{"id":22763,"date":"2011-04-06T10:09:00","date_gmt":"2011-04-06T10:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22763"},"modified":"2011-04-06T10:09:00","modified_gmt":"2011-04-06T10:09:00","slug":"e-viveram-felizes-para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/e-viveram-felizes-para-sempre\/","title":{"rendered":"&#8220;E viveram felizes para sempre&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> N\u00e3o acontece, por vezes, relermos a mesma hist\u00f3ria com a esperan\u00e7a irracional de que as coisas se passem doutra maneira mais a nosso gosto? E tentamos novamente, saboreando os momentos em que quase tudo parecia ir correr pelo melhor, sonhando com um final feliz.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m gostamos de reler ou rever as velhas hist\u00f3rias que adoramos, em que o mundo parece melhor. E talvez acreditemos que as coisas sejam assim, embora n\u00e3o pare\u00e7am.<\/p>\n<p>As tr\u00eas leituras de hoje parecem recontar a perene esperan\u00e7a de um milagre contra a morte. A pr\u00f3pria ci\u00eancia de hoje pretende entrar neste concurso de milagres.<\/p>\n<p>O \u00abmilagre da ci\u00eancia\u00bb, por muito satisfat\u00f3rio que possa vir a ser, levanta s\u00f3 por si uma quest\u00e3o: por muito que prolongue a vida, ser\u00e1 apenas \u00abesta vida\u00bb, em que n\u00e3o conseguimos controlar os sinais de morte em n\u00f3s e \u00e0 nossa volta. A morte \u00e9 a experi\u00eancia suprema de que n\u00e3o somos senhores da vida e nem sequer da sua qualidade.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 bem natural que sustentemos o desejo duma vida \u00abfeliz para sempre\u00bb. Um desejo especialmente aprofundado nas experi\u00eancias religiosas de muitos mil\u00e9nios e culturas.<\/p>\n<p>A leitura do profeta Ezequiel \u00e9 um pequeno extracto da c\u00e9lebre vis\u00e3o em que ele se v\u00ea num vale enorme cheio de ossos j\u00e1 ressequidos. Entendeu que significavam o povo destro\u00e7ado de Israel, j\u00e1 sem esperan\u00e7a de viver. E Deus mandou-lhe ordenar aos ossos que recebessem de novo o sopro da vida. Ezequiel assim fez e eis que todo o vale entrou em ebuli\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o de novos corpos aparentemente vigorosos, mas ainda sem esp\u00edrito. Deus tornou a mandar que gritasse: \u00abEsp\u00edrito, vem dos quatro ventos, sopra sobre estes mortos, para que eles recuperem a vida!\u00bb E Ezequiel continua o seu sonho nestes termos impressionantes: \u00abProfetizei como me era ordenado e imediatamente o esp\u00edrito penetrou neles. Retomando a vida, endireitaram-se sobre os p\u00e9s; era um ex\u00e9rcito muito numeroso\u00bb. Segue-se a cita\u00e7\u00e3o da leitura de hoje, em que se fala de todo um povo a sair das sepulturas, porque o Senhor chama para a vida.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o de Ezequiel, apresentada por ele pr\u00f3prio apenas como vis\u00e3o, exerceu profunda influ\u00eancia no imagin\u00e1rio da cultura judaico-crist\u00e3, como se pode ver na literatura apocal\u00edptica e nas hist\u00f3rias terrificantes das velhas catequeses e de contos populares. Todos n\u00f3s somos atra\u00eddos pelo extraordin\u00e1rio. <\/p>\n<p>Aqui o extraordin\u00e1rio \u00e9 um olhar sem preconceitos sobre o ordin\u00e1rio. Onde n\u00f3s vemos morte, v\u00ea Deus vida. Onde n\u00f3s vemos destro\u00e7os, v\u00ea Deus a estrutura de novos tempos. Quando vemos a vida como um lusco-fusco em que nada \u00e9 claro, em que tudo se esvanece, Deus v\u00ea o lusco-fusco de um eterno amanhecer, v\u00ea a maravilha \u2013 o milagre \u2013 do nascer sempre novo.<\/p>\n<p>S. Paulo, com os conhecimentos e conceitos pr\u00f3prios da \u00e9poca, fala do nosso \u00abcorpo ressuscitado\u00bb como forma concreta de um n\u00edvel de vida superior, sem o lusco-fusco da morte, por virtude do \u00abEsp\u00edrito de Deus que ressuscitou Jesus\u00bb.<\/p>\n<p>E quem n\u00e3o conhece a hist\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro? Deu-se demasiada import\u00e2ncia aos aspectos impressionantes (imposs\u00edveis de comprovar) \u2013 quando o pr\u00f3prio evangelista se interessa sobretudo por dar uma nova luz \u00e0 pessoa e mensagem de Jesus Cristo. A brevidade com que \u00e9 relatado o \u201cfinal feliz\u201d da hist\u00f3ria contrasta com o desenvolvimento do texto sobre quem \u00e9 Jesus. Ali\u00e1s, o chamado \u00abevangelho de Jo\u00e3o\u00bb serve-se de hist\u00f3rias, mais ou menos plaus\u00edveis, como s\u00edmbolos profundos do que era \u00aba boa nova\u00bb proclamada por Jesus, conseguindo uma dram\u00e1tica exposi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, onde entram a dor e a alegria, o desespero e a esperan\u00e7a, o amor e o \u00f3dio, a perda e o encontro.<\/p>\n<p>S. Jo\u00e3o queria que todos experimentassem que Jesus \u00e9 a vida, mas n\u00e3o esta vida que morre e que nos faz chorar como o pr\u00f3prio Jesus chorou. Os amigos de Jesus tamb\u00e9m morrem, Jesus correu perigos e n\u00e3o conseguiu fugir \u00e0 morte.<\/p>\n<p>A comunidade de S. Jo\u00e3o precisava de sentir que Jesus tinha recebido o poder do Esp\u00edrito capaz de dar vida e entusiasmo a povos inteiros que se sentem destro\u00e7ados. Cotejando Ezequiel, precisamos de nos sentir unidos como um ex\u00e9rcito que n\u00e3o desiste de lutar pela justi\u00e7a. Todo o evangelho de Jo\u00e3o afirma tenazmente que n\u00e3o somos feitos para a morte \u2013 mas sim para a Vida que \u00e9 \u00aba Luz dos homens\u00bb (Jo\u00e3o, 1,4).   <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-22763","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22763","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22763"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22763\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22763"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22763"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22763"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}