{"id":22678,"date":"2011-03-30T11:54:00","date_gmt":"2011-03-30T11:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22678"},"modified":"2011-03-30T11:54:00","modified_gmt":"2011-03-30T11:54:00","slug":"mais-vale-cair-em-graca-do-que-ser-engracado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/mais-vale-cair-em-graca-do-que-ser-engracado\/","title":{"rendered":"Mais vale cair em gra\u00e7a do que ser engra\u00e7ado"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> O ponto \u00e9 sabermos de quem \u00e9 a gra\u00e7a em que ca\u00edmos. Muitas vezes, cair em gra\u00e7a de algu\u00e9m \u00e9 prender-se \u00e0 desgra\u00e7a desse algu\u00e9m. Raramente \u00e9 seguro cair em gra\u00e7a, enquanto isso n\u00e3o se traduzir numa situa\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia econ\u00f3mica. \u00c9 claro que h\u00e1 sempre quem saiba aproveitar-se bem da \u00abgra\u00e7a\u00bb dos outros.<\/p>\n<p>Na 1.\u00aa leitura, foi David quem caiu em gra\u00e7a, embora n\u00e3o fosse ele mas Eliab o mais engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>S. Paulo d\u00e1 uma volta ao prov\u00e9rbio: se n\u00e3o nos fazemos engra\u00e7ados perante Deus, n\u00e3o conseguimos cair na sua gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Quanto a S. Jo\u00e3o, apresenta-nos uma das hist\u00f3rias mais dramaticamente bem desenvolvidas de todo o Evangelho. O cego caiu na gra\u00e7a de Jesus sem sequer pretender fazer-se engra\u00e7ado; fez-se engra\u00e7ado perante os fariseus e s\u00f3 lhes caiu na desgra\u00e7a; finalmente seguiu o conselho de S. Paulo: mostrou a Jesus a sua maneira de ser engra\u00e7ado e Jesus revelou-lhe o segredo e a for\u00e7a da sua gra\u00e7a.<\/p>\n<p>O prov\u00e9rbio em quest\u00e3o \u00e9 exemplo da sabedoria amarga: d\u00e1 conta de que o sucesso na vida depende mais do proteccionismo do que do valor pessoal. Mas tamb\u00e9m \u00e9 um conselho de prud\u00eancia e at\u00e9 de esperteza: os poderosos n\u00e3o podem ser atacados frontalmente, e at\u00e9 se tornam fracos se lhes alimentamos a vaidade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para um princ\u00edpio estrat\u00e9gico: \u00abQual \u00e9 o rei que parte para a guerra contra outro rei e n\u00e3o se senta primeiro para examinar\u00bb a probabilidade de vit\u00f3ria? (Lucas 14, 31-32). <\/p>\n<p>Jesus \u00e9 realista (porque sabe o valor dos ideais): cada pessoa tem um modo pr\u00f3prio para o seguir. A grande gra\u00e7a de Deus \u00e9 que nos fez, a cada um de n\u00f3s, inimitavelmente engra\u00e7ados. \u00c9 com o jeitinho de cada qual que ca\u00edmos na gra\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Acontece que, na maioria das organiza\u00e7\u00f5es humanas, este jeitinho ou originalidade \u00e9 olhado com suspeita e mesmo com aberta desaprova\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito mais f\u00e1cil organizar uma sociedade quando n\u00e3o se permitem posi\u00e7\u00f5es pessoais. E os crit\u00e9rios de escolha de pessoas assentam facilmente, por isso mesmo, em caracter\u00edsticas superficiais, as \u00fanicas facilmente avali\u00e1veis, ao contr\u00e1rio das qualidades profundas de algu\u00e9m. <\/p>\n<p>A \u00abcomunidade jo\u00e2nica\u00bb \u00e9 a fonte do Quarto Evangelho (o de Jo\u00e3o), que explora abundantemente as oposi\u00e7\u00f5es luz\/trevas, esp\u00edrito\/carne, vida\/morte, verdade\/falsidade, c\u00e9u\/terra. Os problemas e perplexidades desse grande grupo reflectem-se ao longo de todo o evangelho (bem como no Livro do Apocalipse). Ningu\u00e9m desse grupo tinha conhecimento directo de Jesus e debatiam-se num mundo em que n\u00e3o era f\u00e1cil acreditar a s\u00e9rio na sua mensagem. Ouviam falar de Jesus como sendo \u00aba vida\u00bb mas no cen\u00e1rio em que a morte \u00e9 angustiante. Nem sequer eram tolerados pela comunidade judaica, e a maioria dos termos religiosos da cultura hebraica j\u00e1 pouco lhes dizia. <\/p>\n<p>A esta comunidade n\u00e3o interessavam tanto as \u00abhist\u00f3rias sobre Jesus\u00bb mas sim o que Jesus podia significar noutros tempos e contextos. O \u00abEvangelho de Jesus\u00bb n\u00e3o \u00e9 visto como um c\u00f3digo mas sim como a revela\u00e7\u00e3o da \u00abgra\u00e7a de Deus\u00bb, que aumenta a nossa insatisfa\u00e7\u00e3o por uma vida plena, j\u00e1 agora e para sempre. Muito significativamente, S. Jo\u00e3o nunca usa o substantivo \u00abf\u00e9\u00bb mas unicamente o verbo equivalente a \u00abter f\u00e9\u00bb, notando que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 um bem de heran\u00e7a: \u00e9 uma luta cont\u00ednua por descobrir o que \u00e9 Deus para n\u00f3s.<\/p>\n<p>O facto da figura hist\u00f3rica de Jesus se ir afastando no tempo provocou a consci\u00eancia de que a vida de Jesus era de facto uma vida junto de um Pai para o qual ningu\u00e9m morre (Lucas 20, 38). E de que Jesus foi a express\u00e3o do amor desse Pai. E de que a for\u00e7a desse amor (ou Esp\u00edrito de Deus) continua connosco, continuando a revela\u00e7\u00e3o pelos tempos fora e provocando o nosso jeito de nos fazermos engra\u00e7ados, como o cego que se foi lavar \u00e0 piscina do \u00abEnviado\u00bb.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-22678","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22678"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22678\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}