{"id":22752,"date":"2011-03-23T10:37:00","date_gmt":"2011-03-23T10:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22752"},"modified":"2011-03-23T10:37:00","modified_gmt":"2011-03-23T10:37:00","slug":"a-traicao-das-palavras-felicidade-liberdade-e-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-traicao-das-palavras-felicidade-liberdade-e-amor\/","title":{"rendered":"A trai\u00e7\u00e3o das palavras Felicidade, Liberdade e Amor"},"content":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m que se propusesse encontrar os termos mais importantes para definir o Cristianismo n\u00e3o ficaria longe de uma resposta definitiva ao deparar-se com as ideias de felicidade, liberdade e amor.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa, por\u00e9m, de ser curioso que, se esse mesmo algu\u00e9m envidasse esfor\u00e7os para definir o que se prop\u00f4s construir a modernidade, que se afirmou por oposi\u00e7\u00e3o ao Cristianismo, encontrasse como palavras definidoras de tal esfor\u00e7o as mesmas felicidade, liberdade e amor.<\/p>\n<p>Mas, ent\u00e3o, onde radica a distin\u00e7\u00e3o entre o uso que das mesmas palavras se faz, em contexto crist\u00e3o ou no \u00e2mbito de uma sociedade secularizada?<\/p>\n<p>Arrisco uma resposta. <\/p>\n<p>\u00c9 a amplitude do conceito que as palavras ocultam que gera o desencontro. <\/p>\n<p>A modernidade, definida como esp\u00edrito que come\u00e7a a construir-se a partir do s\u00e9culo XVI e que muitos caracterizam como sendo uma era da afirma\u00e7\u00e3o da autonomia, segmentou os conceitos. Entendo, por \u00absegmentar\u00bb, a ideia de que se fragmenta um conceito amplo e se toma apenas um segmento desses muitos fragmentos, resultando da\u00ed, afinal, um novo conceito, reduzido a uma parte de si.<\/p>\n<p>Aplicando aos conceitos em an\u00e1lise, perceberemos melhor o alcance desta observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Cristianismo \u00e9 rico nas refer\u00eancias \u00e0 felicidade, \u00e0 liberdade, ao amor. Quem s\u00e3o os verdadeiros crist\u00e3os sen\u00e3o os bem-aventurados (os felizes), os que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o presos a nada nem por nada, os que amam porque j\u00e1 nada os det\u00e9m em si mesmos? <\/p>\n<p>Mas, para os ouvidos modernos, tais palavras soam a estranhas, pois, falar de felicidade, de liberdade, de amor, em pouco parece coincidir com estes conceitos. Na realidade, tal deve-se a que os novos conceitos de felicidade, liberdade e amor tomaram uma parte do conceito original, mas n\u00e3o retiveram o que eles tinham de mais sublime.<\/p>\n<p>Assim, da felicidade ficou o sentimento de tens\u00e3o que gera um qualquer prazer, que, por ser ef\u00e9mero, se desgasta com avidez e some o homem num corrupio de vertigens incessantes. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 feliz, neste novo conceito, o homem que procura engrandecer-se, combater os seus mais ef\u00e9meros desejos em nome de um futuro maior. O futuro ainda n\u00e3o alcan\u00e7ado foi substitu\u00eddo pela convic\u00e7\u00e3o de que ser\u00e1 um futuro nunca concretizado, redundando no medo de que fosse uma miragem jamais realizada. Tal medo aprisionou o homem na fugaz tenta\u00e7\u00e3o de sentir-se feliz. Mas, ser feliz n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sentir-se feliz. \u00c9 ser\u2026 na felicidade.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, a liberdade, que se definia como a capacidade de saber escolher o melhor, capacidade que distinguia, claramente, o homem dos demais seres, porque estes n\u00e3o podiam sen\u00e3o deixar-se mover pelos instintos, ficou reduzida \u00e0 capacidade de escolher. Ora, escolher, sem qualquer horizonte, com uma tal aleatoriedade que pode redundar na nega\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria escolha (como acontece no caso do suicida que, de forma supostamente livre, decide acabar em definitivo com a sua liberdade) \u00e9 algo que tem muito de inumano, pois tudo o que o homem faz tem condicionamentos, est\u00e1 dependente de um horizonte, de um enquadramento\u2026 Uma liberdade que fosse pretendida como capacidade n\u00e3o condicionada seria tudo menos uma capacidade humana. E \u00e9 de uma natureza deste tipo que a modernidade parece querer falar, ao supor que se pudesse decidir sem condicionamentos. Ora, tal \u00e9 definir sem respeitar o definido. \u00c9, por isso, errar. E \u00e9 de um erro que se trata quando se pretende, na modernidade, usar um conceito de liberdade que n\u00e3o tem verifica\u00e7\u00e3o na realidade. O homem ser\u00e1 sempre n\u00e3o livre enquanto continuar a supor que ser livre \u00e9, simplesmente, poder escolher. Porque ele n\u00e3o pode, simplesmente, escolher. Ele \u00e9, antes, livre se souber escolher o que de melhor se lhe afigura nas condi\u00e7\u00f5es concretas.<\/p>\n<p>Por fim, tamb\u00e9m com o amor o processo foi semelhante. Do amor como decis\u00e3o que envolve o ser humano, no seu todo, resistiu, apenas, a dimens\u00e3o emocional do amor. Amar \u00e9, neste novo conceito, sentir amor. Ora, quando o sentimento trai o olhar e parece sumir no nevoeiro, o amor, para o homem moderno, o amor acabou. Para o crist\u00e3o, o amor est\u00e1 a crescer, a exigir que se envolvam as outras dimens\u00f5es do homem que estavam sossegadas e adormecidas, enquanto o sentimento tornava \u00f3bvia a presen\u00e7a do amor. Amar o ser humano que pede, quando o seu olhar \u00e9 brilhante e transparente e nele se reflecte o outro que eu sou, n\u00e3o \u00e9 exig\u00eancia de amor. Amar, quando o olhar do outro se oculta num rosto desfigurado ou matizado ou diferente, quando o sentimento n\u00e3o \u00e9 de espont\u00e2nea simpatia, torna-se exig\u00eancia de amor e as demais dimens\u00f5es do humano devem ser despertas. Ora, para o homem moderno, nesta hora, essas dimens\u00f5es devem permanecer adormecidas e procurar-se um outro cen\u00e1rio em que, renovadamente, se tornem fulgurantes os sentimentos de \u00abamor\u00bb. Mas jamais haver\u00e1 amor, enquanto este for o comportamento. Porque o que de humano ficar\u00e1 ser\u00e1, apenas, o fugaz, ef\u00e9mero, prazenteiro\u2026 O homem esgotar-se-\u00e1 no presente de cada momento, sem mem\u00f3ria, sem projecto; sem intelig\u00eancia, sem vontade; sem outros nem tus, mas apenas \u00abeus\u00bb, sentires e afectos.<\/p>\n<p>\u00c9 por isto que felicidade, liberdade e amor s\u00e3o algo diferente do que se diz por a\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m que se propusesse encontrar os termos mais importantes para definir o Cristianismo n\u00e3o ficaria longe de uma resposta definitiva ao deparar-se com as ideias de felicidade, liberdade e amor. N\u00e3o deixa, por\u00e9m, de ser curioso que, se esse mesmo algu\u00e9m envidasse esfor\u00e7os para definir o que se prop\u00f4s construir a modernidade, que se afirmou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-22752","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22752","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22752"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22752\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}