{"id":22312,"date":"2011-03-30T11:01:00","date_gmt":"2011-03-30T11:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22312"},"modified":"2011-03-30T11:01:00","modified_gmt":"2011-03-30T11:01:00","slug":"a-ciencia-nao-tem-nada-para-nos-dizer-sobre-o-sentido-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-ciencia-nao-tem-nada-para-nos-dizer-sobre-o-sentido-da-vida\/","title":{"rendered":"&#8220;A ci\u00eancia n\u00e3o tem nada para nos dizer sobre o sentido da vida&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Alfredo Dinis, padre jesu\u00edta, director da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa e autor, com Jo\u00e3o Paiva, do livro \u201cEduca\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Religi\u00e3o\u201d (ed. Gradiva), foi um dos intervenientes no I Simp\u00f3sio F\u00e9 e Cultura (Aveiro, 19 de Mar\u00e7o). Nesta entrevista afirma que a ci\u00eancia n\u00e3o pode responder \u00e0s quest\u00f5es existenciais, mas reconhece que os crentes n\u00e3o est\u00e3o a dar respostas satisfat\u00f3rias a quem interroga a partir da ci\u00eancia. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211;  \u201cEduca\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Religi\u00e3o\u201d \u00e9 o t\u00edtulo do livro de que \u00e9 co-autor. \u00c9 importante reflectir sobre a rela\u00e7\u00e3o entre estes tr\u00eas \u00e2mbitos?<\/p>\n<p>ALFREDO DINIS &#8211; Sim, porque as crian\u00e7as v\u00e3o para a escola e aprendem sobretudo o saber cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, e tamb\u00e9m o saber art\u00edstico, muitas vezes ensinado por professores que t\u00eam uma perspectiva da vida muito mecanicista, muito materialista, at\u00e9, no sentido em que dizem \u00e0s crian\u00e7as que, \u201cuma vez que n\u00f3s conhecemos o processo biol\u00f3gico do aparecimento da vida e da humanidade, n\u00e3o precisamos de Deus para nada; uma vez que sabemos que o universo \u00e9 o resultado de uma grande explos\u00e3o que evoluiu at\u00e9 agora, Deus n\u00e3o entra aqui\u201d. E as crian\u00e7as absorvem isto tudo. N\u00e3o digo que todos os professores procedam assim, mas muitos procedem. E muitos dos que n\u00e3o procedem n\u00e3o dizem que sim nem que n\u00e3o e os jovens chegam \u00e0 universidade com uma ignor\u00e2ncia muito grande sobre todos estes temas.<\/p>\n<p>Apercebe-se dessa ignor\u00e2ncia na Faculdade que dirige?<\/p>\n<p>Na disciplina que ensino na Faculdade de Filosofia de Braga, Cristianismo e Cultura, fa\u00e7o precisamente este percurso de passar por Galileu e Darwin, o Big Bang, etc., para mostrar a estes jovens como a Igreja Cat\u00f3lica hoje v\u00ea estas quest\u00f5es de um modo diferente de h\u00e1 500 anos.<\/p>\n<p>Nota nos alunos algum preconceito anti-religioso?<\/p>\n<p>N\u00e3o digo que seja um preconceito de m\u00e1 vontade. Mas h\u00e1 um preconceito intelectual, cognitivo, no sentido de afirmar que Deus n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. Tenho alguns alunos que me fazem essa pergunta: \u201cPor que \u00e9 que eu preciso de Deus?\u201d No in\u00edcio deste ano passei uma pequena sondagem aos meus alunos e muitos disseram que n\u00e3o acreditam em Deus nem sabem para que \u00e9 h\u00e3o-de acreditar, uma vez que a ci\u00eancia explica tudo.<\/p>\n<p>Como lhes responde?<\/p>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 importante para o ser humano, que \u00e9 um ser de cultura. Mas o que eu costumo dizer a esses jovens, e n\u00e3o s\u00f3, \u00e9 que n\u00f3s da ci\u00eancia esperamos que nos explique como funciona o universo, como funcionam as leis da natureza. Mas se eu quiser saber qual \u00e9 o sentido da minha exist\u00eancia n\u00e3o vou perguntar a um qu\u00edmico, a um f\u00edsico, ou a um bi\u00f3logo. Eles n\u00e3o t\u00eam nada para me dizer sobre o sentido da vida. N\u00e3o gosto muito de dualismos, mas neste caso eu distingo entre o saber explicar e o saber viver. O saber explicar pertence \u00e0 ci\u00eancia. O saber viver tem a ver com a sabedoria de vida. E h\u00e1 pessoas \u2013 isto \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o banal \u2013 que n\u00e3o sabem explicar nada dos fen\u00f3menos da natureza, mas que t\u00eam uma qualidade de vida muito superior \u00e0 dos grandes pr\u00e9mios Nobel da Qu\u00edmica ou da F\u00edsica. Ora a religi\u00e3o e a filosofia, mas sobretudo a religi\u00e3o, colocam-se na perspectiva do sentido e do saber viver. Claro que a ci\u00eancia pode contribuir. Mas para saber qual o sentido do universo, o sentido da vida, por que \u00e9 que estou aqui, n\u00e3o pergunto ao cientista&#8230;<\/p>\n<p>Mas tem havido cientistas ateus, pensemos em Stephen Hawking ou Richard Dawkins, que a partir da ci\u00eancia, segundo dizem, t\u00eam feito afirma\u00e7\u00f5es sobre Deus, a \u00e9tica, o sentido da vida. S\u00e3o te\u00f3logos, no fundo\u2026<\/p>\n<p>T\u00eam surgido v\u00e1rios livros nesse sentido. Pretendem demostrar atrav\u00e9s da ci\u00eancia, com base na ci\u00eancia, mas fazem uma argumenta\u00e7\u00e3o que muito facilmente se v\u00ea que \u00e9 fraca. Al\u00e9m de haver alguma ignor\u00e2ncia, h\u00e1 muita ideologia. A ideologia \u00e9 uma perspectiva da vida habitualmente ligada ao poder. Estas pessoas est\u00e3o incomodadas com a ess\u00eancia de Deus e com as imagens de Deus que existem em alguns crentes. Dawkins e outros est\u00e3o sempre a buscar exemplos para mostrar: \u201cAqui est\u00e1 como a religi\u00e3o s\u00f3 faz mal\u201d. \u201cDeus n\u00e3o \u00e9 grande; como a religi\u00e3o envenena tudo\u201d, diz Christopher Hitchens. A argumenta\u00e7\u00e3o consiste em ir \u00e0 hist\u00f3ria e, cirurgicamente, pegar neste e naquele e aspecto para mostrar como Deus s\u00f3 faz mal. Por outro lado, no caso de Dawkins e Daniel Dennet, geralmente t\u00eam em vista os criacionistas norte-americanos, que defendem o \u201cinteligent design\u201d [\u201cdesenho inteligente\u201d \u2013 corrente pseudocient\u00edfica que afirma que os seres vivos s\u00e3o mais bem explicados por uma causa inteligente, direcionada, do que pelo processo n\u00e3o direcionado da selec\u00e7\u00e3o natural]. Acham que os criacionistas [que interpelam o livro do G\u00e9nesis \u00e0 letra] s\u00e3o uma amostra da religi\u00e3o em geral. T\u00eam uma imagem da religi\u00e3o t\u00e3o parcial que \u00e9 quase irracional.<\/p>\n<p>&#8230; E quanto a Hawking&#8230;<\/p>\n<p>Hawking n\u00e3o tem nenhuma prova de que Deus n\u00e3o existe. Conheci-o quando fiz o doutoramento em Cambridge. Embora ele esteja numa cadeira de rodas, \u00e9, como os ingleses dizem, \u201cone man show\u201d. Gosta de dar nas vistas. Gosta de aparecer, muito bem disposto, com grande sentido de humor. Apesar de falar com dificuldade [fala com o aux\u00edlio de um computador], gosta de provocar. Nos livros dele n\u00e3o h\u00e1 prova nenhuma da inexist\u00eancia de Deus. Mas h\u00e1 crist\u00e3os, quer no passado, quer hoje, que ainda andam a ver se encontram um lugarzinho para Deus nos conceitos cient\u00edficos. Por exemplo, o Big Bang. O universo come\u00e7ou com uma grande explos\u00e3o. Mas quem provocou a explos\u00e3o? A ci\u00eancia sabe? N\u00e3o sabe, logo\u2026 invoca-se Deus.<\/p>\n<p>Referiu a concep\u00e7\u00e3o do Deus tapa-buracos. Invoca-se Deus para aquilo que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o explica, mas pode vir a explicar\u2026<\/p>\n<p>Sim, e \u00e9 essa uma das imagens de Deus que aparece nos debates em que estes senhores entram e que querem destruir. Lido muitas vezes com pessoas que colocam quest\u00f5es deste g\u00e9nero. \u00c0s vezes dou-lhes os parab\u00e9ns por n\u00e3o acreditarem em Deus: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o acredita em Deus e faz muito bem. S\u00f3 \u00e9 prova de intelig\u00eancia. Esse Deus de que o senhor me fala \u00e9 inacredit\u00e1vel. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o acreditaria nele. Se o Deus em que acredito fosse esse de que me fala, tornava-me ateu j\u00e1 hoje. N\u00e3o esperava mais tempo\u201d. Mas note-se que por vezes s\u00e3o imagens de Deus para as quais os crentes contribuem. H\u00e1 muita gente mal formada. E depois h\u00e1 sempre quest\u00f5es como a dos padres ped\u00f3filos, infelizmente, e a das apari\u00e7\u00f5es. Dizem que apareceu o rosto de Cristo n\u00e3o sei onde, e \u00e9 esta mentalidade religiosa que os incomoda e contra a qual eles lutam. Eu j\u00e1 lhes tenho dito: \u201cVoc\u00eas est\u00e3o a fazer um favor \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica quando criticam com intelig\u00eancia estas coisas que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com Deus\u201d. Depois perguntam-me: \u201cMas quem \u00e9 que decide o que tem a ver com Deus? O que tem a ver com religi\u00e3o ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Que resposta d\u00e1?<\/p>\n<p>Respondo que em ci\u00eancia tamb\u00e9m h\u00e1 muita gente que diz coisas diferentes e opostas entre si. E h\u00e1 revistas que aceitam uns artigos e outros n\u00e3o. Procura-se o consenso na comunidade dos cientistas. Ora a Igreja \u00e9 uma comunidade de crentes que, tal como os cientistas, tamb\u00e9m aceita determinadas ideias coerentes com a sua f\u00e9 e rejeita outras.<\/p>\n<p>Disse na confer\u00eancia [no audit\u00f3rio do Semin\u00e1rio, no dia 19 de Mar\u00e7o] que os te\u00f3logos n\u00e3o est\u00e3o a assumir os desafios colocados pela ci\u00eancia. Algumas verdades da f\u00e9 t\u00eam de ser reinterpretadas porque foram elaboradas num determinado contexto cultural e cient\u00edfico ultrapassado\u2026 Mas esta reinterpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega \u00e0 generalidade das pessoas.<\/p>\n<p>O desafio b\u00e1sico est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o dos padres. Os seminaristas que est\u00e3o a estudar teologia, quer em Portugal quer no estrangeiro, n\u00e3o aprendem nada disto a n\u00e3o ser por iniciativa individual. Mesmo os jesu\u00edtas, que estudam mais tempo. E hoje temos imensas quest\u00f5es que v\u00eam da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, quest\u00f5es \u00e9ticas e bio\u00e9ticas. No combate ao aborto, ainda se continua a dizer que \u201cDeus infunde a alma no momento da concep\u00e7\u00e3o\u201d, quando a forma\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo gen\u00e9tico \u00e9 um processo de 48 horas\u2026<\/p>\n<p>Defendem a causa positiva com argumentos err\u00f3neos\u2026<\/p>\n<p>A igreja somos todos n\u00f3s e n\u00e3o podemos esperar que sejam os senhores cardeais a mudar a linguagem. Os n\u00e3o crentes p\u00f5em quest\u00f5es muito complexas: a quest\u00e3o do mal, o processo evolutivo, que tem muito de aleat\u00f3rio e de acaso\u2026 E n\u00f3s n\u00e3o estamos a responder. H\u00e1 dois anos organizei em Braga um congresso internacional sobre Darwin (bi\u00f3logo da teoria da evolu\u00e7\u00e3o pela selec\u00e7\u00e3o natural). Mandei uma carta aos directores das faculdades de Teologia a pedir um te\u00f3logo para falar do assunto. Respostas: Zero. Mais, convidei o te\u00f3logo cat\u00f3lico John Haugth, que \u00e9 quem melhor tem reflectido sobre a f\u00e9 crist\u00e3 e a teoria da evolu\u00e7\u00e3o, para uma conversa com te\u00f3logos portugueses e n\u00e3o houve te\u00f3logos interessados.<\/p>\n<p>Uma falta de compar\u00eancia preocupante?<\/p>\n<p>Posso estar enganado, mas os te\u00f3logos e professores de teologia portugueses n\u00e3o est\u00e3o convencidos de que a f\u00e9 tem de dialogar com a ci\u00eancia. Note que n\u00e3o \u00e9 preciso saber explicar isto tudo para ser crente e crist\u00e3o de grande n\u00edvel. Mesmo que eu saiba as ci\u00eancias todas, posso ser um grande patife e n\u00e3o ter qualidade de vida nenhuma. Mas h\u00e1 cada vez mais pessoas a colocar quest\u00f5es religiosas a partir da ci\u00eancia que conhecem \u2013 muitos pais v\u00eam ter comigo por causa das quest\u00f5es dos filhos \u2013 e os crentes n\u00e3o sabem responder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alfredo Dinis, padre jesu\u00edta, director da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa e autor, com Jo\u00e3o Paiva, do livro \u201cEduca\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Religi\u00e3o\u201d (ed. Gradiva), foi um dos intervenientes no I Simp\u00f3sio F\u00e9 e Cultura (Aveiro, 19 de Mar\u00e7o). Nesta entrevista afirma que a ci\u00eancia n\u00e3o pode responder \u00e0s quest\u00f5es existenciais, mas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-22312","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22312","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22312"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22312\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}