{"id":22788,"date":"2011-05-04T10:13:00","date_gmt":"2011-05-04T10:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22788"},"modified":"2011-05-04T10:13:00","modified_gmt":"2011-05-04T10:13:00","slug":"retrato-de-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/retrato-de-familia\/","title":{"rendered":"Retrato de fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Com que emo\u00e7\u00e3o, S. Pedro nos quer apresentar este retrato! (1.\u00aa leitura). Note-se que j\u00e1 no tempo dele, vai para dois mil anos, muitas das figuras e rostos teriam sido criativamente elaborados \u2013 at\u00e9 os historiadores mais \u00abobjectivos\u00bb se preocupavam com iniciar os leitores no pouco ou nada vis\u00edvel mundo dos sentimentos e do sobrenatural envolvente. (Mas o que s\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es actuais sobre uma s\u00e9rie de \u00abfactos\u00bb?).<\/p>\n<p>S. Pedro est\u00e1 de p\u00e9, com os onze ap\u00f3stolos (Matias j\u00e1 tinha ocupado o lugar de Judas), e certamente outros disc\u00edpulos, entre os quais deveria ser not\u00e1vel \u00aba quota\u00bb feminina. A um cantinho do grupo, os dois disc\u00edpulos de Ema\u00fas, de mochila e bord\u00e3o, com o ar sorridentemente atordoado por terem viajado com Jesus sem serem capazes de o reconhecer.<\/p>\n<p>Espantosamente, a figura principal aparece t\u00e3o colorida e endeusada que \u00e9 mesmo preciso que nos digam que se trata de Jesus. Com efeito, e logo desde os primeiros tempos, \u00e9 apresentado muitas vezes com a nobreza de um rei superior aos outros reis, \u00absentado \u00e0 direita de Deus\u00bb, o \u00abSenhor dos Senhores\u00bb. A arte e a pr\u00f3pria teologia (quando se perde em demasiadas especula\u00e7\u00f5es), mesmo se com as melhores inten\u00e7\u00f5es, tornaram dif\u00edcil descobrir a figura simples, de autoridade natural, e t\u00e3o dedicada \u00e0 causa da humanidade, que soube \u00abamar at\u00e9 ao extremo\u00bb (Jo\u00e3o 13,1).<\/p>\n<p>S. Pedro retocou a imagem de Jesus com a paleta m\u00edstica do Antigo Testamento \u2013 no que tinha mais do que raz\u00e3o, pois n\u00e3o se compreende a linguagem e simbolismo dos livros do Novo Testamento sem o conhecimento b\u00e1sico do meio cultural em que Jesus nasceu.<\/p>\n<p>Uma ideia chave na religi\u00e3o judaico-crist\u00e3 \u00e9 a de \u00abdes\u00edgnio de Deus\u00bb: que n\u00e3o se pode distinguir do processo temporal do universo, e particularmente do \u00abuniverso espiritual\u00bb \u2013 o universo dos seres capazes de liberdade. \u00c9 dentro deste des\u00edgnio que todos os seres s\u00e3o chamados \u00e0 exist\u00eancia e particularmente \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Lucas p\u00f5e na boca de S. Pedro uma releitura do salmo 16 (8-11) atribu\u00eddo ao rei David. Aplica-o a Jesus Cristo, o perfeito \u00abfiel de Deus\u00bb, que ser\u00e1 liberto do sofrimento e da morte. Note-se que o \u00abMessianismo\u00bb, no sentido geral de um futuro esperan\u00e7oso, em que a humanidade acabar\u00e1 por sair vitoriosa da sua constante luta contra o mal, \u00e9 logo formulado no Livro do G\u00e9nesis (3,15), sob a imagem da descend\u00eancia de Ad\u00e3o que esmaga a cabe\u00e7a da serpente. Quando se instituiu a realeza, o rei passou a ser imagem viva da justi\u00e7a de Deus \u2013 David e seu filho Salom\u00e3o ter\u00e3o um descendente \u00absalvador\u00bb com poderes sobre-humanos (Isa\u00edas 9,5), mas humilde, portador de paz, e \u00abrei\u00bb s\u00f3 na medida em que defende o \u00abreino de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>A este homem t\u00e3o livre e coerente na defesa duma vida mais aut\u00eantica e justa para todos, que aceitou sofrer e morrer, como consequ\u00eancia das suas posi\u00e7\u00f5es em palavras e actos, deu-lhe Deus \u00aba Gl\u00f3ria\u00bb junto de si \u2013 o que, na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, significa que \u00abDeus ressuscitou Jesus\u00bb (1.\u00aa e 2.\u00aa leituras). <\/p>\n<p>A \u00abGl\u00f3ria de Deus\u00bb \u00e9 pois a Vida perfeita \u2013 uma realidade imposs\u00edvel de retratar. Por esta e outras raz\u00f5es, n\u00e3o podemos idolatrar os retratos e muito menos ver nelas \u00abmodelos\u00bb r\u00edgidos para o futuro \u2013 o que os tornaria rid\u00edculos. Os \u00abretratos de fam\u00edlia\u00bb, sejam eles quais forem, mas de modo especial os da \u00abfam\u00edlia de Jesus\u00bb (formada por todos aqueles que meditam sobre o que \u00e9 \u00aba vontade de Deus\u00bb \u2013 Mateus 12,50), t\u00eam lugar especial \u00e0 volta da lareira \u2013 onde arde sem descanso o fogo da vida, alimentado pelos sentimentos de carinho e harmonizando passado, presente e futuro. Se o passado nos fala, \u00e9 para nos ajudar a ser livres do que est\u00e1 na moda ou do que agrada a quem det\u00e9m o poder; a saber detectar o bem no meio do mal, e a ganhar experi\u00eancia para eliminar as cores falsas da realidade. <\/p>\n<p>Para maior consola\u00e7\u00e3o, se descobrirmos, entre a confus\u00e3o dos que se fizeram ao retrato, uns tantos vultos de disc\u00edpulos mal amanhados \u2013 \u00e9 porque fomos retratados na perfei\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-22788","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22788","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22788"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22788\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22788"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22788"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22788"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}