{"id":22240,"date":"2013-03-13T17:36:00","date_gmt":"2013-03-13T17:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22240"},"modified":"2013-03-13T17:36:00","modified_gmt":"2013-03-13T17:36:00","slug":"uma-verdade-finalmente-a-descoberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-verdade-finalmente-a-descoberto\/","title":{"rendered":"Uma verdade finalmente a descoberto"},"content":{"rendered":"<p>Afinal a Igreja \u00e9 orientada por pessoas normais que envelhecem, se cansam, adoecem, pedem ajuda, acertam e erram. O gesto de Bento XVI p\u00f4s a descoberto, n\u00e3o com teorias mas como testemunho que, realmente, assim \u00e9. Durante s\u00e9culos a Igreja teve a preocupa\u00e7\u00e3o de mostrar o contr\u00e1rio, mesmo quando as mazelas dos hierarcas se tornavam patentes. Nestes parecia que tudo era virtude, for\u00e7a, coragem, bondade, hero\u00edsmo. \u00c9 verdade que isto foi tamb\u00e9m real em rela\u00e7\u00e3o a muitos papas e bispos, tal como o narra a hist\u00f3ria. Por\u00e9m, mazelas n\u00e3o faltaram e, sempre que algu\u00e9m aparecia menos perfeito, logo se procurava a quem culpar. Se os ataques e as cr\u00edticas eram justificados, logo se falava dos inimigos da Igreja. <\/p>\n<p>Ver um padre ou um bispo a confessar-se, como qualquer crist\u00e3o, deixava as pessoas perplexas, pois que, habitualmente, n\u00e3o o faziam em p\u00fablico. O padre \u00e9 confessor, n\u00e3o \u00e9 pecador\u2026 N\u00e3o convinha que se mostrasse como tal.<\/p>\n<p>H\u00e1 um tempo, porque muitos teimavam no mesmo sentido, Deus foi permitindo, para purifica\u00e7\u00e3o da Igreja, verdade da sua imagem e bem da sua miss\u00e3o, que pecados ocultos se tornassem conhecidos, que dos julgados intoc\u00e1veis se vissem os p\u00e9s de barro, que a riqueza da normalidade humana se manifestasse nos homens da Igreja. Por fim, que um Papa dissesse \u00e0 Igreja, com eco inevit\u00e1vel na sociedade, que a sua idade e debilidade, o levavam, em consci\u00eancia, a concluir que j\u00e1 n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es para conduzir a Igreja e cedia livremente o seu lugar, para que outro pudesse ser, de modo pleno e permanente, servidor fiel do Povo de Deus. <\/p>\n<p>O mundo parou a admirar e a agradecer este gesto prof\u00e9tico, que repunha os respons\u00e1veis da Igreja no plano da verdade. Se recuarmos umas d\u00e9cadas veremos que houve dioceses com bispos idosos e doentes, sem condi\u00e7\u00f5es de as conduzir a bom termo. Situa\u00e7\u00f5es que causaram muitos estragos pastorais. Ent\u00e3o o bispo, tal como o Papa, era para sempre. O Vaticano II, regressando ao Evangelho, deixou claro que, na Igreja, a hierarquia n\u00e3o \u00e9 poder, mas servi\u00e7o. Logo se introduziram normas para evitar situa\u00e7\u00f5es, tanto de bispos como de padres \/ p\u00e1rocos, que levassem as comunidades crist\u00e3s a becos sem sa\u00edda. Marcou-se idade para apresentar a resigna\u00e7\u00e3o, embora sem considera\u00e7\u00e3o concreta pela situa\u00e7\u00e3o de cada um. Caiu-se, ent\u00e3o, na dispensa autom\u00e1tica de muita gente v\u00e1lida, mas a lei n\u00e3o atingia o Papa. Pela car\u00eancia de padres, muitos deles, com idade avan\u00e7ada e acusando limita\u00e7\u00f5es, continuaram \u00e0 frente de par\u00f3quias com muitos problemas e n\u00e3o poucas exig\u00eancias pastorais. Pude ver o Papa incomodado ao falar a bispos em\u00e9ritos mais novos do que ele, foi o meu caso, e sinto, como bispo, igual inc\u00f3modo ao ver p\u00e1rocos mais velhos do que eu, ainda carregados com responsabilidades pastorais, significativas e exigentes.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo II, que se manteve l\u00facido at\u00e9 ao fim, quis, mesmo com um manifesto desgaste, dar testemunho de um servi\u00e7o sem prazos e do respeito que merecem os mais velhos, que a sociedade arruma, sem amor nem gratid\u00e3o. E \u00e9 de respeitar a sua op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada, por\u00e9m, vai ficar na mesma depois do gesto de Bento XVI que, como \u00e9 \u00f3bvio, n\u00e3o abriu caminho \u00e0 inutilidade, sua e dos em iguais circunst\u00e2ncias, mas recordando o sentido do servi\u00e7o na Igreja. Disse que h\u00e1 outras maneiras de servir o Povo de Deus, que, n\u00e3o sendo em lugares de comando, s\u00e3o presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o fraterna, a estimular e a agradecer. A Igreja \u00e9 comunidade pessoas, n\u00e3o de personagens. Na vida concreta todos podem e devem servir, cada um segundo as suas capacidades. N\u00e3o se pode arrumar ningu\u00e9m, nem ningu\u00e9m se pode arrumar a si pr\u00f3prio. Persiste para um hierarca, at\u00e9 ao fim da vida, a fonte de onde dimana a voca\u00e7\u00e3o, a capacidade e o dever de servidor: o Batismo e o sacramento da Ordem.<\/p>\n<p>Tudo isto recomenda que, ao pensarmos no novo Papa, n\u00e3o o endeusemos, e nos dispamos de sentimentos de messianismo ou do pensamento de que a Igreja s\u00f3 avan\u00e7a com pessoas ultra perfeitas. A Igreja dos crentes, comunidade que, pela sua f\u00e9, beneficia da gra\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo, estar\u00e1 sempre ao servi\u00e7o da edifica\u00e7\u00e3o do Reino, com pessoas de muita f\u00e9, mas pessoas normais. Esta edifica\u00e7\u00e3o far-se-\u00e1 sempre e s\u00f3, em comunh\u00e3o, com a for\u00e7a de Deus e as limita\u00e7\u00f5es humanas. Tudo isto tem luz pr\u00f3pria a partir do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o. Para realizar a Obra salv\u00edfica do Pai, Jesus aceitou as limita\u00e7\u00f5es da natureza humana, pediu ajuda e Ele mesmo foi a m\u00e3o estendida aos que dela precisavam. E escolheu para lhe suceder gente simples e normal a come\u00e7ar por Pedro, o pescador.<\/p>\n<p>Nunca antes foi t\u00e3o clara esta exig\u00eancia de verdade que se tornou condi\u00e7\u00e3o cred\u00edvel da Igreja e da sua miss\u00e3o no mundo. Humanizando ou evangelizando, nunca o poder\u00e1 fazer sen\u00e3o com a luz da f\u00e9, as vestes da normalidade e o testemunho da verdade. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afinal a Igreja \u00e9 orientada por pessoas normais que envelhecem, se cansam, adoecem, pedem ajuda, acertam e erram. O gesto de Bento XVI p\u00f4s a descoberto, n\u00e3o com teorias mas como testemunho que, realmente, assim \u00e9. 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