{"id":22642,"date":"2011-04-13T10:08:00","date_gmt":"2011-04-13T10:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22642"},"modified":"2011-04-13T10:08:00","modified_gmt":"2011-04-13T10:08:00","slug":"reflectir-para-acolher-e-dialogar-com-proveito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/reflectir-para-acolher-e-dialogar-com-proveito\/","title":{"rendered":"Reflectir para acolher e dialogar com proveito"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 recente a cria\u00e7\u00e3o do P\u00e1tio dos Gentios, uma iniciativa do Pontif\u00edcio Conselho da Cultura, concretizada em lugares e momentos de encontro, reflex\u00e3o, escuta, di\u00e1logo e partilha com os n\u00e3o crentes, agn\u00f3sticos ou mesmo ateus. Gente que n\u00e3o entra no templo, mas est\u00e1 dispon\u00edvel para partilhar saber, experi\u00eancias e interroga\u00e7\u00f5es, mais ou menos inc\u00f3modas. A\u00ed se poder\u00e1 encontrar uma Igreja despida da apolog\u00e9tica inc\u00f3moda de s\u00e9culos passados, sem intuitos e manobras de um proselitismo f\u00e1cil, consciente do valor do pluralismo, preparada para novas formas de di\u00e1logo e, certamente, tamb\u00e9m ela disposta a aprender, escutar e propor.<\/p>\n<p>Este facto acordou os adormecidos para a necessidade do di\u00e1logo com a cultura emergente com propostas da f\u00e9 da Igreja e da sua sensibilidade aos problemas que preocupam as pessoas e a sociedade, sejam eles de que natureza forem. Esta iniciativa precedida pela \u201cc\u00e1tedra dos n\u00e3o crentes\u201d do Cardeal Martini, e experimentada de modos diversos, tamb\u00e9m em Portugal, n\u00e3o tem apenas a ver com as grandes cidades nas quais se cruzam as correntes mais determinantes da cultura e do pensamento, mas de todo o s\u00edtio onde h\u00e1 gente viva.<\/p>\n<p>A luta, que ainda por a\u00ed travam alguns movimentos laicos e ateus, est\u00e1 fora do tempo. Restos de um passado, condenado por uma nova cultura do respeito e do di\u00e1logo. Os direitos humanos, promulgados e reconhecidos, o pluralismo em todas as suas express\u00f5es, a dignifica\u00e7\u00e3o integral da pessoa, qualquer que seja a sua ra\u00e7a, cultura, l\u00edngua, cor ou religi\u00e3o, uma vis\u00e3o purificada da hist\u00f3ria, a globaliza\u00e7\u00e3o que nos torna cada dia mais vizinhos uns dos outros, as novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o cada vez mais acess\u00edveis \u00e0 maioria denunciam todas as formas de gueto fechado e todos os muros que ainda separam. O tempo \u00e9 de lan\u00e7ar pontes que unem, n\u00e3o de abrir fossos que impedem a comunica\u00e7\u00e3o mais normal.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a Igreja, mormente a partir do Concilio Vaticano II, vem aprendendo, para ela uma li\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, a dialogar e a dar mais valor ao que se passa, tanto dentro, como fora do seu espa\u00e7o de vida. E, se o di\u00e1logo interno ainda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil como seria normal, o dialogar com o mundo, ler a realidade, perceber os seus dinamismos, entrar sem preconceitos nos seus projectos mais v\u00e1lidos e determinantes, tem constitu\u00eddo, para muita gente, um caminho duro pelos contrastes que apresenta com modos de ver de agir de muitos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia hist\u00f3rica diz que, desde h\u00e1 dois mil anos, o acontecimento crist\u00e3o tem estado presente na hist\u00f3ria, nos lugares p\u00fablicos, ainda que, por vezes mais evidente, naquilo que ele \u00e9 como sinal de contradi\u00e7\u00e3o. Desde os in\u00edcios, at\u00e9 \u00e0 sociedade secularizada em que hoje vivemos, apesar das muitas vicissitudes, a mensagem crist\u00e3 vem subsistindo e, para muitos, ela constitui sentido e horizonte de vida. As dificuldades, hoje sentidas por for\u00e7a do dinamismo da miss\u00e3o, obrigam a Igreja a melhor se conhecer a si pr\u00f3pria para aprofundar e defender a sua identidade, se capacitar para viver e agir num mundo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 homog\u00e9neo, mas diverso e plural, com novas dificuldades, mas tamb\u00e9m com novas oportunidades.<\/p>\n<p>Pensar apenas em conservar os crentes tradicionais \u00e9 depauper\u00e1-los. Muitas tradi\u00e7\u00f5es de ontem, pouco mais comportam que a mensagem que no tempo as animou. A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 vida que se renova, as tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o imunes ao caruncho que as deteriora e inutiliza. Neste sentido, toda a ac\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 necessariamente criativa e muito mais, se pretende comunicar coisas essenciais. Muitas destas perderam a sua riqueza. Dificilmente a recuperam como vida, sem o confronto di\u00e1rio com o tempo, a cultura, a vida das pessoas concretas. As verdades da f\u00e9 n\u00e3o s\u00e3o pe\u00e7as de museu, mas s\u00e3o, em todos os tempos, verdades para a vida.<\/p>\n<p>Torna-se necess\u00e1rio multiplicar os \u201cp\u00e1tios dos gentios\u201d e pensar a ac\u00e7\u00e3o pastoral no confronto com a cultura reinante, que j\u00e1 n\u00e3o toca s\u00f3 a grupos de intelectuais, mas modela a vida e o agir de todas as pessoas, seja qual for o recanto que as abriga. Pensar e agir apenas em fun\u00e7\u00e3o da vida interna das comunidades crist\u00e3s, e \u00e9 ainda isto o mais comum nas preocupa\u00e7\u00f5es de muitos respons\u00e1veis generosos, \u00e9 perder oportunidades de evangeliza\u00e7\u00e3o, malbaratar recursos e energias, semear frustra\u00e7\u00f5es, ficar fora do tempo, deixar a Igreja a falar sozinha e para os que julga que ainda ter como seus. Os n\u00e3o crentes t\u00eam a sua c\u00e1tedra. Como Paulo em Atenas \u00e9 preciso ouvi-los para que eles ou\u00e7am tamb\u00e9m os outros mensageiros do Reino.<\/p>\n<p>As pessoas honestas de um mundo secularizado n\u00e3o rejeitam os apelos do transcendente e do religioso. Se n\u00e3o encontram resposta, rumam \u00e0 procura, como peregrinos, e v\u00e3o batendo \u00e0s portas onde se anuncia algo que tenha a ver com o espiritual, que grita e incomoda dentro de cada um. A prolifera\u00e7\u00e3o de movimentos religiosos e inici\u00e1ticos, a invas\u00e3o progressiva das espiritualidades orientais, os bra\u00e7os abertos dos criadores de emo\u00e7\u00f5es, tudo s\u00e3o lugares de ref\u00fagio, que fazem reflectir para agir. N\u00e3o em tom de cruzada, mas de responsabilidade. <\/p>\n<p>Os melhores despertadores da Igreja s\u00e3o os que lhe p\u00f5em problemas, n\u00e3o os que lhe tecem coroas de louros. Hoje, o grito de alerta mais forte vem dos de fora que questionam, dos que v\u00e3o mais facilmente ao \u201cp\u00e1tio dos gentios\u201d, que ao templo, sem que a estes se retire a palavra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 recente a cria\u00e7\u00e3o do P\u00e1tio dos Gentios, uma iniciativa do Pontif\u00edcio Conselho da Cultura, concretizada em lugares e momentos de encontro, reflex\u00e3o, escuta, di\u00e1logo e partilha com os n\u00e3o crentes, agn\u00f3sticos ou mesmo ateus. Gente que n\u00e3o entra no templo, mas est\u00e1 dispon\u00edvel para partilhar saber, experi\u00eancias e interroga\u00e7\u00f5es, mais ou menos inc\u00f3modas. 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