{"id":22288,"date":"2011-03-09T10:18:00","date_gmt":"2011-03-09T10:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22288"},"modified":"2011-03-09T10:18:00","modified_gmt":"2011-03-09T10:18:00","slug":"a-arvore-de-zaqueu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-arvore-de-zaqueu\/","title":{"rendered":"A \u00c1rvore de Zaqueu"},"content":{"rendered":"<p>\u00abBra\u00e7o de ferro\u00bb <!--more--> J\u00e1 no tempo de Ad\u00e3o, a culpa morria solteira. N\u00e3o foi ele \u2013 foi a mulher; n\u00e3o foi a mulher \u2013 foi a cobra. \u00c9 verdade que a cobra n\u00e3o se desculpou, mas certamente por n\u00e3o pertencer ao rec\u00e9m-criado \u00abg\u00e9nero humano\u00bb: s\u00f3 a este foi concedido o dom de n\u00e3o se perceber a si pr\u00f3prio, de se perturbar com os seus desejos e o caminho das suas ac\u00e7\u00f5es, de n\u00e3o se querer aceitar como respons\u00e1vel, de recalcar pensamentos e sentimentos, de mentir&#8230; <\/p>\n<p>A primeira leitura omite esta passagem cheia de atrevimentos e culpabilidade: concentra-se no tema da tenta\u00e7\u00e3o. Eva e Ad\u00e3o n\u00e3o resistiram a comer do fruto da \u00ab\u00e1rvore da ci\u00eancia do bem e do mal\u00bb, contra o preceito divino. Mas havia muito boas raz\u00f5es para o comerem: observaram que o fruto n\u00e3o s\u00f3 era altamente nutritivo (\u00abbom para comer\u00bb) como tamb\u00e9m tinha o valor da beleza e de tornar a intelig\u00eancia ainda mais luminosa. Escolheram racionalmente, mas, como humanos que j\u00e1 eram, n\u00e3o ter\u00e3o considerado devidamente todos os factores condicionantes da escolha. Sa\u00edram mal no \u00abbra\u00e7o de ferro\u00bb.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 ao entusiasmo de ultrapassar barreiras, que o g\u00e9nero humano, simbolizado nas figuras m\u00edticas de Ad\u00e3o e Eva, deve a conquista dos h\u00e1bitos \u201ccivilizados\u201d, afastando-se cada vez mais da simplicidade dos outros animais, por mais refinado que pare\u00e7a o seu instinto. (Este texto \u00e9 por vezes objecto de interpreta\u00e7\u00f5es demasiado pessimistas). <\/p>\n<p>O autor do Livro do G\u00e9nesis procurou, com a linguagem da sua \u00e9poca, explicar coisas t\u00e3o estranhas como a exist\u00eancia do mal, a tend\u00eancia para escolhas m\u00e1s, e ao mesmo tempo a tend\u00eancia para superar cada vez mais a \u201csimples natureza\u201d por meio de uma nova natureza: a cultura humana, com toda a sua ambiguidade. Ad\u00e3o e Eva agiram livremente, porque Deus os criou como seres livres e s\u00f3 eles respons\u00e1veis pelas escolhas que fizessem. Por isso, se nos debatemos com o mist\u00e9rio do mal, est\u00e1 em causa a nossa responsabilidade.<\/p>\n<p>No evangelho, outro homem aguenta o \u00abbra\u00e7o de ferro\u00bb. O significado primeiro de \u00abtenta\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 \u00abser posto \u00e0 prova\u00bb (de \u00abtentar\u00bb, esfor\u00e7ar-se, donde deriva \u00abtentativa\u00bb). No deserto, enfrenta o desejo humano pelas honras, pela gl\u00f3ria, pelo poder, pela \u00abdolce vita\u00bb. Podia escolher n\u00e3o anunciar o reino de Deus para se anunciar a si pr\u00f3prio, fazendo gala dos seus dons pessoais. Mas escolheu dedicar a vida a proclamar a mensagem de Deus, a verdade, at\u00e9 \u00e0 morte. O evangelista diz que Jesus se valeu, durante o \u00abdespique\u00bb, de cita\u00e7\u00f5es da \u00abpalavra divina\u00bb nas Escrituras, que lhe deram a Autoridade e a For\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Na segunda leitura, S. Paulo comp\u00f5e todo um quadro com as personagens de Ad\u00e3o e Jesus. Estrategicamente, era de toda a conveni\u00eancia estabelecer \u00aba continuidade na ruptura\u00bb entre o juda\u00edsmo fortemente enraizado e o nascente cristianismo. Ali\u00e1s, esta e outras passagens de cartas suas dizem muito pouco aos nossos dias, de tal modo assentam na casu\u00edstica entre judeus e crist\u00e3os. Diga-se, mesmo, que certos textos de S. Paulo n\u00e3o deveriam ser lidos na liturgia dominical: dificultam demasiado a percep\u00e7\u00e3o do sentido mais profundo que realmente importa, e pode at\u00e9 contribuir para o afastamento de pessoas que procuram a luz de Deus. A sua leitura s\u00f3 seria \u00fatil num grupo de reflex\u00e3o e discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>S. Paulo explora a contraposi\u00e7\u00e3o entre a \u00abantiga alian\u00e7a\u00bb e a \u00abnova alian\u00e7a\u00bb.  A \u00abantiga alian\u00e7a\u00bb (ou \u00abvelho testamento\u00bb) \u00e9 o reflexo da aventura da rela\u00e7\u00e3o  entre o amor e justi\u00e7a de Deus com a fraqueza humana desejosa desse amor e justi\u00e7a, mas afastando-se tantas vezes. A fraqueza humana \u00e9 \u201cexplicada\u201d pelo mito de Ad\u00e3o e Eva, v\u00edtimas de um \u201cerro de c\u00e1lculo\u201d. Com Jesus Cristo, tem in\u00edcio a \u00absegunda cria\u00e7\u00e3o\u00bb da Humanidade. Se a imperfei\u00e7\u00e3o humana trouxe e traz tantas consequ\u00eancias nefastas, qual n\u00e3o ser\u00e1 a for\u00e7a da perfei\u00e7\u00e3o divina manifesta em Jesus? E fic\u00e1mos a saber \u00abuns truques\u00bb no \u00abbra\u00e7o de ferro\u00bb com as for\u00e7as do mal\u2026\t <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abBra\u00e7o de ferro\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-22288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22288\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}