{"id":23071,"date":"2011-06-29T10:53:00","date_gmt":"2011-06-29T10:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23071"},"modified":"2011-06-29T10:53:00","modified_gmt":"2011-06-29T10:53:00","slug":"de-cavalo-para-burro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/de-cavalo-para-burro\/","title":{"rendered":"&#8220;De cavalo para burro&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu <!--more--> Assim parece, a avaliar pela 1.\u00aa leitura. Todo o cap. 9 do livro de Zacarias aviva a promessa de um Rei justo, que a for\u00e7a de Deus torna vencedor, e que trar\u00e1 uma nova era de paz n\u00e3o s\u00f3 para Israel como para todos os povos vizinhos. Com a sabedoria de quem se deixa guiar por Deus, n\u00e3o quer aparecer montado num soberbo cavalo, com o esplendor de arreios luxuosos. Este aparato \u00e9 pr\u00f3prio dos reis que partem para a guerra, s\u00f3 atraindo gente belicosa e vaidosa, em geral mercen\u00e1rios que aproveitam um tempo de ostenta\u00e7\u00e3o e aparente submiss\u00e3o a um chefe para alcan\u00e7arem riqueza e poder. Mas o rei da 1.\u00aa leitura, porque \u00e9 o \u00abungido\u00bb ou \u00abescolhido\u00bb (\u00abmessias\u00bb) de Deus, tem a no\u00e7\u00e3o da verdadeira autoridade, que produz a paz. E como s\u00edmbolo dessa miss\u00e3o de paz, apresenta-se montado num jumentinho, animal impr\u00f3prio para a guerra e in\u00fatil para ostenta\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>Os quatro evangelistas viram nesta passagem o pren\u00fancio de um mundo novo, radicado n\u00e3o no poder e na ostenta\u00e7\u00e3o mas numa s\u00f3lida atitude interior de paz; e que esse rei-messias prefigura Jesus \u00abo Cristo\u00bb (\u00abo Messias\u00bb por antonom\u00e1sia). Ambos se encaminharam singelamente para Jerusal\u00e9m, para a\u00ed darem testemunho  do come\u00e7o dif\u00edcil de um novo tipo de progresso, baseado na vontade esclarecida para o bem da humanidade.<\/p>\n<p>O evangelho de hoje fala da import\u00e2ncia dos \u00abpequeninos\u00bb. \u00abEstes pequeninos\u00bb, por\u00e9m, referem-se aos disc\u00edpulos, pessoas fora do c\u00edrculo de poder em que gostavam de se movimentar os \u00abescribas e fariseus\u00bb. N\u00e3o s\u00e3o necessariamente gente inculta e muito menos \u00abinfantil\u00bb. Nesta passagem, Jesus aparece como \u00abo enviado de Deus\u00bb, a quem seguimos por vontade pr\u00f3pria e com o desejo de desenvolver plenamente a nossa personalidade \u2013 e assim encontraremos a paz que pode vencer as guerras dentro de n\u00f3s e \u00e0 nossa volta. <\/p>\n<p>\u00c9 um facto que Jesus defendeu as \u00abcriancinhas\u00bb, iluminando o valor real que lhes compete. E nisso foi revolucion\u00e1rio, porque nesse tempo (mas n\u00e3o s\u00f3\u2026) as crian\u00e7as eram olhadas com desd\u00e9m e at\u00e9 objecto de viol\u00eancia. Por\u00e9m, os tempos modernos ca\u00edram no erro oposto, esquecendo que a raz\u00e3o de ser da crian\u00e7a \u00e9 o adulto que nela se vai construindo. O natural \u00e9 que a crian\u00e7a deseje ser adulta.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rias passagens das suas cartas, S. Paulo alerta para o perigo de ficarmos no infantilismo, sem vontade de crescer e de atingir a maturidade humana de que Jesus foi exemplo. O seu estilo \u00e9 frequentemente dif\u00edcil de entender e de aplicar \u00e0 vida actual, de tal modo utiliza uma base cultural e um tipo de argumenta\u00e7\u00e3o s\u00f3 poss\u00edveis num judeu culto da \u00e9poca de Cristo. No trecho de hoje, ele diz: \u00abSe viverdes segundo a carne, morrereis\u00bb. <\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o se trata de \u00abpecados sexuais\u00bb (abusivamente catalogados, ao longo dos s\u00e9culos, como origem de toda a deprava\u00e7\u00e3o). A \u00abcarne\u00bb (grego \u00absarx\u00bb) e o \u00abesp\u00edrito\u00bb (\u00abpneuma\u00bb) representavam dois aspectos insepar\u00e1veis da plenitude do ser humano. \u00abCarne\u00bb designa a natureza fr\u00e1gil da humanidade, embora dotada de vitalidade, intelig\u00eancia e vontade; \u00abEsp\u00edrito\u00bb \u00e9 o contrapeso desta debilidade, pois refere a capacidade do ser humano de se unir com a \u00abVida\u00bb (ou Esp\u00edrito) de Deus. Por isso, \u00abseguir a carne\u00bb \u00e9 n\u00e3o se importar com Deus, n\u00e3o tirando proveito da for\u00e7a divina \u2013 e arriscando-nos a ficar sempre no est\u00e1dio do prazer \u00abinfantil\u00bb, nunca chegando ao prazer \u00abadulto\u00bb (\u00abadulto\u00bb significa \u00abalimentado\u00bb, \u00abcrescido\u00bb).<\/p>\n<p>\u00abSer pequenino\u00bb n\u00e3o \u00e9 assim uma coisa t\u00e3o positiva\u2026 E contudo, estamos no tempo da \u00abnanocracia\u00bb, em que tudo parece tanto mais eficiente quanto mais pequenino!<\/p>\n<p>Tanto em pol\u00edtica como em religi\u00e3o, n\u00e3o falte quem se interesse sobretudo pela impress\u00e3o de grandeza, como se guardassem a verdade em cofres de oiro. Mas a verdade n\u00e3o liga bem com um cavalo soberbo e muito menos pode ser aprisionada. A verdade avan\u00e7a com a simplicidade e firmeza de um burrinho, que parece perder-se na multid\u00e3o \u2013 e assim fermenta a humanidade inteira. <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23071","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23071","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23071"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23071\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23071"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23071"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23071"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}