{"id":2278,"date":"2010-09-01T10:04:00","date_gmt":"2010-09-01T10:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2278"},"modified":"2010-09-01T10:04:00","modified_gmt":"2010-09-01T10:04:00","slug":"foi-a-sombra-da-igreja-que-surgiram-as-principais-instituicoes-da-gafanha-da-nazare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/foi-a-sombra-da-igreja-que-surgiram-as-principais-instituicoes-da-gafanha-da-nazare\/","title":{"rendered":"Foi \u00e0 sombra da Igreja que surgiram as principais institui\u00e7\u00f5es da Gafanha da Nazar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>A Gafanha da Nazar\u00e9, par\u00f3quia e freguesia, tem vindo a celebrar os 100 anos de exist\u00eancia. D. Manuel II assinou o decreto no dia 23 de Junho de 1910 (provavelmente, o \u00faltimo de cria\u00e7\u00e3o de uma freguesia na monarquia), enquanto o Bispo de Coimbra criou canonicamente a par\u00f3quia no dia 31 de Agosto de 1910. Para assinalar o centen\u00e1rio, entre outras iniciativas, publicou-se o livro \u201cGafanha da Nazar\u00e9, 100 anos de vida\u201d, da autoria de Fernando Martins, antigo professor do ensino b\u00e1sico, di\u00e1cono, director do \u201cCorreio do Vouga\u201d entre 1992 e 2004, profundo conhecedor da terra que o viu nascer. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 Escreveu este livro (apresentado publicamente no Centro Cultural da Gafanha da Nazar\u00e9, no dia 7 de Agosto) num tempo recorde. Tal deve-se, tamb\u00e9m, ao facto de h\u00e1 muito investigar e escrever sobre a Gafanha da Nazar\u00e9\u2026<\/p>\n<p>FERNANDO MARTINS &#8211; A par\u00f3quia fez-me o desafio no final de 2009: um livro para celebrar o centen\u00e1rio. Aceitei a miss\u00e3o, embora pensasse que n\u00e3o seria tarefa para uma pessoa s\u00f3. Fiquei encarregado de arranjar uma equipa, mas depois resolvi assumir integralmente a tarefa da escrita. Na minha \u00f3ptica, teria menos trabalho, evitando reuni\u00f5es e revis\u00f5es do trabalho de outros, at\u00e9 porque, de facto j\u00e1 tinha alguma coisa escrita e tenho as minhas pr\u00f3prias ideias. A verdade \u00e9 esta: a par\u00f3quia tem 100 anos e eu vivi quase tr\u00eas quartos desse per\u00edodo. Mar\u00e7o, Abril e Maio foram os meses mais intensos de investiga\u00e7\u00e3o e escrita.<\/p>\n<p>O livro n\u00e3o \u00e9 uma autobiografia, mas alimenta-se certamente das suas viv\u00eancias\u2026<\/p>\n<p>Eu estive sempre, desde menino, integrado na par\u00f3quia, desde a pr\u00e9-JOC (Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica \u2013 de que seria dirigente diocesano). Na freguesia, a mesma coisa. Sempre lutei, desde jovem, em defesa da Gafanha, quer integrando os seus organismos e associa\u00e7\u00f5es, quer escrevendo nos jornais da JOC, no \u201cTimoneiro\u201d [mens\u00e1rio da par\u00f3quia], como correspondente do Com\u00e9rcio do Porto\u2026<\/p>\n<p>Hoje prossegue essa defesa na r\u00e1dio e na imprensa regional e nos seus blogues Pela Positiva e Galafanha. Mas o uso mais eficaz da comunica\u00e7\u00e3o social talvez tenha sido a quando da eleva\u00e7\u00e3o a vila\u2026<\/p>\n<p>Sim, antes da Gafanha ser elevada a vila (1969), dinamizei a campanha pela comunica\u00e7\u00e3o social, que na altura eram os jornais. Trouxe c\u00e1, com a colabora\u00e7\u00e3o do Daniel Rodrigues, um jornalista do \u201cDi\u00e1rio Popular\u201d, o \u00c2ngelo Granja, que fez a reportagem: \u201cDo deserto nasceu uma vila\u201d (21-12-1966). O processo de recolha de elementos para o processo de eleva\u00e7\u00e3o foi elaborado pelo P.e Domingos Rebelo e por mim. Fui pr\u00f3ximo dele e tamb\u00e9m de outros p\u00e1rocos.<\/p>\n<p>O Daniel fez v\u00e1rias reportagens no \u201cCom\u00e9rcio de Porto\u201d, um jornal que na altura n\u00e3o era lido aqui. Tinha apenas um leitor. Fez-se ent\u00e3o uma campanha de porta a porta, com ardinas a apregoar o jornal que trazia a reportagem do pedido de vila. Na minha sala foi dado um lanche aos jornalistas convidados para visitar a Gafanha da Nazar\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Apesar de h\u00e1 muito escrever sobre a Gafanha, encontrou aspectos novos na investiga\u00e7\u00e3o para este livro?<\/p>\n<p>Destaco uns artigos que sa\u00edram no \u201cDi\u00e1rio de Lisboa\u201d, em 1947. Algu\u00e9m alertou o jornal para o descontentamento que havia na Gafanha da Nazar\u00e9. Nas reuni\u00f5es da C\u00e2mara s\u00f3 se falava da \u00cdlhavo e da Costa Nova. Um enviado especial n\u00e3o identificado fez quatro reportagens. Penso que ter\u00e1 sido Carolina Homem Cristo, directora da revista \u201cEva\u201d, a alertar o jornalista para o descontentamento. \u201cM\u00e3o fina de mulher trouxe \u00e0 nossa redac\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d, diz o jornal. Falava-se ent\u00e3o da pretens\u00e3o da Gafanha se desligar de \u00cdlhavo e integrar Aveiro. T\u00ednhamos na altura cinco mil habitantes. O mestre M\u00f3nica dinamizou uma peti\u00e7\u00e3o que apresentou ao governador civil. Toda a gente assinou. A peti\u00e7\u00e3o n\u00e3o seguiu para Lisboa porque o governador achava que era gente de mais. Procurei esse documento no Governo Civil, mas n\u00e3o o encontrei. Pode ter sido levado pelo fogo que entretanto atingiu o edif\u00edcio. Houve uma manifesta\u00e7\u00e3o em Aveiro com grande participa\u00e7\u00e3o popular, mas o governador n\u00e3o apareceu. \u201cLevei l\u00e1 a gafanhotada toda\u201d, dizia o mestre Manuel Maria Bolais M\u00f3nica [construtor naval].<\/p>\n<p>As reivindica\u00e7\u00f5es contra \u00cdlhavo s\u00e3o uma constante da hist\u00f3ria da Gafanha da Nazar\u00e9?<\/p>\n<p>Ainda em rela\u00e7\u00e3o a este epis\u00f3dio, deixe-me dizer-lhe que depois foram entrevistar Jo\u00e3o Senos, presidente da C\u00e2mara Municipal de \u00cdlhavo, que disse: \u201cAcredito que daqui a uns tempos a Gafanha da Nazar\u00e9 n\u00e3o pertencer\u00e1 a Aveiro nem a \u00cdlhavo, porque ser\u00e1 um concelho\u201d. Disse aquilo para amaciar o pessoal. Mais tarde, um vereador escreveu para o jornal a protestar que o presidente n\u00e3o queria dizer isso. O jornalista respondeu que \u201cpodia n\u00e3o ter querido dizer isso, mas foi o que disse\u201d.<\/p>\n<p>Havia de facto mal estar entre a Gafanha e \u00cdlhavo. O presidente da C\u00e2mara era sempre um ilhavense. Isso s\u00f3 foi atenuado quando foi para a presidente Humberto Rocha (da Gafanha da Nazar\u00e9), seguido de Ribau Esteves (da Gafanha da Encarna\u00e7\u00e3o), que apagou todas essas fogueiras. Ribau Esteves teve a preocupa\u00e7\u00e3o de alterar a situa\u00e7\u00e3o, cumprindo a lei de distribui\u00e7\u00e3o de verbas proporcional ao n\u00famero de pessoas e ao territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O abandono da Gafanha da Nazar\u00e9 estava especialmente patente na quest\u00e3o el\u00e9ctrica\u2026<\/p>\n<p>Quando nos finais da d\u00e9cada de 1940 a energia el\u00e9ctrica passou para a Costa Nova, com a inten\u00e7\u00e3o de chegar ao Farol da Barra, a Gafanha continuava sem nenhuma esp\u00e9cie de energia. Foi a\u00ed que o povo se reuniu, de certa forma revoltado, e fez a Cooperativa El\u00e9ctrica, que foi a maior ac\u00e7\u00e3o da unidade de um povo que apostava em si pr\u00f3prio. Era uma das maiores cooperativas de Portugal, porque todos os habitantes faziam parte dela. Para terem energia el\u00e9ctrica tinham de ser s\u00f3cios. Durou at\u00e9 depois do 25 de Abril. A cooperativa s\u00f3 foi dissolvida com a nacionaliza\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o da energia e a cria\u00e7\u00e3o da EDP. Era eu o presidente da assembleia-geral da cooperativa.<\/p>\n<p>Que import\u00e2ncia teve a par\u00f3quia nesta comunidade relativamente jovem?<\/p>\n<p>H\u00e1 quem me diga que o livro fala muito da par\u00f3quia. Mas foi sem d\u00favida nenhuma \u00e0 sombra igreja que surgiram as principais institui\u00e7\u00f5es. Restaurou-se, por exemplo, o Grupo Desportivo da Gafanha, tendo eu empurrado para presidente da assembleia-geral o P.e Domingos Rebelo, na d\u00e9cada de 50 do s\u00e9culo passado. Outro exemplo: o Grupo Etnogr\u00e1fico nasceu a partir do desafio do P.e Miguel Lencastre. A catequese fazia sempre uma festa no final do ano com pe\u00e7as de base b\u00edblica e cantorias, \u00e0s vezes sem nexo. O P.e Miguel la\u00e7ou o desafiou: por que \u00e9 que voc\u00eas n\u00e3o fazem umas dan\u00e7as como as dos vossos av\u00f3s? O Alfredo Ferreira da Silva era na altura o presidente da catequese e \u00e9 hoje o presidente do Etnogr\u00e1fico. As reuni\u00f5es destes grupos e da cooperativa eram nas salas da igreja. At\u00e9 a primeira Junta de Freguesia, segundo a acta, \u201creuniu-se na sacristia do lado sul da igreja paroquial\u201d.<\/p>\n<p>Os padres foram pessoas determinantes no destino da Gafanha?<\/p>\n<p>Sim, conforme a \u00e9poca. N\u00e3o tinham rasgos, como hoje se v\u00ea, em termos pastorais. A pastoral era de manuten\u00e7\u00e3o, tradicionalista, como noutros lugares. S\u00f3 n\u00e3o conheci o Prior Sardo, que morreu 1925. Eu nasci em 1938. Do segundo prior, P.e Guerra, nunca me lembro de ter feito uma homilia. A missa era em latim, as mulheres estavam sentadas no ch\u00e3o, os homens \u00e0 volta, de p\u00e9. Alguns, mais ricos, tinham cadeiras. O Sr. Jo\u00e3o Catraio, de que falo no meu livro, tinha uma com genuflect\u00f3rio.<\/p>\n<p>Mas o primeiro, o Prior Sardo (1873- 1925), foi fundamental para a cria\u00e7\u00e3o da freguesia.<\/p>\n<p>O P.e Jo\u00e3o Ferreira Sardo foi um grande pol\u00edtico. O P.e Jo\u00e3o Vieira Resende escreveu no jornal \u201cO Ilhavense\u201d, em 1958, que era importante ele meter-se na pol\u00edtica para chegar aos seus fins, criar a par\u00f3quia e a freguesia: O P.e Sardo \u201cdava ordens e directrizes em que era obedecido sem restri\u00e7\u00f5es ou quaisquer objec\u00e7\u00f5es, criando por esta forma ambiente favor\u00e1vel \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da freguesia, que ele desde h\u00e1 muito tempo trazia em mente\u201d. Era o \u201crei daquelas terras\u201d. O Prior Sardo tornou-se vereador e foi vice-presidente da C\u00e2mara de \u00cdlhavo. Aproveitando uma sa\u00edda tempor\u00e1ria do presidente, ordenou o pagamento da rua da Gafanha de Aqu\u00e9m at\u00e9 \u00e0 Gafanha da Nazar\u00e9. E liderou, na realidade, o processo de cria\u00e7\u00e3o da par\u00f3quia e freguesia.<\/p>\n<p>Entre os fundadores da freguesia e par\u00f3quia, al\u00e9m do povo, D. Manuel II, D. Manuel de Bastos Pina (Bispo de Coimbra) e o Prior Sardo, colocou no seu livro Nossa Senhora da Nazar\u00e9. Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Porque andava tudo \u00e0 volta do seu culto. Ningu\u00e9m sabe como surgiu aqui o seu culto, que ser\u00e1 anterior \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o da par\u00f3quia. Quando o Bispo de Coimbra mandou os examinadores para confirmarem se havia condi\u00e7\u00f5es, o povo disse que queria que a padroeira fosse Nossa Senhora da Nazar\u00e9. Assim ficou.<\/p>\n<p>Hoje a Gafanha est\u00e1 muito ligada ao mar, principalmente \u00e0s actividades portu\u00e1rias. No in\u00edcio tamb\u00e9m foi assim?<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muita gente pensa, n\u00e3o foi assim. Colhi esse testemunho dos mais velhos. Eram principalmente agricultores, embora hoje haja pouca agricultura. Tinham a ria ao p\u00e9, mas n\u00e3o pescavam, nem apanhavam o moli\u00e7o. Os moliceiros vinham da Murtosa e de Estarreja.<\/p>\n<p>Mas a forma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica da Gafanha \u2013 ou mesmo das Gafanhas \u2013 est\u00e1 muito dependente da regulariza\u00e7\u00e3o da Barra\u2026<\/p>\n<p>Sim, mas quando abriram a Barra, em Abril de 1808, durante as Guerras Peninsulares [os barcos para a manuten\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito luso-ingl\u00eas j\u00e1 passaram pela Barra), o crescimento n\u00e3o foi de rompante. Mas hoje podemos dizer que a Gafanha \u00e9 filha do porto, sem d\u00favida nenhuma. O primeiro estaleiro veio para aqui em 1889.<\/p>\n<p>Velha hist\u00f3ria \u00e9 a da origem etimol\u00f3gica do nome \u201cGafanha\u201d. H\u00e1 hoje alguma teoria que seja mais consensual?<\/p>\n<p>Brinco com isso no livro. Uma teoria que diz que prov\u00e9m de \u201cgadanha\u201d, alfaia de cortar o junto e o recebolo. Como o gafanh\u00e3o era muito iletrado e deturpava muito as palavras, gadanha teria dado origem a Gafanha. Outra teoria diz que prov\u00e9m de \u201cpagar o gafar\u201d, um imposto para atravessar a ria. Outra, ainda, diz que era uma \u201cterra gafada\u201d, cheira de gretas da lama e do sol, como a pele dos leprosos\u2026 Ou que prov\u00e9m de \u201cgafo\u201d, leproso. Mas n\u00e3o consta que os leprosos viessem para aqui, embora os houvesse em Vagos e Mira.<\/p>\n<p>A minha ideia \u00e9 que \u201cGafanha\u201d provenha de \u201cGalafanha\u201d, \u201cGala + F\u00e2nia\u201d, que \u00e9 tamb\u00e9m a opini\u00e3o do Monsenhor Jo\u00e3o Gaspar, que muito preso. \u201cGala\u201d quer dizer \u201cterra alagada\u201d (h\u00e1 uma Gala na Figueira da Foz); \u201cf\u00e2nia\u201d \u00e9 junco, que existe em abund\u00e2ncia nas margens da ria.<\/p>\n<p>Para terminar, o que destaca como motivo para visitar a Gafanha da Nazar\u00e9?<\/p>\n<p>Tenho andado um bocado obcecado com a paisagem da ria. O desenvolvimento \u00e9 muito bonito, mas tiraram a ria \u00e0 Gafanha da Nazar\u00e9. A ria desaparece dos nossos olhares em toda a faixa at\u00e9 \u00e0 Barra. Os portos industrial, comercial, de pesca long\u00ednqua e costeira ocuparam toda a faixa da ria. S\u00f3 temos acesso \u00e0 ria, muito apertado, na Associa\u00e7\u00e3o N\u00e1utica e Recreativa da Gafanha da Nazar\u00e9. Julgo que a C\u00e2mara est\u00e1 interessada em desenvolver nova liga\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>A nossa sala de visitas \u00e9 o Jardim Oudinot, com o navio-museu Santo Andr\u00e9. N\u00e3o temos grandes monumentos. H\u00e1 algumas est\u00e1tuas e uma \u00e2ncora que evoca os homens da nossa terra que andaram e andam no mar, mas somos uma terra pobre em hist\u00f3ria. Por sermos pobres temos de dar mais valor \u00e0s nossas coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Gafanha da Nazar\u00e9, par\u00f3quia e freguesia, tem vindo a celebrar os 100 anos de exist\u00eancia. D. 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