{"id":22292,"date":"2011-03-09T10:22:00","date_gmt":"2011-03-09T10:22:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22292"},"modified":"2011-03-09T10:22:00","modified_gmt":"2011-03-09T10:22:00","slug":"jornais-da-igreja-e-horizonte-eclesial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/jornais-da-igreja-e-horizonte-eclesial\/","title":{"rendered":"Jornais da Igreja e horizonte eclesial"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 42 anos, o Bispo do Porto, ao tempo D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, rebaptizou o jornal da diocese, que se intitulava \u201cA Voz do Pastor\u201d, para lhe chamar \u201c A Voz Portucalense\u201d. Pretendeu dizer que queria que o jornal diocesano fosse uma voz da Igreja do Porto ao servi\u00e7o da forma\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o de todos, e n\u00e3o simplesmente a voz do Bispo da Diocese. O jornal ganhou novo f\u00f4lego, alargou o seu horizonte para al\u00e9m do templo, passou a falar mais da vida e daquilo que o Evangelho lhe dizia. Multiplicaram as assinaturas pelo pa\u00eds e, de norte a sul, o jornal era esperado, lido com interesse e comentado pelo seu conte\u00fado. Os temas significavam o modo novo de a Igreja estar, ver e falar \u00e0 sociedade. Poucos assuntos do templo, mais assuntos da vida e da sociedade a interpelar os crist\u00e3os e a abrir caminho para os que ainda pensavam a Igreja como coisa de padres e de ritos religiosos. Assim se foi vendo que a Igreja, pela sua miss\u00e3o prof\u00e9tica e humanizadora, tinha algo de novo a dizer e tinha de o saber comunicar. Por isto, devia ser capaz de escutar, observar, ler e comunicar a partir da vida, dos problemas e dos projectos das pessoas e da sociedade. <\/p>\n<p>Os jornais di\u00e1rios eram das grandes cidades. Os pequenos eram os jornais da prov\u00edncia. Alguns destes ligados a pessoas ou a grupos de interesse local. Sempre muito lidos pela gente que j\u00e1 sabia ler e, tamb\u00e9m, pelos nossos emigrantes na Europa e nas Am\u00e9ricas. Com os pequenos jornais se fomentou a proximidade com as pessoas e com as popula\u00e7\u00f5es. Uma proximidade que se estendeu at\u00e9 aos de mais longe, que viam no jornal da sua terra uma maneira concreta de manterem com ela contacto e interesse pelo que ali se passava. Os jornais eram, normalmente, mais regionais que religiosos, mesmo os de institui\u00e7\u00f5es da Igreja. A sua publica\u00e7\u00e3o constitu\u00eda uma maneira concreta de servir as popula\u00e7\u00f5es. A Igreja foi pioneira, embora n\u00e3o \u00fanica, junto dos emigrantes e das popula\u00e7\u00f5es, nesta aten\u00e7\u00e3o aos problemas das comunidades locais, por meio dos seus \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Acontece, por\u00e9m, pelo modo como se entendia a ac\u00e7\u00e3o evangelizadora tradicional e porque havia outros jornais regionais a preocupar-se com as not\u00edcias da terra, aos jornais da Igreja, dirigidos normalmente por padres, era-lhes mais f\u00e1cil tratar temas religiosos e dar not\u00edcias dos actos cultuais das par\u00f3quias. Sem a leitura da vida e a reflex\u00e3o que a mesma exige, muitos jornais se foram assim tornando \u201cjornais do templo\u201d. Menos sens\u00edveis \u00e0s mudan\u00e7as na vida das pessoas e das comunidades, ficaram assim menos capazes de fazer uma leitura crist\u00e3 da realidade, descurando o modo de apresentar o Evangelho, como uma luz e uma for\u00e7a na ordena\u00e7\u00e3o da sociedade. Alguns jornais da Igreja passaram a ter menos leitores, a ser indiferentes aos n\u00e3o praticantes e in\u00f3cuos, pelo seu contributo, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o das pessoas, das comunidades e dos valores morais e \u00e9ticos, cada vez mais esquecidos e vilipendiados. Alguma imprensa regional da Igreja, por\u00e9m, pelo seu profetismo e coragem de den\u00fancia, incomodou muito os revolucion\u00e1rios de Abril, que a classificavam como uma intoxica\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es e um trav\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o. Um pequeno jornal, \u201cO Amigo do Povo\u201d, sempre corajoso e directo, fez engolir fogo e sapos vivos a muitos abrilistas. <\/p>\n<p>Passam-me pelas m\u00e3os muitos jornais da Igreja. E, tamb\u00e9m, outros jornais regionais, mais noticiosos que opinativos. N\u00e3o me parece, em muitos casos, uns e outros serem capazes de gerar opini\u00e3o criteriosa, demarcarem-se das guerrilhas locais e interessarem os leitores por outros horizontes, libertos do trivial.<\/p>\n<p>Voltando, por\u00e9m, aos jornais da Igreja, sinto que muitos deles ainda n\u00e3o encontraram o perfil de uma voz v\u00e1lida para os tempos que correm. Ou s\u00e3o meramente regionais, ou cheios de religi\u00e3o e de eclesi\u00e1sticos, mesmo em zonas que fervilham vida. Artigos para encher espa\u00e7o, por vezes a dizer pouco mais que nada, not\u00edcias sem interesse que outros jornais repetem. Muitos deles, apenas com uns pingos de religi\u00e3o expl\u00edcita, v\u00e3o-se ficando pela informa\u00e7\u00e3o do que se passa no templo. N\u00e3o se v\u00ea por ali especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 vida das pessoas, \u00e0s mudan\u00e7as sociais e culturais, aos sinais dos tempos, para que se lhes possa dar sentido e resposta. Artigos, que se pretendem de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3, tombam para uma religiosidade tradicional, que pouco ou nada diz do mundo plural, pol\u00edtico e religioso, onde vivem os crist\u00e3os, \u00e0s suas op\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas, ao modo de ser corajoso e prof\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o aos problemas actuais. H\u00e1, a diversos n\u00edveis, um esfor\u00e7o, para formar e ajudar a evoluir os respons\u00e1veis pelos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o. V\u00eaem-se alguns resultados, menos do que seria de esperar. As pessoas em causa, mormente quando s\u00e3o padres, depressa se tornam oficiais de mil of\u00edcios, e recorrer a leigos preparados, ainda n\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tica frequente, o que \u00e9 pena. <\/p>\n<p>O Vaticano II, em documentos conhecidos, empurra a Igreja para fora do templo. Por\u00e9m, o peso do religioso e do cultual ainda impede que se diga e comunique com outra linguagem, capaz de acordar os de dentro e fazer com que os de fora entendam a Igreja e a sua miss\u00e3o no mundo. H\u00e1 passos que se podem dar j\u00e1, como desclericalizar, o mais poss\u00edvel, a comunica\u00e7\u00e3o na Igreja. Outros ser\u00e3o mais lentos, mas n\u00e3o imposs\u00edveis. \u00c9 quest\u00e3o de se tomar a s\u00e9rio o papel da comunica\u00e7\u00e3o social, de ver os seus meios como mediadores necess\u00e1rios de evangeliza\u00e7\u00e3o, de se encontrar gente preparada e aberta para os orientar. H\u00e1 a\u00ed exemplos bons neste sentido. Mas se nada muda e depressa, ent\u00e3o tudo vai mudando para um in\u00fatil sem qualquer significado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 42 anos, o Bispo do Porto, ao tempo D. 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