{"id":22636,"date":"2011-04-13T10:03:00","date_gmt":"2011-04-13T10:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22636"},"modified":"2011-04-13T10:03:00","modified_gmt":"2011-04-13T10:03:00","slug":"raizes-ramos-e-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/raizes-ramos-e-flores\/","title":{"rendered":"Ra\u00edzes, ramos e flores"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Era uma festa de cruzes engalanadas, a velha prociss\u00e3o de ramos na aldeia, por meados do s\u00e9c. XX. As crian\u00e7as, conscientes do seu papel hist\u00f3rico na aclama\u00e7\u00e3o de Jesus, erguiam orgulhosamente as cruzes de vime ou pequenos troncos leves, com uma coroa a unir os bra\u00e7os, cobertas de alecrim, heras e flores, mais palmas e raminhos de oliveira a compor. A maior e a mais vistosa ficariam bem recordadas.<\/p>\n<p>As ora\u00e7\u00f5es e leituras eram em latim, mas sab\u00edamos que falavam de gestos de aclama\u00e7\u00e3o e de vit\u00f3ria, de acordo com o milen\u00e1rio poder simb\u00f3lico das \u00e1rvores e plantas. As folhas de palmeira aclamavam os antigos imperadores e prometiam eternidade. A oliveira falava de paz mas tamb\u00e9m lembrava o \u00f3leo com que se cobria o corpo para a luta. (A liturgia actual ter\u00e1 cedido demais ao \u00abminimalismo moderno\u00bb, n\u00e3o tirando partido da sua fun\u00e7\u00e3o \u00abeducadora\u00bb, n\u00e3o enriquecendo e harmonizando o conhecimento de n\u00f3s pr\u00f3prios e do mundo).<\/p>\n<p>As \u00e1rvores sempre formaram um verdadeiro \u00abpara\u00edso terrestre\u00bb (ou um \u00abbosque sagrado\u00bb), sobretudo para quem vive em zonas de fraca vegeta\u00e7\u00e3o. Poderoso s\u00edmbolo do universo, com ra\u00edzes que penetram as profundezas, o tronco que enfrenta as intemp\u00e9ries e baliza a paisagem, os ramos que se perdem no espa\u00e7o superior, lan\u00e7ados ao futuro (das l\u00ednguas latinas, o portugu\u00eas \u00e9 a \u00fanica que mant\u00e9m o g\u00e9nero feminino, atestando a exuber\u00e2ncia reprodutora da \u00e1rvore). Nos evangelhos, aparece a \u00e1rvore de bons frutos e a de maus frutos; Jesus compara-se a um caule robusto fonte de vida, e o reino de Deus assemelha-se a uma \u00e1rvore frondosa. S. Paulo j\u00e1 aponta para o sentido da cruz como nova \u00e1rvore da vida, um tema desenvolvido nos primeiros s\u00e9culos do cristianismo e que se encontra na liturgia da semana santa. (Veja-se por exemplo: Mateus 7,17-20; Lucas 13,18-19; Jo\u00e3o 15,1-2 1; Cor\u00edntios 1,18).<\/p>\n<p>\u00abLancei ra\u00edzes no meio do meu povo. Elevei-me como o cedro do L\u00edbano. Cresci como as palmeiras, como as roseiras de Jeric\u00f3 e as oliveiras da plan\u00edcie. Espalhei um perfume suave, e como a videira fiz germinar graciosos sarmentos\u00bb.<\/p>\n<p>Neste resumo do poema do Livro de Ben Sira (24,12-17), a Sabedoria \u00e9 uma \u00e1rvore solidamente radicada na terra. Como ela florescem os justos (Salmo 92,13-15; Jeremias 17,7-8), que at\u00e9 na velhice d\u00e3o muito fruto.<\/p>\n<p>Jesus absorveu a riqueza da cultura em que vivia, t\u00e3o profundamente que descobriu \u00aba fonte de \u00e1gua viva\u00bb (Jo\u00e3o 4,10-14): lutou por lhe manter a limpidez, e lan\u00e7ou as ramagens mais acolhedoras e singulares. <\/p>\n<p>Nos relatos da paix\u00e3o, \u00e9 impressionante a az\u00e1fama dos poderosos para derrubar Jesus, como lenhadores ansiosos por destruir uma \u00e1rvore gigantesca. Mas as ra\u00edzes desta eram t\u00e3o arraigadas que provocaram uma explos\u00e3o de vida por toda a terra, com as formas mais variadas. (Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que \u00e0 sua sombra nasceram ervas e at\u00e9 \u00e1rvores daninhas, como lembra Mateus 13,24-30). <\/p>\n<p>A morte de Jesus foi o fruto de uma vida sem fingimento e convida-nos a explorar todo o sabor da exist\u00eancia. Sem a cobardia dos disc\u00edpulos, que fugiram de quem sofre; e fazendo da \u00ab\u00faltima ceia\u00bb uma perene \u00ab\u00fanica ceia\u00bb, onde se partilha o prazer, os ideais, as tristezas e alegrias, pr\u00f3prios de comensais que se preparam para a ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os sonhos e desejos voam como as flores e sementes das \u00e1rvores e todos eles ir\u00e3o fertilizar o mundo. Mesmo os mais verdes ramos arrancados, ainda no limiar da vida, n\u00e3o nasceram em v\u00e3o. Como os que foram colhidos pela multid\u00e3o para saudar Jesus (num entusiasmo ef\u00e9mero), deixaram atr\u00e1s de si novos rebentos e o cheiro intenso da primavera. E todos n\u00f3s, como crian\u00e7as, vamos cobrindo de verdura, flores e frescura as cruzes com que sa\u00edmos todas as manh\u00e3s.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-22636","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22636"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22636\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}