{"id":2253,"date":"2010-07-14T14:58:00","date_gmt":"2010-07-14T14:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2253"},"modified":"2010-07-14T14:58:00","modified_gmt":"2010-07-14T14:58:00","slug":"quero-ser-padre-para-deus-e-para-quem-mais-precisar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/quero-ser-padre-para-deus-e-para-quem-mais-precisar\/","title":{"rendered":"&#8220;Quero ser padre para Deus e para quem mais precisar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Carneiro, 29 anos, vai ser ordenado padre no pr\u00f3ximo domingo, na Bas\u00edlica do Sameiro, em Braga, pelas 15h30. Est\u00e1 na Diocese de Aveiro desde Outubro de 2009 e continuar\u00e1 pelo menos no pr\u00f3ximo ano pastoral. Natural de S. Torcato, Guimar\u00e3es, assume-se \u201camante e s\u00f3cio\u201d do Vit\u00f3ria de Guimar\u00e3es, mas afirma que h\u00e1 um \u201cclube\u201d mais importante, do qual qualquer pessoa pode fazer parte sem se \u201cpreocupar com quotas\u201d: a Igreja de Cristo. Entrevista realizada por correio electr\u00f3nico por Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; O di\u00e1cono Jos\u00e9 Ant\u00f3nio est\u00e1 na Diocese de Aveiro h\u00e1 menos de um ano. Pode apresentar-se?<\/p>\n<p>JOS\u00c9 ANT\u00d3NIO CARNEIRO &#8211; Chamo-me Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Ribeiro de Lima Carneiro, nasci h\u00e1 29 anos, cumpridos a 16 de Janeiro. Sou natural da vila de S. Torcato, uma localidade do arciprestado de Guimar\u00e3es\/Vizela, da Arquidiocese de Braga. Sou o segundo de cinco irm\u00e3os, oriundo de uma fam\u00edlia cat\u00f3lica, empenhada em movimentos de apostolado e na vida da comunidade paroquial. Apesar disso, n\u00e3o h\u00e1 qualquer tradi\u00e7\u00e3o de sacerdotes, religiosos ou consagrados na minha fam\u00edlia, pelo menos que eu saiba\u2026<\/p>\n<p>Est\u00e1 na diocese de Aveiro desde o dia 28 de Outubro de 2009. Antes disso, que trabalhos desempenhou? <\/p>\n<p>Cheguei c\u00e1 como di\u00e1cono, ordenado em 2006, tendo trabalhado pastoralmente em tr\u00eas comunidades paroquiais de Vila Nova de Famalic\u00e3o e, depois disso, tendo estado dois anos como jornalista (ou a fazer de jornalista, como digo a brincar!) no jornal \u201cDi\u00e1rio do Minho\u201d, pertencente \u00e0 Arquidiocese de Braga, ao mesmo tempo que colaborava numa institui\u00e7\u00e3o social de apoio a rapazes oriundos de fam\u00edlias disfuncionais, chamada Oficina de S. Jos\u00e9, e tamb\u00e9m em duas par\u00f3quias do arciprestado de Braga, S\u00e9 Primaz e S. Jo\u00e3o de Souto.<\/p>\n<p>Como veio parar \u00e0 Diocese de Aveiro?<\/p>\n<p>Terminados estes dois anos, e consolidada a minha decis\u00e3o de me entregar a Cristo e \u00e0 Igreja como sacerdote, abriu-se a possibilidade de fazer uma experi\u00eancia pastoral noutra diocese, concretamente na de Aveiro. Foram variadas as raz\u00f5es que levaram \u00e0 minha vinda para Aveiro: a Arquidiocese de Braga, na pessoa do Arcebispo e tamb\u00e9m dos respons\u00e1veis do Semin\u00e1rio, viram com bons olhos a ideia; tamb\u00e9m a diocese de Aveiro, na pessoa do seu Bispo, D. Ant\u00f3nio Francisco, que, como se sabe, foi bispo auxiliar de Braga &#8211; e deixou saudade &#8211; aceitou a minha vinda; e, por fim, claro est\u00e1, eu mesmo quis vir. Claro que \u00e9 do conhecimento geral a boa rela\u00e7\u00e3o de permuta e partilha existente entre estas duas dioceses a este n\u00edvel. S\u00f3 para recordar, outras pessoas de Braga est\u00e3o ou estiveram em Aveiro (actualmente o P.e Costa Leite, o padre Ab\u00edlio Ara\u00fajo; no passado o P.e Fonte, entre outros\u2026).<\/p>\n<p>\u00c9 um minhoto aberto \u00e0 beira-mar, \u00e0 Bairrada, \u00e0 serra?<\/p>\n<p>O mais importante \u00e9 que sinta que a Igreja n\u00e3o tem fronteiras, a nenhum n\u00edvel, e tamb\u00e9m neste. Somos ordenados para Cristo, para a Igreja Universal, com express\u00e3o na Igreja Particular (diocese), claro est\u00e1, mas com a abertura de cora\u00e7\u00e3o para viver a miss\u00e3o onde for mais necess\u00e1rio.   <\/p>\n<p>Estou incardinado na Arquidiocese de Braga, mas isso n\u00e3o impede, ou n\u00e3o pode impedir, esta abertura de cora\u00e7\u00e3o para anunciar Cristo e o seu Evangelho onde for preciso. \u00c9 com essa vontade que estou em Aveiro, mais concretamente na Unidade Pastoral \u00c1gueda, nestas nove par\u00f3quias que a comp\u00f5em. <\/p>\n<p>Durante o pr\u00f3ximo ano, segundo \u201cacordo\u201d com a Arquidiocese de Braga e a Diocese de Aveiro, e com a minha vontade, continuo por terras aveirenses. No final do ano, reunimo-nos, avaliamos, pensamos e decidimos o futuro. <\/p>\n<p>Como \u00e9 o seu trabalho na Unidade Pastoral de \u00c1gueda?<\/p>\n<p>\u00c9 um trabalho normal: celebra\u00e7\u00f5es da Palavra, sacramentos, catequeses, cart\u00f3rios, pastoral juvenil e vocacional, um pouco de tudo neste caminhar cont\u00ednuo com o Povo de Deus que nos \u00e9 confiado. Trabalhar em equipa, para al\u00e9m de enriquecedor, \u00e9 frutuoso. Dou gra\u00e7as por sempre ter estado em equipas sacerdotais.<\/p>\n<p>A minha estadia em Aveiro tem sido extremamente positiva porque me tem permitido conhecer outras formas de trabalho pastoral, outras pessoas, outras formas de ser Igreja. Da\u00ed que o balan\u00e7o \u00e9, at\u00e9 ao momento, muito positivo, e espero que continue a ser no pr\u00f3ximo ano.  <\/p>\n<p>Como foi o seu despertar para a voca\u00e7\u00e3o de padre?<\/p>\n<p>O meu despertar vocacional aconteceu pelos 12 anos, quando me preparava para a Profiss\u00e3o de F\u00e9 e fui desafiado pela catequista para acolitar \u00e0 missa. A partir da\u00ed o testemunho e o exemplo do meu p\u00e1roco sempre me inquietou e fez-me colocar a tradicional quest\u00e3o do ser padre. Mas depressa passou com o tempo, para explodir, mais tarde, j\u00e1 com 17 anos, e com a ajuda j\u00e1 de outro p\u00e1roco. Terminado o 9.\u00ba ano, feita a experi\u00eancia de trabalho oper\u00e1rio, entrei no Semin\u00e1rio de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, em Braga, para o 10.\u00ba ano, e a\u00ed estive at\u00e9 ao 12.\u00ba.<\/p>\n<p>Depois do Secund\u00e1rio, entrei no Semin\u00e1rio Conciliar de S. Pedro e S. Paulo, e a\u00ed fiz toda a minha forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e pastoral em ordem ao sacerd\u00f3cio, quer na Faculdade de Teologia quer no pr\u00f3prio Semin\u00e1rio. <\/p>\n<p>A fam\u00edlia sempre me apoiou e continua. N\u00e3o esque\u00e7o os sacrif\u00edcios e as dificuldades dos meus pais e irm\u00e3os ao longo destes anos.  <\/p>\n<p>Trabalhou no \u201cDi\u00e1rio do Minho\u201d. Isso marcou-o?<\/p>\n<p>Foi uma experi\u00eancia que me proporcionou um contacto mais directo com a imprensa escrita e com a comunica\u00e7\u00e3o social em geral, \u00e2mbito e dimens\u00e3o fundamental para a vida da Igreja e para a sua miss\u00e3o pastoral no mundo actual, que vive em constante vertigem. J\u00e1 ningu\u00e9m duvida da import\u00e2ncia dos \u201cmedia\u201d, e a Igreja n\u00e3o lhes pode, de forma alguma, passar ao lado.  Mas tamb\u00e9m apreciei o meu trabalho na Oficina de S. Jos\u00e9. L\u00e1 encontrei rapazes que, apesar de todo um saldo negativo ao n\u00edvel dos afectos e da fam\u00edlia, me ensinaram que a vida vale sempre a pena, que h\u00e1 sempre luz e esperan\u00e7a, horizonte e meta. <\/p>\n<p>Vai ser ordenado padre num momento dif\u00edcil da Igreja, n\u00e3o s\u00f3 pelos esc\u00e2ndalos recentes, mas tamb\u00e9m pela constante mudan\u00e7a, pela perda de sentido de Deus na sociedade&#8230;<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o o tempo dif\u00edcil que a Igreja vive. N\u00e3o o olho com fatalismo, mas com esperan\u00e7a. \u00c9 o exemplo de Jeremias que consegue ver o ramo de amendoeira a florir, quando tudo \u00e0 volta \u00e9 lama, lodo, destrui\u00e7\u00e3o e invernia. <\/p>\n<p>A crise \u00e9 oportunidade para pensarmos melhor, para discernirmos os melhores caminhos. Apesar de estarmos num tempo em que muita gente coloca Deus de lado porque se sente auto-suficiente e endeusada, olho-o com optimismo e como desafio.<\/p>\n<p>Criticada a Igreja sempre ser\u00e1. \u00c9 a sua sina. Porque Deus, na pessoa do Filho, foi e \u00e9 criticado. N\u00e3o \u00e9 isso que me assusta. Se algo me assusta \u00e9 o comodismo das pessoas, cl\u00e9rigos e leigos, particularmente. Recordo as palavras do Papa a caminho de Portugal: \u201cOs inimigos est\u00e3o no interior\u201d. \u00c9 isto que temos de pensar, \u00e9 isto que temos de combater. <\/p>\n<p>A Igreja \u00e9 sempre derrotada aos olhos do mundo. Mas Deus continua a confiar e a apostar nela. Se assim n\u00e3o for, n\u00e3o faz sentido. A Igreja, ali\u00e1s, nasce da derrota, do esc\u00e2ndalo da cruz. Aos olhos do mundo, como \u00e9 que a cruz pode ser vit\u00f3ria? S\u00f3 aos olhos de Deus e da f\u00e9, podemos olhar a cruz como sinal de salva\u00e7\u00e3o, porque o Crucificado \u00e9 o Ressuscitado. A\u00ed est\u00e1 a nossa esperan\u00e7a, \u00e9 a\u00ed que somos (estamos) salvos.<\/p>\n<p>Como v\u00ea o minist\u00e9rio do padre? \u00c9 importante o sacerd\u00f3cio ministerial?<\/p>\n<p>A miss\u00e3o do padre passa por deixar ver em si mesmo Deus. O padre deve ser transpar\u00eancia de Deus. As pessoas devem ver Deus atrav\u00e9s do padre. Naquilo que ele \u00e9: pessoa, humano, imperfeito, limitado, fr\u00e1gil, vaso de barro, mas entregue, dado, oferecido a Deus, todo inteiro. <\/p>\n<p>O minist\u00e9rio sacerdotal n\u00e3o \u00e9 importante em si mesmo. \u00c9-o na medida em que Deus \u00e9 importante. Deus \u00e9 que \u00e9 importante e fundamental. Se assim n\u00e3o for invertemos as prioridades: e a prioridade \u00e9 Cristo e o seu Evangelho, enquanto o sacerd\u00f3cio (baptismal ou ministerial) \u00e9 instrumento para que Deus seja e esteja no mundo, nas pessoas.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero ser padre \u201cporqu\u00ea\u201d. Quero ser padre \u201cpara qu\u00ea\u201d e \u201cpara quem\u201d. Quero ser padre, em primeiro, para Deus e, depois, para quem mais precisar.<\/p>\n<p>Tem algum lema ou frase inspiradora?<\/p>\n<p>Escolhi, com os colegas que ser\u00e3o ordenados comigo, como lema da ordena\u00e7\u00e3o uma frase inspirada em S. Paulo: \u201cTudo fa\u00e7o por causa do Evangelho\u201d. Para a Missa Nova escolhi a frase dos Actos dos Ap\u00f3stolos: \u201cRecebereis a for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo e sereis minhas testemunhas at\u00e9 aos confins do mundo\u201d. Uma e outra t\u00eam como pano de fundo uma das minhas cita\u00e7\u00f5es preferidas de Santa Teresinha do Menino Jesus: \u201cQueria percorrer a terra, pregar Teu nome, implantar no solo infiel a Tua cruz gloriosa, mas, \u00f3 meu Bem Amado, uma miss\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o me bastaria. Quereria, ao mesmo tempo, anunciar o Evangelho nas cinco partes do mundo, e at\u00e9 nas ilhas mais long\u00ednquas. Quereria ser mission\u00e1rio, n\u00e3o apenas durante alguns anos, mas quereria t\u00ea-lo sido desde a Cria\u00e7\u00e3o do mundo at\u00e9 \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos\u201d.<\/p>\n<p>Para terminar, fale-nos dos seus gostos pessoais.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os meus gostos pessoais. Gosto de ler e escrever. Leio de tudo um pouco: desde o jornal \u00e0 revista, ao livro de teologia ou ao romance. Ou poesia, que \u00e9 um dos meus amores. Gosto de ler simultaneamente v\u00e1rios livros e procuro retirar deles aroma e seiva para a minha vida.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m gosto de escrever. Poesia em particular. Procuro partilhar o que escrevo, n\u00e3o pela qualidade que veja nisso, mas porque o que eu acho que n\u00e3o tem valor nenhum pode ajudar outras pessoas, uma vez que gosto de escrever sobre as minhas situa\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias de vida e a forma como eu as encaro e procuro superar. Aproveito este meu gosto ao n\u00edvel dos blogues e das redes sociais. Escrevo frequentemente no meu blogue pessoal (www.caritasdei.blogspot.com). Dos meus rabiscos po\u00e9ticos, fizeram uma pequena publica\u00e7\u00e3o que serviu para assinalar os onze anos da eleva\u00e7\u00e3o da minha terra natal a vila. O op\u00fasculo chama-se \u201cMeu Deus\u201d. Est\u00e1 esgotado. Primeiro, porque se produziram poucos, segundo, porque ofereci muitos, mas, principalmente, porque n\u00e3o houve procura que justificasse nova edi\u00e7\u00e3o\u2026 Tamb\u00e9m gosto de m\u00fasica. De ouvir, particularmente portuguesa, de todos os estilos e tempos, mas tamb\u00e9m de me aventurar, na viola ou no piano, a compor, rudimentarmente, algumas coisas. A estas chamo-lhes os meus devaneios\u2026 Gosto, por efeito (ou defeito!) de forma\u00e7\u00e3o, de m\u00fasica cl\u00e1ssica, claro est\u00e1!<\/p>\n<p>Gosto de desporto. De todo. De ver e de jogar. Aprecio mais o desporto-rei. E porque sou natural da cidade-ber\u00e7o de Portugal n\u00e3o \u00e9 preciso dizer qual \u00e9 o meu clube\u2026 Amante e s\u00f3cio! Mas h\u00e1 uma outra equipa, clube, ou associa\u00e7\u00e3o, o que se quiser dizer, que \u00e9 de quem quiser fazer parte e n\u00e3o se quer preocupar com quotas: a Igreja de Cristo. Nesta milito todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Carneiro, 29 anos, vai ser ordenado padre no pr\u00f3ximo domingo, na Bas\u00edlica do Sameiro, em Braga, pelas 15h30. Est\u00e1 na Diocese de Aveiro desde Outubro de 2009 e continuar\u00e1 pelo menos no pr\u00f3ximo ano pastoral. Natural de S. 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