{"id":22251,"date":"2013-04-17T16:32:00","date_gmt":"2013-04-17T16:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22251"},"modified":"2013-04-17T16:32:00","modified_gmt":"2013-04-17T16:32:00","slug":"interpelacao-do-papa-a-igreja-e-toda-a-hierarquia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/interpelacao-do-papa-a-igreja-e-toda-a-hierarquia\/","title":{"rendered":"Interpela\u00e7\u00e3o do Papa \u00e0 Igreja e toda a hierarquia"},"content":{"rendered":"<p>Com toda aquela corte de gente a rode\u00e1-lo, cardeais, bispos, monsenhores e padres a sonhar carreira na C\u00faria Romana, que continuam com as suas vestes coloridas e vistosas, e a n\u00e3o quererem mudar, como se sentir\u00e1 o Papa Francisco? Com o desconforto de quem espera? Com a normal compreens\u00e3o e paci\u00eancia de quem respeita? Mais voltado para mostrar que para falar? Todas as hip\u00f3teses se podem formular. Mas a pergunta \u00e9 pertinente, dado que ele optou, desde o primeiro momento, pela simplicidade no viver, no vestir, no cal\u00e7ar, no comunicar, no relacionar-se, como que a querer dizer que coisas sup\u00e9rfluas e vistosas que choquem n\u00e3o s\u00e3o com ele e a sua op\u00e7\u00e3o \u00e9 a simplicidade e a disponibilidade de quem serve.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma certa tend\u00eancia hist\u00f3rica na Igreja de perpetuar costumes e tradi\u00e7\u00f5es alheios ao Evangelho, fruto de mentalidades que traduzem por essa via, a import\u00e2ncia do cargo e o prest\u00edgio da pessoa. Deixem-me dar um exemplo. Em 1975, j\u00e1 se vivia o ap\u00f3s Conc\u00edlio, tive de ver a lista tradicional para comprar as vestes episcopais. Recusei algumas que nunca ou s\u00f3 raramente vestiria. Quem vendia achou esquisita a minha op\u00e7\u00e3o. E a capa magna vermelha, por exemplo, ficou \u00e0 espera de outro comprador. Uma vez, ainda em Lisboa exigiram-ma, para uma cerim\u00f3nia \u201csolen\u00edssima\u201d na Universidade Cat\u00f3lica. Logo houve quem ma emprestasse. Tratava-se de ato a que n\u00e3o me podia, a meu gosto, furtar. O Cardeal Patriarca queria a presen\u00e7a de todos os seus bispos auxiliares e tinha de ser com capa vermelha, como mandava o protocolo.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a op\u00e7\u00e3o muito clara, ainda veio na remessa uma coisa que nunca usei, e que nunca me fez falta. Foi o barrete eclesi\u00e1stico vermelho. O b\u00e1culo \u00e9 um pau com uma pequena incrusta\u00e7\u00e3o cer\u00e2mica; a cruz peitoral, de igual mat\u00e9ria e jeito; de ouro s\u00f3 o anel da ordena\u00e7\u00e3o, oferta do meu bispo, e que raramente uso. Um, muito simples, de prata, foi oferta dos meus sobrinhos. \u00c9 esse que uso habitualmente.<\/p>\n<p>Armas episcopais, a que prop\u00f3sito, se as dioceses t\u00eam as suas? Outros bispos de ent\u00e3o seguiram igual caminho, recomendado pelo esp\u00edrito do Vaticano II. N\u00e3o sou melhor, mas era preciso tomar o Conc\u00edlio a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>O Papa Francisco disse, logo ao come\u00e7ar, que a \u201csua\u201d Igreja era pobre e dos pobres. Aos pobres n\u00e3o se pregam serm\u00f5es, nem se fazem confer\u00eancias. Vai-se a eles com simplicidade, sem fot\u00f3grafos nem batedores, sem jornalistas nem mirones. Ouvem-se, ajudam-se, respeitam-se, d\u00e1-se-lhes coragem, faz-se tudo o que podemos para superar as suas dificuldades, de modo a recobrarem o sentido da vida e a alegria de se verem vivos e amados. Os pobres n\u00e3o se sentem bem, nem est\u00e3o \u00e0 vontade, quando visitados de um modo que n\u00e3o se pare\u00e7a com eles. Quem serve adapta-se. Foi o que fez o Papa. N\u00e3o anunciou prop\u00f3sitos, n\u00e3o deu ordens, fez gestos que de que todos entenderam o sentido e o alcance das suas op\u00e7\u00f5es. E o mundo, vivo e atento, os crentes e os afastados, todos os famintos de verdade e da autenticidade, ansiosos por ver na Igreja os tra\u00e7os de Jesus Cristo, entendem, ganham \u00e2nimo e agradecem.  <\/p>\n<p>Igreja pobre e dos pobres n\u00e3o \u00e9 frase inventada pelo Papa Francisco. Ele j\u00e1 vivia nessa t\u00f3nica, antes de ser eleito. Na Am\u00e9rica Latina, continente de muita pobreza, a frase ganhou mais sentido, a partir do Encontro de Puebla, em 1979. Est\u00e1 a\u00ed a refer\u00eancia clara ao bispo Helder C\u00e2mara, que acolhia na casa episcopal, uma sacristia transformada em resid\u00eancia, os mais pobres do Recife. Igreja pobre foi express\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII no rumo que procurou para a Igreja conciliar. Veio para o presente o testemunho de Francisco de Assis, Jo\u00e3o de Deus, Vicente de Paulo, o Cotolengo de Turim, Frederico Ozanam, Padre Am\u00e9rico\u2026 Foi palavra feita vida por Charles de Foucauld, Teresa de Calcut\u00e1, Criaditas dos Pobres, Irm\u00e3zinhas de Jesus, e por milhares de homens e mulheres, de ontem e de hoje, para quem a pobreza \u00e9 servi\u00e7o e comunh\u00e3o viva com os mais pobres da sociedade.<\/p>\n<p>O Papa lan\u00e7ou um desafio \u00e0 Igreja de Roma e \u00e0 dos pa\u00edses mais ricos, a que n\u00e3o deve ser dif\u00edcil responder. A ostenta\u00e7\u00e3o \u00e9 provoca\u00e7\u00e3o, bem como o gastar, sem outros horizontes que os pessoais ou locais, e o esbanjar o sup\u00e9rfluo. Tudo isto \u00e9 hoje e mais ainda entre crist\u00e3os, sinal insensibilidade ao Evangelho. A Igreja pobre e dos pobres sente-se obrigada a ponderar os seus gastos e a sentir-se incomodada pelo clamor dos pobres. O exemplo tem de vir de cima. De cardeais, bispos e padres. H\u00e1 muitas coisas a alijar, dispens\u00e1veis e provocantes, a come\u00e7ar pelas vestes e os adere\u00e7os de luxo, as casas e os autom\u00f3veis, e a continuar com as despesas, n\u00e3o urgentes, nem priorit\u00e1rias. Ao Papa Francisco n\u00e3o interessa deslumbrar com os seus gestos. A sua miss\u00e3o a favor dos pobres apenas mostra caminhos que ele anda, com alegria e de maneira discreta.          <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com toda aquela corte de gente a rode\u00e1-lo, cardeais, bispos, monsenhores e padres a sonhar carreira na C\u00faria Romana, que continuam com as suas vestes coloridas e vistosas, e a n\u00e3o quererem mudar, como se sentir\u00e1 o Papa Francisco? Com o desconforto de quem espera? Com a normal compreens\u00e3o e paci\u00eancia de quem respeita? 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