e complementaridade, para a integridade da educa\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>O casamento, como uni\u00e3o entre um homem e uma mulher, tem representado nas sociedades e culturas mais diversificadas um s\u00edmbolo dessa riqueza que representa a dualidade sexual, da unidade dessa diversidade. A mensagem b\u00edblica exprime-o com as palavras do G\u00e9nesis: \u00abDeus os criou homem e mulher \u2026 e viu que a sua obra era muita boa\u2026\u00bb. Esta riqueza da dualidade sexual, da unidade e complementaridade dos dois sexos, est\u00e1 presente na fam\u00edlia e, por seu interm\u00e9dio, deve penetrar em toda a sociedade. Todos os \u00e2mbitos da vida social ganham com o contributo simult\u00e2neo, diversificado e harm\u00f3nico das especificidades masculina e feminina, que s\u00e3o complexas, n\u00e3o s\u00e3o r\u00edgidas e uniformes, mas s\u00e3o uma insubstitu\u00edvel riqueza.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia e a crise econ\u00f3mica e social<\/p>\n<p>3. A crise econ\u00f3mica e social que o nosso pa\u00eds atravessa vem evidenciando, precisamente, a riqueza que representa a fam\u00edlia. Tem sido a solidariedade familiar, que se traduz em solidariedade entre gera\u00e7\u00f5es, em muitos casos, o primeiro e mais seguro apoio de quem se v\u00ea a bra\u00e7os com o desemprego, ou a queda abrupta de rendimentos, com a consequente incapacidade de fazer face a compromissos assumidos que se destinam \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades familiares essenciais, como a da habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas esse apoio n\u00e3o \u00e9 suficiente. A crise tamb\u00e9m evidencia que a comunh\u00e3o e solidariedade que se vivem no seio da fam\u00edlia n\u00e3o pode limitar-se ao seu \u00e2mbito interno. A fam\u00edlia n\u00e3o pode fechar-se sobre si. Esse esp\u00edrito de comunh\u00e3o e solidariedade deve partir da fam\u00edlia e alargar-se \u00e0 sociedade inteira. Deve traduzir-se na entreajuda entre v\u00e1rias fam\u00edlias. As experi\u00eancias de muitas comunidades crist\u00e3s s\u00e3o j\u00e1 disso testemunho, mas n\u00e3o \u00e9 demais salientar a necessidade de se multiplicarem essas experi\u00eancias de partilha entre fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Na raiz da crise que atravessamos est\u00e3o fracassos de um modelo econ\u00f3mico assente na maximiza\u00e7\u00e3o do lucro e do consumo. Afirma Bento XVI na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano (n. 5): \u00abO modelo que prevaleceu nas \u00faltimas d\u00e9cadas apostava na busca da maximiza\u00e7\u00e3o do lucro e do consumo, numa \u00f3tica individualista e ego\u00edsta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta \u00e0s exig\u00eancias da competitividade. Olhando de outra perspetiva, por\u00e9m, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a d\u00e1diva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da pr\u00f3pria capacidade de iniciativa, j\u00e1 que o desenvolvimento econ\u00f3mico suport\u00e1vel, isto \u00e9, autenticamente humano tem necessidade do princ\u00edpio da gratuidade como express\u00e3o de fraternidade e da l\u00f3gica do dom\u00bb.<\/p>\n<p>A gratuidade t\u00edpica das rela\u00e7\u00f5es familiares deve servir de modelo para este novo paradigma de desenvolvimento econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia e a abertura \u00e0 vida<\/p>\n<p>4. Talvez o mais eloquente sinal de que a crise da institui\u00e7\u00e3o familiar se traduz em malef\u00edcios sociais seja o da crise demogr\u00e1fica, que muitos consideram o mais grave dos problemas sociais das sociedades europeias, numa perspetiva do seu futuro mais ou menos pr\u00f3ximo. As \u00faltimas estat\u00edsticas apontam Portugal como um dos pa\u00edses com mais baixa taxa de natalidade em todo o mundo.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia abre-se, por des\u00edgnio natural, \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Poder\u00e1 parecer irrealista salientar a import\u00e2ncia desta abertura \u00e0 vida no atual contexto social, em que o desemprego e a precariedade laboral atingem de modo particular os jovens. Este facto deve levar-nos a n\u00e3o nos resignarmos com esta situa\u00e7\u00e3o, como se ela fosse inevit\u00e1vel, como se a economia n\u00e3o devesse estar ao servi\u00e7o da pessoa humana, e fosse a pessoa humana a dever sujeitar-se \u00e0s exig\u00eancias da economia. Salienta Bento XVI na enc\u00edclica Caritas in veritate (n. 25), a prop\u00f3sito da instabilidade laboral, que quando \u00abse torna end\u00e9mica a incerteza sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, resultante dos processos de mobilidade e desregulamenta\u00e7\u00e3o, geram-se formas de instabilidade psicol\u00f3gica, com dificuldade a construir percursos coerentes na pr\u00f3pria vida, incluindo o percurso rumo ao matrim\u00f3nio\u00bb.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, a crise que atravessamos tamb\u00e9m \u00e9 reflexo da crise demogr\u00e1fica. Numa sociedade em envelhecimento, as despesas p\u00fablicas ser\u00e3o cada vez maiores em pens\u00f5es, sa\u00fade, etc., e as receitas cada vez menores. Assim, o financiamento do Estado h\u00e1 de ser cada vez mais problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u00c9 claro o bem que representa hoje a maior longevidade, o facto de os idosos viverem mais tempo do que noutras \u00e9pocas. O que \u00e9 problem\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 isso; n\u00e3o h\u00e1 idosos \u201ca mais\u201d, porque estes s\u00e3o sempre uma riqueza, e nunca um peso. O que \u00e9 problem\u00e1tico e causa desequil\u00edbrios \u00e9 que n\u00e3o nas\u00e7am crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Afirma ainda Bento XVI na enc\u00edclica Caritas in veritate (n. 44): \u00abA abertura moralmente respons\u00e1vel \u00e0 vida \u00e9 uma riqueza social e econ\u00f3mica. (\u2026) A diminui\u00e7\u00e3o dos nascimentos, situando-se por vezes abaixo do chamado \u201c\u00edndice de substitui\u00e7\u00e3o\u201d, p\u00f5e em crise tamb\u00e9m os sistemas de assist\u00eancia social, aumenta os seus custos, contrai a acumula\u00e7\u00e3o de poupan\u00e7as e, consequentemente, os recursos financeiros necess\u00e1rios para os investimentos, reduz a disponibiliza\u00e7\u00e3o de trabalhadores qualificados, restringe a reserva aonde ir buscar os \u201cc\u00e9rebros\u201d para as necessidades da na\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, as fam\u00edlias de pequena e, \u00e0s vezes, pequen\u00edssima dimens\u00e3o correm o risco de empobrecer as rela\u00e7\u00f5es sociais e de n\u00e3o garantir formas eficazes de solidariedade. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que apresentam sintomas de escassa confian\u00e7a no futuro e de cansa\u00e7o moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo econ\u00f3mica, continuar a propor \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es a beleza da fam\u00edlia e do matrim\u00f3nio, a correspond\u00eancia de tais institui\u00e7\u00f5es \u00e0s exig\u00eancias mais profundas do cora\u00e7\u00e3o e da dignidade da pessoa. Nesta perspetiva, os Estados s\u00e3o chamados a instaurar pol\u00edticas que promovam a centralidade e a integridade da fam\u00edlia, fundada no matrim\u00f3nio entre um homem e uma mulher, c\u00e9lula primeira e vital da sociedade, preocupando-se tamb\u00e9m com os seus problemas econ\u00f3micos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional\u00bb.<\/p>\n<p>Ajudam a combater a crise da natalidade medidas fiscais, que promovam o emprego juvenil, ou que facilitem a concilia\u00e7\u00e3o entre o trabalho e a vida familiar. Mas o contributo decisivo para vencer a crise demogr\u00e1fica situa-se no plano da cultura e da mentalidade. H\u00e1 que superar o \u201ccansa\u00e7o moral\u201d e a \u201cfalta de confian\u00e7a no futuro\u201d a que alude a enc\u00edclica Caritas in veritate. Saber que a vida \u00e9 sempre um dom que compensa todos os sacrif\u00edcios \u2013 s\u00f3 com esta consci\u00eancia pode ser vencida a crise da natalidade.<\/p>\n<p>Qualquer mensagem de desvaloriza\u00e7\u00e3o da vida humana acarreta consequ\u00eancias negativas a este respeito. Uma delas \u2013 sem d\u00favida a mais grave \u2013 \u00e9 o aborto e sua banaliza\u00e7\u00e3o a que vimos assistindo entre n\u00f3s com a cobertura da lei vigente. Afirma, ainda, sobre esta quest\u00e3o, a Caritas in veritate (n. 28): \u00abQuando uma sociedade come\u00e7a a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motiva\u00e7\u00f5es e energias necess\u00e1rias para trabalhar ao servi\u00e7o do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham tamb\u00e9m outras formas de acolhimento \u00fateis \u00e0 vida social. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda rec\u00edproca\u00bb.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia, um projeto duradouro<\/p>\n<p>5. Para vencer a crise demogr\u00e1fica, como em rela\u00e7\u00e3o a muitos outros aspetos relativos \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o social, h\u00e1 que acreditar na fam\u00edlia como um projeto duradouro, assente num compromisso de doa\u00e7\u00e3o total e n\u00e3o na volatilidade dos sentimentos. S\u00f3 nesse contexto \u00e9 razo\u00e1vel a decis\u00e3o de ter filhos. Se a sa\u00fade e coes\u00e3o da sociedade dependem da sa\u00fade e coes\u00e3o da fam\u00edlia, esta est\u00e1 estritamente ligada \u00e0 sua estabilidade.<\/p>\n<p>Vai-se generalizando, por\u00e9m, a op\u00e7\u00e3o por formas de conviv\u00eancia marital prec\u00e1ria, que recusam esse compromisso; tal como \u00e9 cada vez mais frequente o recurso ao div\u00f3rcio, o que a legisla\u00e7\u00e3o vigente tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de facilitar em extremo.<\/p>\n<p>Salienta, a este respeito, a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Familiaris consortio (n. 11), de Jo\u00e3o Paulo II, que \u00aba sexualidade diz respeito ao n\u00facleo \u00edntimo da pessoa humana\u00bb e se realiza \u00abde maneira verdadeiramente humana, somente se \u00e9 parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro at\u00e9 \u00e0 morte\u00bb. A doa\u00e7\u00e3o f\u00edsica total \u00e9 verdadeira s\u00f3 na medida em que envolve toda a pessoa, tamb\u00e9m na sua dimens\u00e3o temporal, com a comunh\u00e3o de projetos para o futuro: \u00abse a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, s\u00f3 por isto j\u00e1 n\u00e3o se doaria totalmente\u00bb. Esta totalidade corresponde tamb\u00e9m \u00e0s exig\u00eancias de uma fecundidade respons\u00e1vel, a qual sup\u00f5e o contributo cont\u00ednuo do pai e da m\u00e3e para o crescimento harmonioso dos filhos.<\/p>\n<p>Por isso, ainda segundo essa exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica (n. 11), \u00abo \u201clugar\u201d \u00fanico, que torna poss\u00edvel esta doa\u00e7\u00e3o segundo a sua verdade total, \u00e9 o matrim\u00f3nio\u00bb. Este \u00abn\u00e3o \u00e9 uma inger\u00eancia indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposi\u00e7\u00e3o extr\u00ednseca de uma forma, mas uma exig\u00eancia interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como \u00fanico e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao des\u00edgnio de Deus Criador\u00bb. Esta fidelidade n\u00e3o mortifica a liberdade da pessoa, \u00abp\u00f5e-na em seguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao subjetivismo e relativismo, f\u00e1-la participante da Sabedoria Criadora\u00bb.<\/p>\n<p>A esta luz, n\u00e3o \u00e9 demais lembrar a responsabilidade que representa a prepara\u00e7\u00e3o, mais remota e mais pr\u00f3xima, para o casamento. Uma prepara\u00e7\u00e3o que envolve as fam\u00edlias, as inst\u00e2ncias educativas e a Igreja.<\/p>\n<p>Importa, ainda, salientar como, tamb\u00e9m neste aspeto, deve evitar-se que cada fam\u00edlia se veja sozinha a enfrentar dificuldades que possam conduzir \u00e0 rutura. A experi\u00eancia de um casal que soube superar as suas dificuldades de relacionamento pode servir de ajuda para outros que se confrontam com essas dificuldades. Experi\u00eancias de entreajuda entre fam\u00edlias neste campo tamb\u00e9m devem multiplicar-se no \u00e2mbito das comunidades crist\u00e3s.<\/p>\n<p>E se \u00e9 verdade que a Igreja nunca deixar\u00e1 de proclamar a indissolubilidade do casamento, antes de mais perante quem se prepara para o contrair, tal n\u00e3o pode significar insensibilidade ou indiferen\u00e7a perante o sofrimento de quem experimentou um fracasso matrimonial, independente de qualquer ju\u00edzo de culpa, que at\u00e9 pode nem existir. A Igreja acolhe e acompanha com solicitude essas pessoas.<\/p>\n<p>Olhamos com simpatia e apre\u00e7o os movimentos e institui\u00e7\u00f5es que se preocupam e dedicam \u00e0 fam\u00edlia, encarnando o amor de Deus e manifestando-lhe o rosto am\u00e1vel da Igreja.<\/p>\n<p>A sociedade \u00e0 imagem da fam\u00edlia<\/p>\n<p>6. Muitas vezes a fam\u00edlia \u00e9 encarada como um ref\u00fagio que protege de um ambiente hostil da sociedade que nos rodeia, um o\u00e1sis de harmonia no meio do deserto, um espa\u00e7o de humaniza\u00e7\u00e3o no meio de um mundo desumanizado. E \u00e9 assim de facto. Mas tamb\u00e9m podemos encarar a fam\u00edlia de outra perspetiva: como a fonte e o fermento de onde parte a renova\u00e7\u00e3o da sociedade. \u00c9 assim atrav\u00e9s dos filhos, que se devem proteger das m\u00e1s influ\u00eancias da sociedade, mas que tamb\u00e9m a esta podem dar muito do que recebem na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Os valores que se vivem na fam\u00edlia \u2013 a pessoa amada e acolhida como ser \u00fanico e irrepet\u00edvel, o amor gratuito, a solidariedade espont\u00e2nea, a autoridade como servi\u00e7o, o valor do doente e do idoso, a alian\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o e da inova\u00e7\u00e3o, a unidade e complementaridade das dimens\u00f5es masculina e feminina, a fidelidade e o compromisso \u2013 devem estender-se, por seu interm\u00e9dio, a toda a sociedade: \u00e0s empresas, aos servi\u00e7os p\u00fablicos, \u00e0s escolas e hospitais, \u00e0s comunidades eclesiais, \u00e0s associa\u00e7\u00f5es. A fam\u00edlia \u00e9 o modelo, o dever ser de qualquer conviv\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Num contexto de crise econ\u00f3mica e social, que para muitos se traduz em desalento e falta de perspetivas de futuro, \u00e9 esta a mensagem que queremos transmitir, como ant\u00eddoto a esse desalento e como ajuda \u00e0 supera\u00e7\u00e3o dessa crise: que a fam\u00edlia seja reconhecida e apoiada na miss\u00e3o social que s\u00f3 ela pode desempenhar.<\/p>\n<p>F\u00e1tima, 11 de abril de 2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24273,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-22231","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-igreja"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22231"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22231\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24272,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22231\/revisions\/24272"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}