{"id":22978,"date":"2011-05-18T10:09:00","date_gmt":"2011-05-18T10:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=22978"},"modified":"2011-05-18T10:09:00","modified_gmt":"2011-05-18T10:09:00","slug":"palavras-omitidas-vidas-empobrecidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/palavras-omitidas-vidas-empobrecidas\/","title":{"rendered":"Palavras omitidas, vidas empobrecidas"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos tempos and\u00e1mos a celebrar canoniza\u00e7\u00f5es e beatifica\u00e7\u00f5es de santos que nos dizem respeito mais de perto. Foi S\u00e3o Nuno de Santa Maria, os Pastorinhos de F\u00e1tima Bartolomeu dos M\u00e1rtires, Alexandrina de Balazar, Irm\u00e3 Rita Amada de Jesus e agora Jo\u00e3o Paulo II e a Irm\u00e3 Maria Clara do Menino Jesus, fundadora das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. As causas referentes a crist\u00e3os portugueses a decorrer neste momento, em Roma, s\u00e3o muitas: Padre Am\u00e9rico, Irm\u00e3 Luiza Andaluz, Padre Joaquim Br\u00e1s, S\u00edlvia Cardoso, Irm\u00e3 Teresa de Saldanha, Irm\u00e3 Wilson, Irm\u00e3 Maria da Concei\u00e7\u00e3o Rocha, Irm\u00e3 L\u00facia de Jesus, Padre Cruz, al\u00e9m de outras, mais e menos antigas que, agora, n\u00e3o me v\u00eam \u00e0 mem\u00f3ria. Mesmo n\u00e3o as recordando todas, porque de facto h\u00e1 mais, d\u00e1 para ver que s\u00e3o muitas. N\u00e3o sei se todas as causas chegar\u00e3o a bom \u00eaxito, dada a complexidade dos processos e a espera de um milagre comprovado, cuja falta pode arrumar algumas delas no ba\u00fa das boas recorda\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Ao falar de santidade \u00e9 preciso, por\u00e9m, esclarecer e desfazer confus\u00f5es. Quando se aponta a honra dos altares, como horizonte de santidade, pode esquecer-se que a santidade n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de alguns, mas a voca\u00e7\u00e3o comum de todos os baptizados. Como filhos de Deus, s\u00e3o chamados a participar, desde agora, da Sua santidade. Para a\u00ed se devem orientar sempre a sua vida e ac\u00e7\u00f5es do dia a dia, qualquer que seja a condi\u00e7\u00e3o social, idade, cultura, l\u00edngua, ra\u00e7a ou estado. Logo no in\u00edcio do itiner\u00e1rio da vida crist\u00e3 h\u00e1 que pensar o que verdadeiramente justifica o pedido de Baptismo por parte dos pais ou do pr\u00f3prio baptizando \u00e9 a vontade de ser santo, a decis\u00e3o de ser de Deus. Se \u00e9 mais f\u00e1cil perceber esta vontade e desejo num catec\u00fameno adulto, ela deve estar, tamb\u00e9m, na decis\u00e3o e no pedido dos pais, quando se trata de baptizar uma crian\u00e7a, e deve acompanh\u00e1-la ao longo da vida. Educar na f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 maturidade faz-se neste horizonte e com este sentido.<\/p>\n<p>Por outro lado, o facto de vermos muitos religiosos e religiosas e de alguns padres e leigos j\u00e1 nos altares como modelos de santidade, n\u00e3o pode fazer esquecer a multid\u00e3o de santos an\u00f3nimos, jovens e adultos, que nas diversas comunidades crist\u00e3s d\u00e3o testemunho de seriedade evang\u00e9lica e de vida impoluta, no meio das dificuldades das tarefas familiares, profissionais e sociais. Nestes se pode encontrar e ver a santidade como ideal normal de vida. Ao longo dos anos tenho encontrado pessoas comuns, sem nada de pieguice, que os santos nunca foram piegas, que denunciam vidas onde o amor de Deus sempre ocupou o primeiro lugar, traduzindo este amor num generoso e dispon\u00edvel servi\u00e7o aos outros, sem barulho, mas com efici\u00eancia, respeito e verdade.<\/p>\n<p>O caminho da santidade \u00e9 o caminho do amor que se vai purificando, se vai tornando cada vez mais gratuito, oblativo e contagiante. Quem se sente amado e procura retribuir de gra\u00e7a o que de gra\u00e7a recebeu entende bem que este \u00e9 o ideal crist\u00e3o, caminho aberto para todos. <\/p>\n<p>Os crist\u00e3os que mais me marcaram na vida n\u00e3o foram sempre os mais eruditos mestres da cultura humana ou mesmo teol\u00f3gica, mas gente humilde e simples que me permitiu perceber, de modo claro e pr\u00e1tico, o que \u00e9 a sabedoria do Esp\u00edrito. Muitos deles, sem letras humanas, mas com muita humildade, que \u00e9 sempre o caminho certo que leva a Deus, \u00e0 compreens\u00e3o do Seu mist\u00e9rio, \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da Sua vontade, ao servi\u00e7o aos outros. Gente que aprendeu na vida, pela f\u00e9 animada pelo amor, o segredo da confian\u00e7a e da entrega sem limites, nem condi\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Lamentavelmente hoje fala-se pouco de santidade, aponta-se pouco a santidade como ideal de uma vida crist\u00e3, esquecendo-se que \u201csanto \u00e9 o crist\u00e3o normal\u201d. N\u00e3o se tem conseguido clarificar, suficientemente, o conceito de santidade, que tem menos a ver com a honra dos altares, e mais com o viver di\u00e1rio de um filho de Deus. Quem assim ainda n\u00e3o entendeu, apesar dos anos de catequese, tem reac\u00e7\u00f5es imprevistas que fazem pensar.<\/p>\n<p>Dois casos que ilustram as omiss\u00f5es que limitam, a ponto de se contentar e resignar a aves de capoeira de voos rasos, quando se tem capacidade para ter voos de \u00e1guia.<\/p>\n<p>Na homilia, momentos antes da crisma\u00e7\u00e3o, perguntei a uma jovem que se ia crismar: \u201cTu queres ser santa?\u201d \u201cAi, credo, que n\u00e3o \u00e9 para tanto!\u201d Foi a resposta espont\u00e2nea que ouvi ao meu desafio. Ouvi h\u00e1 dias um bispo amigo contar que, no fim de uma celebra\u00e7\u00e3o, com a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, disse \u00e0 jovem ac\u00f3lita que acabava de o servir: \u201cDeus te fa\u00e7a uma santa\u201d. Ela, como que indignada, gritou: \u201cSanta, n\u00e3o, senhor Bispo!\u201d Ambas pensaram que se lhes propunha o altar ou o nicho do templo. Os verdadeiros santos nunca tiveram, como ideal a atingir, o altar ou o nicho\u2026 <\/p>\n<p>As omiss\u00f5es indevidas geram sempre uma pobreza de horizontes. Ser santo tem apenas a ver com a fidelidade a Deus, no seguimento de Jesus Cristo, que convidava a fazer caminho com Ele, levando a cruz do dia a dia, com crit\u00e9rios do Evangelho e n\u00e3o meros gostos pessoais.<\/p>\n<p>O mundo precisa, cada vez mais, de testemunhas que, pelo seu encontro pessoal com Cristo, mostrem a felicidade deste encontro e proponham aos outros o caminho para uma igual experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que aos mordomos das festas, para as quais tem sempre de haver um santo, porque de outro modo o povo n\u00e3o contribui, j\u00e1 alguma vez foi dito, de modo a que ou\u00e7am e entendam, onde est\u00e1 a raz\u00e3o porque o seu santo \u00e9 homenageado e festejado? E lhes foi dito tamb\u00e9m que alguns dos conjuntos que contratam para estas festas a pre\u00e7os escandalosos, em detrimento da necessidades das popula\u00e7\u00f5es, mais vilipendiam os santos com suas brejeirices, que os honram e respeitam pela discut\u00edvel compet\u00eancia? E ao povo que aplaude o lixo que estes conjuntos espalham na festa, j\u00e1 se disse da sua incoer\u00eancia como crist\u00e3os a homenagear os seus santos?<\/p>\n<p>A santidade \u00e9 um projecto de todos os dias, de gente normal e coerente que, por um esfor\u00e7o de perfei\u00e7\u00e3o, mostra e convida a prosseguir sem desistir. <\/p>\n<p>Haja quem o diga, porque h\u00e1 muita gente que nunca o ouviu de modo a entender e a guardar, a fim de lhe mover o cora\u00e7\u00e3o e a vontade, e entrem assim nesta apaixonante aventura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos tempos and\u00e1mos a celebrar canoniza\u00e7\u00f5es e beatifica\u00e7\u00f5es de santos que nos dizem respeito mais de perto. 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