{"id":22459,"date":"2011-03-23T10:22:00","date_gmt":"2011-03-23T10:22:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22459"},"modified":"2011-03-23T10:22:00","modified_gmt":"2011-03-23T10:22:00","slug":"a-fe-e-a-teologia-estao-a-dar-se-mal-com-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-fe-e-a-teologia-estao-a-dar-se-mal-com-a-ciencia\/","title":{"rendered":"A f\u00e9 e a teologia est\u00e3o a dar-se mal com a ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>O Simp\u00f3sio F\u00e9 e Cultura, promovido pelo Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA), deixou mais desafios \u00e0 f\u00e9 do que \u00e0 ci\u00eancia. Faltam provoca\u00e7\u00f5es e respostas dos crentes.<\/p>\n<p>Que desafios coloca a ci\u00eancia \u00e0 f\u00e9? O P.e Alfredo Dinis come\u00e7ou a responder \u00e0 pergunta citando Bento XVI, quando era cardeal, que escreveu que entre os crentes existe um sentimento semelhante aos passageiros de um barco prestes a afundar-se. Na realidade, a f\u00e9 parece amea\u00e7ada pelas ondas da ci\u00eancia, da tecnologia, das novas concep\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. \u201cA f\u00e9 ainda tem futuro?\u201d, perguntou Joseph Ratzinger. E o padre jesu\u00edta, director da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, responde, reconhecendo fragilidades de quem professa a f\u00e9: \u201cN\u00f3s, os crentes, n\u00e3o estamos a acompanhar o repto. H\u00e1 crentes que perdem a f\u00e9 e a interrogam a partir da descren\u00e7a. E quem est\u00e1 de fora n\u00e3o fica convencido de que estamos a acompanhar os ritmos da mudan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>De onde v\u00eam os conflitos entre f\u00e9 e ci\u00eancia? \u201cA B\u00edblia tem sido a causa dos grandes conflitos devido a uma teoria da inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica\u201d que durante s\u00e9culos concebeu o texto b\u00edblico como \u201cditado divino\u201d, omitindo que tamb\u00e9m \u00e9 linguagem humana. Interpretada \u00e0 letra, como o foi durante longos s\u00e9culos pelas correntes dominantes do cristianismo e como ainda \u00e9 pelos crist\u00e3os fundamentalistas, principalmente nos Estados Unidos, a B\u00edblia deixa \u201cdemasiados desafios para compaginar com a ci\u00eancia\u201d. Galileu, no s\u00e9c. XVII, foi dos primeiros a romper com a concep\u00e7\u00e3o cosmol\u00f3gica que previa a Terra do centro do universo e que correspondia \u00e0 cosmologia b\u00edblica. Surge Darwin, no s\u00e9c. XIX, com a teoria da evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos pela selec\u00e7\u00e3o natural e mais um epis\u00f3dio b\u00edblico tem de ser reinterpretado: Ad\u00e3o e Eva e a cria\u00e7\u00e3o da humanidade e a subsequente doutrina do pecado original. Como falar de pecado transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, como dizia a doutrina tradicional, se n\u00e3o houve aquele primeiro par do G\u00e9nesis?<\/p>\n<p>Deus no c\u00e9rebro?<\/p>\n<p>Alfredo Dinis lan\u00e7ou ainda mais algumas quest\u00f5es: \u201cAntes, pensava-se que o mundo teria uns seis mil anos e at\u00e9 se discutia em que dia da semana Deus teria criado a Terra. Hoje sabemos que o universo surgiu h\u00e1 cerca de 15 mil milh\u00f5es de anos, e que h\u00e1 100 a 150 mil milh\u00f5es de gal\u00e1xias como a nossa e que cada uma ter\u00e1 100 a 150 milh\u00f5es de sistemas solares. Onde fica a humanidade no meio disto? E Deus criador?\u201d Um esbo\u00e7o de resposta: \u201cDeus at\u00e9 constantemente a tornar poss\u00edvel a cria\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 a\u00ed diante dos nossos olhos\u201d. Mais uma provoca\u00e7\u00e3o: Fala-se hoje em neuroteologia. Consiste na localiza\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro da parte que \u00e9 estimulada quando se pensa em Deus. Alguns dizem, baseando-se nisso, que Deus est\u00e1 no c\u00e9rebro ou que Deus \u00e9 simplesmente uma fun\u00e7\u00e3o cerebral. \u201c\u00c9 um racioc\u00ednio muito fraquinho. Quem afirma isso confunde condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria [certa parte do c\u00e9rebro ser estimulada] com condi\u00e7\u00e3o suficiente [a causa real do funcionamento cerebral, no caso, a f\u00e9 ou o pensamento sobre Deus]\u201d.<\/p>\n<p>De qualquer forma, tamb\u00e9m nesta quest\u00e3o \u201ca teologia n\u00e3o est\u00e1 a enfrentar de caras estes desafios\u201d, diz. Por isso, \u201cpergunto \u00e0s vezes aos meus colegas te\u00f3logos o que andam a fazer\u201d, afirmou o jesu\u00edta, sublinhando a sua convic\u00e7\u00e3o na compatibilidade entre f\u00e9 e ci\u00eancia, entre o que se cr\u00ea e o que se sabe.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Formosinho, professor de Qu\u00edmica da Universidade de Coimbra, afirmou que \u201ca ci\u00eancia tamb\u00e9m tem de partir de uma base de cren\u00e7a, um pressuposto de confian\u00e7a\u201d. H\u00e1 como que \u201cum quadro fiduci\u00e1rio divino sobre a inteligibilidade de universo\u201d. Na realidade, \u00e9 hoje consensual que a ci\u00eancia positiva nasceu no Ocidente porque, estando o c\u00e9u limpo de deuses, o universo era concebido como tendo sido criado por Deus segundo leis racionais e est\u00e1veis que o ser humano podia descobrir. O professor universit\u00e1rio, com v\u00e1rios livros publicados em co-autoria com o padre e fil\u00f3sofo Oliveira Branco, de Coimbra, contou, a prop\u00f3sito, que se houve homens da igreja que foram cientistas, alguns cientistas viram-se a si mesmos como sacerdotes da ci\u00eancia. Um deles s\u00f3 fazia experi\u00eancias ao domingo, num paradoxo entre o louvor a Deus e a sacraliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, a Igreja, que \u201cnoutros tempos esteve na vanguarda, foi a pouco e pouco ultrapassada\u201d. A Igreja \u201c\u00e9 mais lenta do que a ci\u00eancia. Parece que perdeu o f\u00f4lego, o motor da novidade\u201d, afirma Formosinho. \u201cO esfor\u00e7o tem de ser das duas partes. Mas falta da parte dos te\u00f3logos darem-nos a surpresa\u201d.<\/p>\n<p>Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima semana: Padres P\u00f3voa dos Reis e Teilhard de Chardin: a f\u00e9 encontra a ci\u00eancia e d\u00e3o-se bem. Richard Dawkins: quando a ci\u00eancia quer repelir a f\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Simp\u00f3sio F\u00e9 e Cultura, promovido pelo Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA), deixou mais desafios \u00e0 f\u00e9 do que \u00e0 ci\u00eancia. Faltam provoca\u00e7\u00f5es e respostas dos crentes. Que desafios coloca a ci\u00eancia \u00e0 f\u00e9? 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