{"id":22323,"date":"2013-04-17T16:20:00","date_gmt":"2013-04-17T16:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22323"},"modified":"2013-04-17T16:20:00","modified_gmt":"2013-04-17T16:20:00","slug":"mais-as-vozes-do-que-as-nozes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/mais-as-vozes-do-que-as-nozes\/","title":{"rendered":"Mais as vozes do que as nozes"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu <!--more--> N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nas feiras que encontramos vozes assim: onde o neg\u00f3cio pode depender sobretudo de berrar mais alto do que os outros e de chamar aldrab\u00f5es aos concorrentes. Ai dos concorrentes que n\u00e3o s\u00e3o da terra \u2013 e que ainda por cima apresentam produtos melhores! <\/p>\n<p>As vozes que n\u00e3o t\u00eam nozes s\u00e3o tanto mais perigosas quanto mais se escondem por tr\u00e1s de altos cargos, apregoando sabedoria e honestidade que talvez nem sequer se tenham esfor\u00e7ado por adquirir (n\u00e3o vamos mal de todo enquanto o valor destas qualidades \u00e9 ao menos reconhecido). Tal como os falsos pastores, imitam a voz do verdadeiro, trazendo a confus\u00e3o e perdi\u00e7\u00e3o para o rebanho.<\/p>\n<p>A este problema se refere a 1.\u00aa leitura. Trata-se de um comportamento tipicamente humano, que se encontra em todos os lugares e esferas sociais, tornando-se muito mais pernicioso na esfera mais delicada \u2013 a religiosa (opondo civiliza\u00e7\u00f5es inteiras). O Antigo Testamento defronta-se frequentemente com a quest\u00e3o dos \u00abfalsos profetas\u00bb (do que \u00e9 magn\u00edfico exemplo o cap\u00edtulo 23 de Jeremias). S. Jo\u00e3o tinha raz\u00f5es de sobra para sublinhar que Jesus era o pastor verdadeiro, dedicando a esse tema todo o cap\u00edtulo 10 do seu evangelho (onde se l\u00ea como a par\u00e1bola do bom pastor provocou divis\u00f5es entre os judeus e forte oposi\u00e7\u00e3o a Jesus).<\/p>\n<p>N\u00e3o agradar\u00e1 muito aos ouvidos modernos esta hist\u00f3ria de sermos comparados a ovelhas e muito menos a um rebanho. Mas na tradi\u00e7\u00e3o dos povos b\u00edblicos, a dedica\u00e7\u00e3o do pastor ao rebanho \u00e9 a imagem cl\u00e1ssica das rela\u00e7\u00f5es entre os chefes e o resto do povo. Os reis eram \u00abpastores\u00bb, cujas qualidades pessoais e boa escolha de colaboradores lhes possibilitavam um vasto leque de informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos, para harmonizarem a diversidade e choques de interesses de todo um povo. Esta imagem facilmente se aplicava, na esfera religiosa, ao \u00abcuidado\u00bb de Deus pelos seres humanos.<\/p>\n<p>E a ovelha era a principal propriedade do povo israelita, pelos m\u00faltiplos benef\u00edcios que dela tiravam, e por ser mansa e d\u00f3cil ao pastor. Era o animal escolhido para sacrificar em rituais religiosos (lembremos a import\u00e2ncia do \u00abcordeiro pascal\u00bb, imagem que o Livro do Apocalipse tanto explora).<\/p>\n<p>No evangelho e na 1.\u00aa leitura, o verdadeiro pastor d\u00e1 \u00aba vida eterna\u00bb. E que h\u00e1 de mais central do que a vida? <\/p>\n<p>Na cultura hebraica, n\u00e3o existe o nosso conceito de \u00abvida\u00bb, mas somente o de seres \u00abvivos\u00bb, designando caracter\u00edsticas bem concretas, como respira\u00e7\u00e3o \u2013  o \u00abesp\u00edrito\u00bb ou sopro \u00e9 que d\u00e1 vida e gera movimento (ao n\u00edvel f\u00edsico e espiritual). Viver \u00e9 conhecer, amar, trabalhar, gozar, ter sa\u00fade, alegria, sucesso\u2026 \u00e9 ser feliz. Sendo o bem mais precioso, a vida \u00e9 a maior recompensa de Deus, e a morte \u00e9 considerada o maior castigo. Vida aparece pois ligada a Bem e Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a verifica\u00e7\u00e3o de que fazer o bem n\u00e3o nos livra do mal e da morte, e de que \u00abos maus\u00bb \u00e9 que vivem bem (salmo 73,2-14), levou ao aprofundamento do tema. S\u00f3 Deus \u00e9 \u00abperfeitamente vivo\u00bb \u2013 e por isso tem que existir, mesmo para os seres humanos, uma forma mais alta de vida: a vida eterna, a vida por excel\u00eancia \u2013 uma ideia dif\u00edcil de interiorizar, s\u00f3 aparecendo claramente nos dois \u00faltimos s\u00e9culos antes de Cristo, no Livro da Sabedoria (2; 3,1-12) e no Livro 2.\u00ba dos Macabeus (7,9-14).<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 em quest\u00e3o renunciar a viver este mundo, saindo dele como quem sai de um barco a afundar-se. No Novo Testamento, a vida (eterna) \u00e9 a forma perfeita do Reino de Deus, e para \u00abentrar na vida\u00bb \u00e9 imprescind\u00edvel lutar neste mundo pela justi\u00e7a (ver especialmente Mt 19,16-29 e Lc 10,25-28). Esta exig\u00eancia j\u00e1 \u00e9 bem manifesta nos profetas do Antigo Testamento e na \u00abescola de 40 anos\u00bb do povo israelita no deserto.<\/p>\n<p>Jesus Cristo d\u00e1 essa Vida, como ter\u00e1 dito \u00e0 samaritana (Jo 4,14). \u00c9 exemplo de como a \u00abvida eterna\u00bb enobrece e fortifica a nossa luta. Os seus disc\u00edpulos, at\u00e9 hoje, reconheceram que valia a pena dar \u00abmuitas vozes\u00bb \u00e0 sua mensagem, formando uma verdadeira polifonia \u00e0 volta do tema central, apontando para o que vale mais a pena, para um centro \u2013 noz ou n\u00facleo \u2013 que justifique a exist\u00eancia humana. \t<\/p>\n<p>\u00abNoz\u00bb e \u00abn\u00facleo\u00bb prov\u00eam do mesmo radical, com o sentido geral de solidez e centralidade. Compete a quem lan\u00e7a a voz reflectir honestamente se est\u00e1 mesmo interessado numa \u00abnoz\u00bb s\u00f3lida \u2013 como tamb\u00e9m compete \u00e0s \u00abovelhas\u00bb (evangelho) saber reconhecer a solidez de cada uma das vozes. <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt  <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-22323","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22323","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22323\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}