{"id":22463,"date":"2011-03-23T10:29:00","date_gmt":"2011-03-23T10:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22463"},"modified":"2011-03-23T10:29:00","modified_gmt":"2011-03-23T10:29:00","slug":"deus-fe-e-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/deus-fe-e-religiao\/","title":{"rendered":"Deus, f\u00e9 e religi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Deus escreveu dois livros?<\/p>\n<p>Uma ideia perdurou durante s\u00e9culos: Deus escreveu dois livros, a B\u00edblia e o \u2018livro da Natureza\u2019. Resultava da convic\u00e7\u00e3o de que a B\u00edblia era uma esp\u00e9cie de ditado de Deus ao ouvido dos escritores sagrados.<\/p>\n<p>Com o desenvolvimento dos estudos b\u00edblicos, sobretudo por influ\u00eancia de algumas ci\u00eancias liter\u00e1rias e hist\u00f3ricas, de investiga\u00e7\u00e3o de documentos antigos e outras, percebeu-se que os livros b\u00edblicos t\u00eam Deus como autor, em simult\u00e2neo com os escritores sagrados que os compuseram com toda a carga das suas circunst\u00e2ncias culturais, filos\u00f3ficas, liter\u00e1rias e hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>A Cria\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, o primeiro livro aberto da manifesta\u00e7\u00e3o de Deus; por isso, lhe chama-mos a Revela\u00e7\u00e3o Natural. Assim fala sobre este primeiro \u2018livro\u2019 o documento sobre a Revela\u00e7\u00e3o (do Vaticano II): \u201cDeus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (cfr. Jo. 1,3) oferece aos homens um testemunho perene de si mesmo na cria\u00e7\u00e3o (cfr.Rom. 1,19-20)\u201d &#8211; DV 3. Portanto, observando a maravilha do Universo, a pessoa humana encontra sinais do seu Autor. Pode, pela contempla\u00e7\u00e3o da Natureza, elevar-se \u00e0s alturas do Criador.<\/p>\n<p>A proximidade de Deus \u00e0 humanidade torna-se, entretanto, patente de outro modo muito mais expl\u00edcito. \u201cAprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mist\u00e9rio da sua vontade\u2026 Em virtude desta revela\u00e7\u00e3o, Deus invis\u00edvel (Cfr. Col. 1,15; 1 Tm. 1,17) fala aos homens como a amigos (Cfr. \u00cax. 33,11; Jo. 15,14-15) e convive com eles (Cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir \u00e0 comunh\u00e3o com Ele\u201d &#8211; DV 2. Esta \u00e9 a Revela\u00e7\u00e3o Sobrenatural.<\/p>\n<p>Ou seja, Deus entretece a hist\u00f3ria da humanidade com a Sua presen\u00e7a, por ac\u00e7\u00f5es e palavras, por pessoas e institui\u00e7\u00f5es, intimamente relacionadas entre si, culminando com a presen\u00e7a pessoal entre n\u00f3s, pela pessoa do Verbo eterno de Deus, Jesus Cristo, que Se torna uma pessoa da nossa hist\u00f3ria. Esses acontecimentos e palavras, reconhecidos e proclamados como salv\u00edficos, tornam-se Palavra escrita na B\u00edblia, pela inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo a pessoas escolhidas, que os registam com as suas pr\u00f3prias qualidades humanas. Esse \u00e9 o segundo livro de Deus.<\/p>\n<p>O \u201csensus fidelium\u201d \u00e9 a opini\u00e3o p\u00fablica na Igreja?<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito Santo foi concedido a toda a Igreja. Os fi\u00e9is recebem este fluxo do Esp\u00edrito, para acolher, meditar e viver a Palavra que vem da boca de Deus. Essa palavra tem a leg\u00edtima interpreta\u00e7\u00e3o na comunh\u00e3o da Igreja. E o papel de discernimento cabe ao Magist\u00e9rio. Certo \u00e9 que a intui\u00e7\u00e3o espiritual do Povo de Deus pode tornar-se um sinal claro da percep\u00e7\u00e3o da verdade da f\u00e9, que o Magist\u00e9rio confirmar\u00e1. Por exemplo: a plena convic\u00e7\u00e3o do Povo crist\u00e3o de que a Virgem Maria foi glorificada sem sofrer a corrup\u00e7\u00e3o do t\u00famulo deu ao Papa refor\u00e7o das raz\u00f5es para proclamar o dogma da Assun\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora. <\/p>\n<p>Assim fala o Vaticano II: \u201cProgride a percep\u00e7\u00e3o tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer merc\u00ea da contempla\u00e7\u00e3o e estudo dos crentes, que as meditam no seu cora\u00e7\u00e3o (Cfr. Lc. 2,19.51), quer merc\u00ea da \u00edntima intelig\u00eancia que experimentam das coisas espirituais\u201d &#8211; DV 8. Mas isto \u00e9 bem mais profundo do que uma opini\u00e3o p\u00fablica condicionada ou manipulada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Acreditar \u00e9 aceitar o absurdo?<\/p>\n<p>Parece que se atribui injustamente a Tertuliano esta senten\u00e7a: \u201cCredo, quia absurdum\u201d, isto \u00e9, \u201ccreio, porque \u00e9 absurdo\u201d. <\/p>\n<p>Nada mais errado. A F\u00e9, na verdade, n\u00e3o \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o do absurdo. A \u201ccerteza das coisas que se n\u00e3o v\u00eaem\u201d \u00e9 a confian\u00e7a em realidades que n\u00e3o se v\u00eaem fisicamente, mas cujos efeitos s\u00e3o indiscut\u00edveis. O amor, por exemplo, n\u00e3o se v\u00ea; mas percebem-se claramente os seus efeitos. Como da alegria, da tristeza, de outras realidades.<\/p>\n<p>A F\u00e9 n\u00e3o \u00e9 fruto de racioc\u00ednios. \u00c9 um dom de Deus, \u00e9 a mo\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, que nos predisp\u00f5e o cora\u00e7\u00e3o para acolher a Palavra e nos estimula a dizer sim \u00e0 interpela\u00e7\u00e3o de Deus. Mas, entretanto, o exerc\u00edcio da nossa intelig\u00eancia, a decis\u00e3o da nossa vontade, o nosso afecto, consideram n\u00e3o apenas razo\u00e1veis mas boas as propostas e desafios que a interpela\u00e7\u00e3o de Deus nos faz. E aderimos em liberdade.<\/p>\n<p>\u201cA Deus que revela \u00e9 devida a \u2018obedi\u00eancia da f\u00e9\u2019 (Rm.16,26; cfr. Rm. 1,5; 2 Cor. 10,5-6); pela f\u00e9, o homem entrega-se total e livremente a Deus, oferecendo \u2018a Deus revelador o obs\u00e9quio pleno da intelig\u00eancia e da vontade\u2019 e prestando volunt\u00e1rio assentimento \u00e0 Sua revela\u00e7\u00e3o\u201d &#8211; DV 5.<\/p>\n<p>O estudo, a busca inteligente e persistente, o confronto com as ci\u00eancias naturais e humanas, a honestidade e a humildade levar-nos-\u00e3o progressivamente a descobrir que acolher a \u2018provoca\u00e7\u00e3o\u2019 de Deus n\u00e3o \u00e9 diminuir as nossas capacidades humanas; antes lhes abre outros horizontes.<\/p>\n<p>O Evangelho pode acrescentar-se?<\/p>\n<p>Jesus Cristo \u00e9 a Palavra definitiva de Deus \u00e0 Humanidade. \u201cPor isso, v\u00ea-lo a Ele \u00e9 ver o Pai (Cfr. Jo. 14,9). Com toda a Sua presen\u00e7a a manifesta\u00e7\u00e3o da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurrei\u00e7\u00e3o, enfim com o envio do Esp\u00edrito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho a revela\u00e7\u00e3o, a saber, que Deus est\u00e1 connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna.<\/p>\n<p>Portanto, a economia crist\u00e3, como nova e definitiva alian\u00e7a, jamais passar\u00e1 e n\u00e3o se h\u00e1-de esperar nenhuma outra revela\u00e7\u00e3o p\u00fablica antes da gloriosa manifesta\u00e7\u00e3o de nosso Senhor Jesus Cristo (Cfr. 1 Tm. 6,14; Tit. 2,13)\u201d &#8211; DV 4.<\/p>\n<p>Se Jesus \u00e9 o rosto humano de Deus, a Sua presen\u00e7a real \u00e0 nossa dimens\u00e3o, est\u00e1 tudo dito da parte de Deus. Os ap\u00f3stolos e os escritores sagrados do Novo Testamento apenas explicitam a apresenta\u00e7\u00e3o da Palavra eterna de Deus incarnada.<\/p>\n<p>Entretanto, a nossa compreens\u00e3o dessa Verdade inesgot\u00e1vel \u00e9 parcelar, progressiva. O acolhimento, a viv\u00eancia e transmiss\u00e3o da Revela\u00e7\u00e3o, da Tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, essas sim, progridem na Igreja, sob a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, quer pela reflex\u00e3o, estudo e compreens\u00e3o dos crentes, quer da percep\u00e7\u00e3o \u00edntima das realidades espirituais, quer pelo estudo da Teologia, quer pelo servi\u00e7o do Magist\u00e9rio (Cfr. DV 8), j\u00e1 que a Mensagem definitiva \u00e9 para todos os tempos e lugares. E as circunst\u00e2ncias novas dos tempos e lugares \u2018provocam\u2019 novas e mais profundas compreens\u00f5es do Evangelho permanente.<\/p>\n<p>Todas as religi\u00f5es s\u00e3o iguais? <\/p>\n<p>As religi\u00f5es s\u00e3o a express\u00e3o org\u00e2nica, socializada, porque o homem \u00e9 um ser social, dos seus esfor\u00e7os de encontrar a Divindade. Algumas delas apresentam-se com a pretens\u00e3o de cruzarem estes \u2018caminhos dos homens\u2019 com os \u2018caminhos de Deus\u2019, isto \u00e9: apresentam-se como tendo no seu patrim\u00f3-nio a iniciativa de Deus de vir ao encontro desta busca por parte do homem.<\/p>\n<p>A F\u00e9 cat\u00f3lica assenta na certeza de que Deus, na Sua imensa bondade, Se autocomunica na hist\u00f3ria dos homens, por ac\u00e7\u00f5es e palavras, intimamente ligadas entre si, chamando a Humanidade, pela media\u00e7\u00e3o de um povo &#8211; o povo hebreu &#8211; e, definitivamente pela presen\u00e7a do Seu Filho, Jesus Cristo, entre n\u00f3s, a constituir o novo Povo de Deus, com quem vive em estreita comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTodos os homens s\u00e3o chamados a esta unidade cat\u00f3lica do Povo de Deus, a qual anuncia e promove a paz universal; a ela pertencem, de v\u00e1rios modos, ou a ela se ordenam, quer os cat\u00f3licos, quer os outros que acreditam em Cristo, quer, finalmente, todos os homens em geral, pela gra\u00e7a de Deus chamados \u00e0 salva\u00e7\u00e3o\u201d &#8211; LG 13.<\/p>\n<p>Na pessoa de Jesus Cristo, encontra-se a excel\u00eancia da religi\u00e3o. Mas as \u2018sementes do Verbo\u2019 encontram-se no cora\u00e7\u00e3o de todo o homem que vem a este mundo, porque Ele veio exactamente para isso: para iluminar todo o homem que vem a este mundo.<\/p>\n<p>Na medida em que, na busca da verdade e do bem, as religi\u00f5es procurem com honestidade e humildade, o caminho permanente para o Verbo de Deus, t\u00eam sementes de salva\u00e7\u00e3o, as quais, pela fecunda\u00e7\u00e3o do Evangelho, desabrochar\u00e3o na verdadeira Religi\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o todas iguais, portanto. Mas podem ter todos elementos salv\u00edficos, que, vividos com rectid\u00e3o, colocam as pessoas no caminho da salva\u00e7\u00e3o. Sempre considerando que determinados l\u00edderes carism\u00e1ticos poder\u00e3o perverter ou sublimar essas sementes do Verbo.\t<\/p>\n<p>Pereira da Silva<\/p>\n<p>P\u00e1gina da responsabilidade do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA). Sai na 4.\u00aa quarta-feira de cada m\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deus escreveu dois livros? Uma ideia perdurou durante s\u00e9culos: Deus escreveu dois livros, a B\u00edblia e o \u2018livro da Natureza\u2019. Resultava da convic\u00e7\u00e3o de que a B\u00edblia era uma esp\u00e9cie de ditado de Deus ao ouvido dos escritores sagrados. 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